Gabriela Valente
O Globo
Taxa do crédito com recursos livres sobe para 43% ao ano em junho. Inadimplência atinge menor nível desde 2011
Dado Galdieri / Bloomberg News
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BRASÍLIA - Mesmo depois de o Banco Central interromper o ciclo de alta dos juros básicos, o crédito ficou mais caro para as famílias. A taxa média cobrada das pessoas físicas pelos bancos com recursos livres (aqueles que as instituições financeiras têm liberdade para escolher como emprestar) subiu pelo sexto mês seguido em junho e chegou a 43% ao ano. É o maior patamar desde que o BC começou a divulgar os dados em março de 2011.
Dados divulgados nesta terça-feira pelo Banco Central mostram ainda que o crescimento do crédito continuou a desacelerar no país. O estoque total das operações de crédito do sistema financeiro atingiu R$2,8 trilhões em junho: alta de 0,9% no mês e 11,8% em doze meses. Em maio, o crescimento acumulado era de 12,7%. Alguns tipos de empréstimos – como o para a compra de veículos – mostra uma queda de 3,7% nos últimos 12 meses. O governo está preocupado com o crédito para o consumo – combustível do crescimento do país nos últimos anos – e, por isso, tomou medidas de estímulo na semana passada. No entanto, já admite que isso não deve acelerar o crescimento do crédito no país.
Para o chefe do departamento econômico do BC, Túlio Maciel, as medidas anunciadas pela autarquia – como a liberação de compulsório – não devem aumentar o ritmo de aumento do volume dos empréstimos, mas pode evitar cair a projeção. A estimativa do Banco Central no início do ano era que o crédito cresceria 13%, mas depois a autarquia revisou esse número para 12%. E poderá fazer uma nova alteração em setembro. Somente no mês passado, as concessões de novos empréstimos para as famílias caíram 2,2%, pois as pessoas físicas fecharam contratos que somam R$ 161,9 bilhões.
- Os efeitos dessas medidas estão contemplados nas projeções de crescimento de 12 % no ano. Essas medidas reduzem a possibilidade de uma nova revisão de crédito para o ano, mas não descartam - ressaltou Maciel.
Segundo o Banco Central, o crédito com recursos livres (53,8% da carteira do sistema) chegou a R$1.524 bilhões em junho, após aumento mensal de 0,7%. No mês, entre as operações com pessoas jurídicas foram destaques os adiantamentos de contratos de câmbio, os financiamentos a exportações e a aquisição de recebíveis. Já entre as famílias houve expansão do consignado, enquanto os financiamentos a veículos registraram redução: uma das preocupações do Banco Central.
“O comportamento do mercado de crédito no primeiro semestre do ano evidencia a desaceleração das carteiras com recursos livres e direcionados, em cenário de elevação de taxas de juros e estabilidade da inadimplência. Nesse período, as contratações pelas famílias apresentaram melhor dinamismo que no segmento corporativo, destacando-se os empréstimos consignados, rurais e imobiliários, modalidades de menor risco e prazos mais elevados”, diz o relatório do BC.
Maciel lembrou que a Copa pode ter influenciado na tomada de créditos mais complexos que não são feitos nos terminais de autoatendimento ou pela internet. Como houve bastante feriado, a assinatura de novos contratos pode ter sido prejudicada.
- Esse menor número de dias úteis por causa da Copa podem ter tido influência.
A inadimplência do sistema financeiro caiu para 3%: 0,1 ponto percentual a menor que no mês anterior. É a menor inadimplência da série histórica que começou em 2011. Nos créditos às famílias, o nível de calote atingiu 4,3% (queda de 0,2 ponto percentual no mês) e, nos empréstimos às empresas, permaneceu em 2%.
