Luiz Ernesto Magalhães
O Globo
Obras de instalações importantes sequer começaram, como o Parque Olímpico de Deodoro
Agência O Globo / Márcia Foletto
A ponte estaiada do BRT Transcarioca, que liga a Barra ao Aeroporto Internacional
Tom Jobim: projeto precisa estar integrado a outros sistemas de transporte
para não virar apenas um “meio-legado” em mobilidade
RIO - O bordão "imagina na Copa" ganhou as ruas nos últimos anos como sinônimo de trânsito engarrafado, atrasos em obras e até de pequenos problemas do cotidiano, como aquela conta que veio com dois chopes a mais. Quando Brasil e Croácia entrarem em campo quinta-feira, no Itaquerão, em São Paulo, os cariocas ainda terão motivos para se preocupar. Ok, não deu para a Copa. Fica, então, a questão: imaginou nas Olimpíadas?
Na contagem regressiva para o Mundial, nem tudo que foi prometido para o Rio andou na velocidade prevista. Mesmo alguns projetos que saíram do papel, como o BRT Transcarioca (entre a Barra e o Aeroporto Tom Jobim) dependem de mais recursos para que não se transformem em um meio legado. O problema é que, em se tratando de 2016, o Rio já andou levando cartões amarelos da comunidade esportiva internacional.
Obras de instalações importantes sequer começaram, como o Parque Olímpico de Deodoro, e não se sabe como estarão os níveis de poluição da Baía de Guanabara e se a meta de limpar 80% das águas vai ser cumprida. Há ainda as promessas para projetos que, devido ao volume de intervenções, já se sabia que não seriam mesmo concluídos até a Copa, como a conclusão das obras do projeto Porto Maravilha.
- Não adianta ficar criticando ou torcendo contra. Temos que ter capacidade de, após o evento, fazer uma análise do que funcionou ou não, porque depois teremos uma Olimpíada - observa Pedro de Lamare, presidente do Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes do Rio.
As obras do Maracanã, que custaram cerca de R$ 1,2 bilhão, escondem o fato de o estádio estar longe de ter o conceito original pensado para o local: a transformação de uma arena voltada para o futebol num complexo de lazer com bares, restaurantes e um museu temático. O presidente do Complexo Maracanã Entretenimento S/A, João Borba Filho, explicou que aguarda pareceres de órgãos públicos para implantar o projeto no entorno do Parque Aquático Julio Delamare, que terá que ser recuperado pela concessionária que explora o estádio para as provas de polo aquático das Olimpíadas:
- Queremos que as famílias possam passar o dia no estádio, mas não havia tempo para fazer as obras até a Copa. Os conceitos praticados nos eventos da Fifa, no entanto, serão mantidos, inclusive de limpeza, acessibilidade e segurança.
O executivo, no entanto, antecipou que algumas intervenções terão que ficar mesmo para depois das Olimpíadas, como a recuperação do prédio do antigo Museu do Índio:
- Não temos condições de interferir ali rapidamente.
Os atrasos também criaram situações curiosas. Em 2010, a prefeitura buscou financiamentos no governo federal para realizar intervenções na Grande Tijuca, incluindo a construção de piscinões, para tentar acabar com as enchentes no entorno da Praça da Bandeira, e modificações na rede de drenagem para desviar a água das chuvas. Apesar de as obras nunca terem constado do caderno de encargos da Copa, um dos argumentos era que tratava-se de um projeto importante para o Mundial. As obras atrasaram, e os investimentos de R$ 600 milhões acabaram no Plano de Legado dos Jogos Olímpicos, com prazos de conclusão para o segundo trimestre de 2015.
Na área de transportes, o BRT Transcarioca custou R$ 2,2 bilhões e foi inaugurado com um ano de atraso. Na Copa, circulará ainda em teste e apenas com parte das estações abertas. Especialistas alertam que, sozinho, o modelo não resolverá os problemas de mobilidade do Rio, pois tem que operar integrado a outros sistemas, nos quais se investirão recursos até 2016. Entre eles, estão a renovação da frota de trens do Metrô e da Supervia; o funcionamento de dois novos corredores de BRTs - o Transolímpico (entre Barra e Deodoro) e o Transbrasil (entre Barra e o Centro); a inauguração das linhas de VLT no Centro; e obras do Metrô entre a Zona Sul e a Barra.
- É preciso que os outros sistemas estejam preparados para receber esses passageiros. Por isso, os demais projetos não podem ficar apenas no campo das promessas - alertou o professor do Departamento de Engenharia em Transportes da Uerj, José de Oliveira Guerra, que já trabalhou no planejamento do transporte público da prefeitura
No Porto, o plano de modernização do terminal de recepção de passageiros não sairá do papel nem para as Olimpíadas. No Tom Jobim, mesmo se as obras previstas ficassem prontas, ainda assim seriam necessários mais investimentos. A concessionária que assumirá a operação em agosto promete gastar R$ 2 bilhões em melhorias até 2016. No setor hoteleiro, gol contra para o icônico Hotel Glória: com as dificuldades financeiras do Grupo EBX, ele, que ficaria pronto para a Copa, passou ao controle do grupo Acron. Agora, deve ser aberto em 2015.
Fernanda Abreu: ‘Não adianta calar a minha boca com futebol’
A cantora Fernanda Abreu é daquelas cariocas que adoram ir ao estádio (no caso dela, para torcer pelo Vasco), discutir futebol e vestir a camisa azul da seleção (“é a da sorte”) durante a Copa do Mundo. Em 2007, ela vibrou com a escolha do Brasil como sede. Mas, diferentemente do que a própria cantora esperava, às vésperas dos jogos ela foi tomada por um sentimento de frustração.
— Para a gente que gosta de futebol é um prazer enorme poder ver os jogos e acompanhar como estão as seleções, as novas táticas e técnicas. Isso é fantástico — diz Fernanda. — Mas acho que essa Copa perdeu um pouco do brilho. Em 2007, todos tinham a esperança de que o Brasil seria capaz de realizar bem esse evento. Mas o Brasil perdeu essa possibilidade de mostrar para o povo brasileiro, e não para o gringo, que a gente já está nesse nível de planejamento, organização e seriedade.
A cantora de “Rio 40 graus” não se lembra de ter vivido uma Copa tão fria na cidade.
— O Rio nunca esteve tão pouco festivo em relação à Copa. Mas eu também não sou aquela que vai ficar jogando ovo em jogador. Não tem nada a ver. Temos que separar bem as coisas — diz a cantora. — Felipão está fazendo o máximo para que essa seleção vença. Mas é legal o povo conseguir, finalmente, separar essa dimensão do futebol e o que a gente quer para o Brasil. Mostra um amadurecimento. É o “não adianta calar a minha boca com futebol”.
E não faltam reclamações: para ela, o Aeroporto Tom Jobim deixa a desejar, e o trânsito do Rio só tem piorado. O momento, afirma, é de reflexão, independentemente do desempenho da seleção:
— Alegria é muito importante para a vida, mas não pode se confundir com alienação. Daqui a dois anos teremos as Olimpíadas. Vai ser uma grande frustração de novo, se a gente não tiver o negócio bombando. Fica chato para a gente. O problema não é o que os gringos vão pensar. É o que a gente vai achar do nosso país, da nossa capacidade. (Ludmilla de Lima).
