quinta-feira, julho 24, 2014

EMPREGO: ‘Trabalha-se sete meses, ganha-se 12’, diz economista

Clarice Spitz
O Globo

Para José Márcio Camargo, quanto menor a taxa de desemprego, maior é o incentivo para ser demitido

RIO - Na década de 1990, o economista da PUC-Rio propôs que se deveria escolher entre o seguro-desemprego e o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Décadas depois, avalia que o pleno emprego complicou ainda mais o troca-troca no mercado de trabalho e que a legislação não incentiva a manutenção do trabalhador no emprego.

Qual é a origem da alta rotatividade brasileira?
Quando um trabalhador é demitido, ele ganha um prêmio, uma recompensa financeira, que é composta pelo saldo do FGTS, a multa de 40% do fundo, o seguro-desemprego e o aviso prévio. Uma pessoa que ganhe um salário mínimo e que trabalhe sete meses, ganha por 12 meses. Quanto menor a taxa de desemprego, maior o incentivo para ser demitido. Há muitos que são demitidos e ficam por um tempo na informalidade, recebendo sem carteira até acabar o seguro-desemprego. Ou seja, recebem dois salários.

É uma atitude premeditada?
No caso dos trabalhadores, não estou falando do funcionário da Vale, mas do cara do boteco da esquina, do vigia. Só diz que não conhece essa prática quem nunca contratou ninguém. Desde a década de 1990, pouca coisa foi feita. O aviso prévio proporcional ao tempo de serviço piorou as coisas. O profissional que é qualificado não vai querer ser demitido. Para o não qualificado, o boy, o garçom, vale mais a pena rodar e ser demitido.

Quais as implicações do troca-troca de emprego?
Esse é o problema mais sério da legislação trabalhista brasileira. É uma das principais razões para termos uma produtividade tão baixa. Sem diminuir a rotatividade, não se aumenta a produtividade. A história de outros países mostra que a reforma trabalhista é uma das coisas mais difíceis de serem feitas. Há muitos interesses. Historicamente, as reformas são feitas quando o mercado de trabalho não está bem.

Por que os trabalhadores têm menos poder de barganha?
Desemprego alto não é bom para ninguém. Os empresários também não gostam de desemprego alto. As empresas e os trabalhadores têm um horizonte muito curto. A legislação incentiva os dois agentes a ter uma atitude oportunista.