O Globo
Com informações Agências Internacionais
Bloco europeu pune pela primeira vez setores da economia pelo que considera ações contra a Ucrânia
SERGEI SUPINSKY / AFP
Caricatura. No centro de Kiev, mulher observa desenhos feitos pelo artista
ucraniano Oleh Smal que ridicularizam o presidente russo Vladimir Putin
BRUXELAS E WASHINGTON — A União Europeia (UE) e os Estados Unidos aplicaram as mais duras sanções contra a Rússia desde o fim da Guerra Fria como forma de punir o país pelo que afirmam ser uma tentativa de Moscou de desestabilizar a Ucrânia. O bloco, os EUA e o governo pró-Ocidente em Kiev acusam a Rússia de armar e dar apoio aos separatistas do Leste da Ucrânia e afirmam que os rebeldes são responsáveis pela derrubada, com um míssil, de um avião da Malaysia Airlines numa área controlada pelos militantes, matando 298 pessoas.
As restrições coordenadas entre Bruxelas e Washington terão como alvo quatro setores econômicos: finanças, equipamento militar, armas e produção de petróleo. Segundo os diplomatas europeus, as medidas devem entrar em vigor amanhã.
“O pacote de medidas restritivas acordado pelas partes da UE é um poderoso sinal para os líderes da Federação Russa: desestabilizar a Ucrânia, ou qualquer Estado vizinho da Europa Oriental, trará pesados custos para a sua economia”, diz o comunicado de Bruxelas, que afirma ainda que Moscou “se encontrará cada vez mais isolada em suas ações”.
Os líderes europeus afirmaram em comunicado que as sanções poderiam ser retiradas se o Kremlin parasse de “desestabilizar a Ucrânia”. Segundo uma das fontes diplomáticas, as medidas serão revistas após três meses.
Numa declaração para anunciar as novas sanções, o presidente americano, Barack Obama, negou se tratar de um retorno da rivalidade entre superpotências que dividiu o século XX:
— Isto não é uma nova Guerra Fria. Trata-se de uma questão muito específica, relacionada com a falta de vontade da Rússia em reconhecer que a Ucrânia pode traçar seu próprio caminho.
O primeiro-ministro do Canadá, Stephen Harper, disse que vai anunciar novas sanções contra a Rússia nos próximos dias. Outro membro do G7, o Japão também lançou sanções contra a Rússia horas antes dos europeus. Moscou afirmou que as “imposições de Tóquio” atingiam amplamente as relações bilaterais entre os países e as “faziam retroceder”.
O Kremlin não se posicionou imediatamente sobre as sanções ocidentais, mas uma análise do Citigroup apostava que o país não mudaria seu cálculo geopolítico e deveria continuar enfatizando sua “capacidade própria de resiliência”.
ISOLAR FINANÇAS E TECNOLOGIA
Um dos principais objetivos das sanções é impedir a modernização das indústrias de armamento e energia russas — setores vitais da economia da segunda maior potência militar do planeta — e isolar os bancos estatais do país. As empresas de energia, por exemplo, não poderão captar novos investimentos emitindo títulos nos mercados financeiros dos 28 países do bloco europeu que tenham um prazo de validade superior a 90 dias. Os americanos, por sua vez, não poderão negociar com os bancos russos VTB e Agrícola.
As sanções não afetam a renovação de equipamentos de tecnologia para o gás natural, fonte de energia para a Europa. Exportações de armas já acordadas, como a venda de dois navios de guerra da França no valor de € 1,2 bilhão (R$ 3,6 bilhões), também não foram afetadas.
Washington já argumentava com os aliados europeus sobre a necessidade de punir a Rússia pela questão ucraniana antes da queda do voo MH17 da Malaysia Airlines, há duas semanas. A UE, porém, se limitava a congelar ativos e vistos de alguns indivíduos, já que o vizinho do Leste é um de seus maiores parceiros comerciais. A Federação Alemã de Engenheiros, de fabricantes de máquinas, afirmou que apenas a ameaça das sanções já prejudicou as exportações do setor para a Rússia, que caíram 20% nos primeiros cinco meses deste ano em comparação com o mesmo período de 2013.
Boa parte das vítimas do MH17 eram cidadãos europeus, e a Holanda lidera as investigações para esclarecer os motivos da queda. A agência civil de aviação da ONU marcou para fevereiro uma reunião para rediscutir as normas internacionais de segurança.
Mas foram imagens como a de um rebelde tirando um anel de uma das vítimas do voo e a afirmação de agências de inteligência da Ucrânia e dos EUA de que foram os separatistas a disparar os mísseis, que pioraram ainda mais o clima entre Bruxelas e Moscou.
O Kremlin nega as acusações feitas pelo Ocidente e rebate com afirmações parecidas: diz que a desestabilização da Ucrânia foi causada pelo apoio dos europeus e americanos a “fascistas” que tomaram o poder após os protestos iniciados em dezembro levarem à derrubada do presidente Viktor Yanukovich. E também acusa as tropas de Kiev de terem disparado o míssil contra o MH17.
A relação entre as potências nucleares Rússia e EUA chegou à própria questão atômica: um dia antes do anúncio das sanções, Washington acusou Moscou de violar o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário e pediu diálogos bilaterais urgentes sobre o assunto.
