quarta-feira, setembro 10, 2014

BAIXARIA: Dilma diz que disputa põe em risco Minha Casa

Cristiane Agostine e Letícia Casado 
Valor


Mesmo sob críticas de correligionários, Dilma mantém estratégia
 em Fortaleza: "Na prática, eles são contra"

A presidente e candidata à reeleição, Dilma Rousseff (PT), reforçou ontem a estratégia do "medo" em relação a seus adversários ao dizer que seus dois principais adversários na disputa eleitoral, Marina Silva (PSB) e Aécio Neves (PSDB) querem acabar com o programa habitacional Minha Casa, Minha Vida, uma das principais bandeiras de sua gestão. Segundo ela, os adversários querem acabar com os subsídios do governo federal e diminuir a participação dos bancos públicos no financiamento habitacional, o que inviabilizaria a manutenção do programa.

"Querem acabar com o programa", disse a presidente a jornalistas em Fortaleza, depois de visitar um conjunto habitacional que está em obras e deve ficar pronto em 2015. "Na prática eles são contra." Antes, Dilma disse estar preocupada com a política habitacional defendida pelos adversários, que prejudicaria os mais carentes. As famílias que ganham até R$ 1,6 mil, afirmou, não teriam como pagar a prestação das moradias propostas por Aécio e Marina.

As declarações de Dilma seguem a estratégia do medo usada pela campanha petista, de vincular seus adversários ao risco de um governo instável e ao retrocesso dos ganhos sociais. Dilma disse que Marina deve acabar com a política industrial do país, e a propaganda eleitoral comparou-a com os ex-presidentes Jânio Quadros e Fernando Collor de Mello, que não terminaram seus mandatos.

Apesar de os dois principais candidatos ao governo do Ceará serem de partidos da base de apoio de Dilma, em nenhum dos eventos a presidente esteve acompanhada pelos postulantes estaduais. A campanha de Dilma pediu para que o senador e candidato Eunício Oliveira (PMDB) e Camilo Santana (PT) não fossem às atividades de campanha para não gerar constrangimentos à presidente. "Essas dificuldades precisam ser entendidas. Dilma não pode subir no palanque de um candidato e não subir no de outro", disse José Guimarães, vice-presidente do PT, que acompanhou Dilma.

O governador do Ceará, Cid Gomes, e Ciro Gomes, secretário de Saúde da gestão de seu irmão, também estiveram ao lado de Dilma o tempo todo. Ciro criticou Marina ("um vazio absoluto"), disse que ela interpreta "moralismo difuso" e que não apoiará "em nenhuma circunstância" um eventual governo de Marina. Cid e Ciro trocaram o PSB pelo Pros no ano passado.

Em aceno ao mercado financeiro e a empresários, que se queixam do ministro da Fazenda, Guido Mantega, Dilma sinalizou ontem que deverá mudar o titular da Pasta. Questionada especificamente sobre a manutenção de Mantega, a presidente respondeu: "Eleição nova, governo novo, equipe nova". Ao justificar sua decisão de não citar nomes, a presidente lembrou da disputa pela Prefeitura de São Paulo, quando Fernando Henrique Cardoso sentou na cadeira de prefeito antes do fim da disputa e perdeu nas urnas. "Dá azar", disse.

Na semana passada, na tentativa de convencer o eleitor, Aécio anunciou que, se eleito, nomeará o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga para a Fazenda. Mesmo assim, sua candidatura de Aécio não decolou, e Marina ocupa o segundo lugar nas últimas pesquisas de intenção de voto - ela é, no momento, a grande ameaça à reeleição de Dilma. Segundo o Ibope, Dilma tem 37%, Marina 33% e Aécio, 15%; pelo Datafolha, Dilma tem 35%, Marina, 34% e Aécio, 14%.

Ainda assim, segundo o vice-presidente, Michel Temer, os resultados das pesquisas são positivos para a sua chapa com Dilma. Ontem, em São Paulo, Temer avaliou como positivos os resultados das pesquisas Ibope e Datafolha, pois havia "notícias alarmantes de que logo a candidata Marina teria índices muito mais elevados que a Dilma. E isso não se deu".

As pesquisas são "muito favoráveis a Dilma e nossa chapa" porque "a rejeição [ao governo federal] caiu, a avaliação positiva do governo subiu", disse Temer ontem, ao chegar a evento com executivos da indústria química em São Paulo.

Temer fez crítica indireta a Marina Silva ao defender as instituições e afirmar que pessoas são transitórias. Marina tem repetido que, se eleita, vai governar "com pessoas, não com instituições". Na semana passada, Temer disse que é "preciso tomar cuidado com essas pregações referentes a governar com pessoas e não com as instituições".

Ontem, voltou ao assunto. "Levamos tempo para que as pessoas dissessem: 'como é bom ter instituições'. As pessoas são transitórias. Hoje sou vice-presidente, amanhã posso não mais ser. Como pode ser a presidente Dilma ou pode não ser a presidente Dilma", disse Temer. Questionado se concorda com a tática eleitoral de desconstruir Marina provocando medo no eleitor, saiu pela tangente: a campanha precisa "revelar as qualidades da presidente".

Temer também minimizou a ausência de seu correligionário Paulo Skaf, candidato ao governo paulista, no discurso da presidente Dilma em Jales (SP) no fim de semana. Dilma, Temer e Skaf participaram do mesmo evento; era o primeiro que reunia o grupo na campanha e a expectativa era de como ficaria o palanque, pois Skaf tem evitado se associar à presidente. Os três subiram no palanque, mas Skaf discursou e saiu antes de Dilma falar.

Temer foi questionado sobre se o ocorrido teria causado algum constrangimento a ele ou à presidente. Negou qualquer problema e minimizou a situação. Disse que Skaf tinha combinado que falaria antes, pois teria que sair para outro compromisso. "Quando ele [Skaf] diz 'eu voto no Michel Temer', é porque ele vota na Dilma. Então, sem nenhum problema, sem nenhum embaraço."

No debate entre candidatos ao governo paulista há duas semanas, Skaf foi questionado diversas vezes por Laércio Benko (PHS) sobre em quem votaria para presidente. Skaf disse que votaria "em Temer", apesar de Benko insistir que a candidata é Dilma, não Temer. Skaf não falou o nome de Dilma.