quinta-feira, julho 24, 2014

INSENSIBILIDADE ABSURDA: Aluna com deficiência pode perder bolsa do Ciência Sem Fronteiras por falta de acompanhante

Leonardo Vieira
O Globo

Mãe da menina, que ajuda a filha desde que nasceu, não teve financiamento da Capes para viajar

Arquivo Pessoal
Acompanhando Aline desde o nascimento, Rosemary foi impedida 
de viajar com sua filha para o Ciência Sem Fronteiras 

RIO - Acostumada a superar obstáculos há mais de 20 anos, a estudante de Biologia na PUC-MG Aline Castro se deparou com uma nova barreira. Diagnosticada com atrofia muscular progressiva tipo 2, doença congênita que impede sua locomoção, ela foi aprovada no edital 156 do programa Ciência Sem Fronteiras (CsF) para a Universidade do Kentucky, nos EUA. Mas Aline foi da alegria à tristeza quando a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) negou os recursos para sua mãe acompanhá-la na viagem. Com ida marcada para agosto, mas sem a pessoa que a acompanha desde o nascimento, a menina está desistindo de seu sonho.

O episódio jogou luz na questão dos bolsistas com necessidades especiais no CsF. Os editais do processo seletivo do Ciência sem Fronteiras não regulamentam os procedimentos a serem tomados em casos de bolsistas que requeiram atendimento especial. No entanto, Aline indicou que tinha a doença ao preencher o Common Application, formulário básico do Institute of International Education (IIE), instituição que mantém parceria de intercâmbios com o CsF.

- Lá eles perguntavam se eu tinha necessidades especiais. Eu não só respondi que tinha, mas pedi para que minha mãe fosse comigo. Ela cuida de mim desde que nasci. Ela me ajuda no banho, me ajuda a escovar os dentes, me leva todo dia na faculdade e fica esperando a aula terminar para me levar para casa. Enfim, ela era a pessoa ideal para cuidar de mim lá. Eu nunca imaginaria que meu pedido fosse negado – comenta Aline.

Mas foi. Antes mesmo de sua aprovação, notícia que chegou em meio ao jogo entre Brasil e México na Copa do Mundo, Aline deu entrada nos procedimentos necessários para a viagem, como vistos e hospedagem. Por não haver consulado americano em Belo Horizonte, a menina veio ao Rio para obter o documento. Ela teria de voltar à capital fluminense para ter em mãos o passaporte carimbado.

Arquivo Pessoal 
Aline já veio com sua família ao Rio para dar entrada 
no visto americano no consulado dos Estados Unidos 

- Mas não sei se vou mais. Depois que soubemos que minha mãe não poderia ir. Nem passagem nos compramos. Não estou vendo outra saída a não ser desistir – lamentou Aline.

A estudante teve o pedido recusado dias depois de saber que foi aprovada. Sua mãe, Rosemary Castro, chegou conversar um membro da Diretoria de Relações Internacionais da Capes, mas sem sucesso.

- Ele me disse que se abrissem uma exceção para minha filha, teriam de abrir também para outros 20 mil estudantes com necessidades especiais que já se candidataram no programa – alegou Rosemary.

O GLOBO entrou em contato com a Capes, mas até o momento não obteve resposta.

Em sua conversa com um funcionário da Capes, Rosemary propôs ainda de que o órgão financiasse a ida por apenas os 30 primeiros dias, a fim de que ela pudesse instruir enfermeiros locais sobre como cuidar de Aline:

- Eu fico com minha filha há mais de 20 anos. Sou a pessoa que mais sabe do quê ela precisa, e quando ela precisa. Mas eles querem que ela se vire lá no exterior. Minha filha não é mercadora para eu despachar em aeroporto - desabafou.

O irmão mais velho de Aline, Cláudio Henrique Castro, de 25 anos, também foi diagnosticado com a mesma doença. Com o esforço da mãe e com sintomas mais moderados que o de sua irmã, Cláudio se formou em análises de sistemas, trabalha na área e ainda faz pós-graduação. A única fonte de renda da família é o pai, empregado na indústria farmacêutica.