Míriam Leitão e Alvaro Gribel
O Globo
É pouco dizer “novo governo, novo time”, como fez a presidente Dilma para responder às dúvidas sobre como serão resolvidos os inúmeros problemas criados pelos erros da sua política econômica. O país não cresce, a inflação está no limite máximo, os indicadores fiscais perderam a credibilidade e acumulam-se as dívidas cruzadas entre entes do setor público.
Qualquer que seja a pessoa a envergar a faixa presidencial, a política econômica terá que mudar, e uma difícil agenda de ajustes terá que ser iniciada em janeiro de 2015. As escolhas equivocadas da presidente Dilma na economia e na energia deixarão uma herança amarga para quem assumir, mesmo que seja ela mesma. Como serão desarmadas as bombas que ficaram destes quatro anos, em que prazo, e com que grau de perícia?
Os erros começaram antes do atual mandato presidencial, mas a persistência nas escolhas aprofundou o desajuste que já contaminou o ano de 2015, visto por todos os analistas como período em que a correção necessária de rumos reduzirá a possibilidade de crescer.
Os dois oponentes competitivos da presidente Dilma têm dito mais sobre política econômica do que a candidata à reeleição que insinuou que o ministro Guido Mantega não permanecerá. Isso coloca o ministro em aviso prévio. Pode ser visto como esperança de mudança, mas essa informação é insuficiente para tranquilizar quem acompanha o que se passa na economia. Até porque há dúvidas mais agudas, como a da permanência ou não do secretário do Tesouro, Arno Augustin, com quem a presidente tem uma simbiose conhecida. E é da fábrica de Arno que têm saído as ideias mais perigosas, como as alquimias e pedaladas nos números da contabilidade pública. Claro, tudo contou com a aquiescência do ministro da Fazenda, mas a fonte do poder do secretário é a presidente, que o fez inclusive ir além de suas fronteiras e espalhar confusões na área de energia.
É deliberado o silêncio da presidente-candidata sobre economia e energia, setores nos quais ela é especialista e, portanto, tem fortes convicções. Perguntada sobre os problemas, ela defende seu governo ou culpa o mundo. Disso só se pode concluir que tudo permanecerá como está. Ou então ela teria que reconhecer os erros e apontar soluções para os problemas que criou. Dilma não tem dado ao eleitor o conforto de saber o rumo do seu próximo mandato, caso o receba das urnas. Conseguiu a proeza de representar mais incertezas do que os que postulam a sua cadeira. Há inconsistências em todos os programas, mas tanto Marina Silva quanto Aécio Neves têm dado mais informações sobre os rumos que pretendem seguir, caso eleitos, do que a candidata que governa o Brasil.
A afirmação de que o Brasil é vítima de um mundo em crise não resiste ao crivo dos dados e fatos da economia internacional. Os países centrais não vivem um momento brilhante, mas já passaram por momentos piores. Não há justificativa externa para tão baixo desempenho.
A precária situação das empresas do setor de energia não é resultado apenas de um ano com estresse hídrico. Desde a edição da Medida Provisória 579, que reduziu os preços da energia, o setor vem acumulando desequilíbrios. Ela foi imposta de forma autoritária, sem que os alertas sobre a complexidade do setor fossem considerados. O tema foi politizado para ser usado no período eleitoral, mas esse palanque prévio ruiu antes de ser inaugurado. O quadro piorou pela barbeiragem de deixar as empresas distribuidoras expostas ao mercado de curto prazo quando tudo indicava que os preços subiriam. Elas não escolheram ficar expostas ao preço do mercado à vista. Leilões que deveriam conciliar oferta e demanda fracassaram porque o governo estabeleceu um preço-teto irreal; os ofertantes preferiram não vender a energia e as distribuidoras entraram em 2014 descontratadas.
Especialistas na área aconselharam o uso de medidas de economia de energia e de eficiência energética ainda no período chuvoso para poupar água nos reservatórios. O governo não fez isso e ainda adiou para o ano que vem o mecanismo já negociado de bandeiras tarifárias que induziria à redução do consumo nestes momentos de uso intensivo das termelétricas. Todos esses erros pesarão no bolso do consumidor nos próximos anos. As más notícias foram adiadas.