Adelson Elias Vasconcellos
Guido Mantega, o nosso ex-ministro da Fazenda em exercício, vai poder deixar o cargo plenamente realizado. Afinal, dentro da margem de erro que foi sempre sua característica, conseguiu acertar os prognósticos para a nossa economia. Para menos, quando fala em crescimento: dos 2,5% previstos, vai fechar o ano em 0,5%, isto se tudo o mais der certo. Para mais, é quando se refere a inflação; A meta sendo 4,5%, chegaremos ao teto da meta que é dois pontos para mais, ou 6,5%.
E, como prêmio por seus acertos, dentro das margens de erro, já foi demitido antes mesmo de limpar as gavetas e deixar o cargo. Deve ser um caso único de cumprimento de aviso prévio de 120 dias.
Talvez, como economista, Mantega tenha suas virtudes, e muitas das medidas tomadas ou mesmo adiadas, tenham sido contra a sua vontade. Sabemos que a verdadeira Ministra da Fazenda, é a senhora Rousseff.
Lembro das muitas vezes que Mantega fez afirmações num dia, para logo depois ser desmentido ou por Lula ou mesmo por Dilma. Dependesse exclusivamente dele, e os artifícios empregados para vencer a crise financeira de 2009, já teriam sido retiradas há mais tempo. E isto aconteceu ainda no governo Lula.
Mantega, de certa forma, sai um pouco chamuscado do ministério. Afinal comandou a pasta durante este decréscimo de crescimento do país. Não se pode isentá-lo de todo por apresentar em 2010 um crescimento de 7,5& (apesar de um 2009 ter fechado no vermelho) para, nos anos seguintes, a média anual ter caído abaixo de 2,0%.
Contudo, que delineou a trajetória da economia nunca foi Mantega. Os caminhos foram traçados por Dilma Rousseff que, apesar de ter diploma de economia, não entende absolutamente nada do ofício. Basta vermos e ouvirmos suas declarações desconexas, sua imperícia com os números. Mantega, portanto, em muitos momentos, foi apenas um personagem a encarnar um enredo cujo roteiro não foi por ele traçado.
Mantega, além do otimismo às vezes até surrealista, sempre acreditou na possibilidade de que, no gogó, seria possível conduzir a economia para um crescimento mais virtuoso. Porém, e mesmo que não confesse, ele sabe que, sem reformas substanciais, apenas como remendos e truques, o máximo que se pode conseguir são pequenos resultados de curto prazo, Nada além disto.
Existe imensa diferença entre o Mantega sob o governo Lula e o Mantega do governo Dilma. Lula ouvia mais, e até procurava por opiniões de terceiros. Lula tinha um objetivo claro, Dilma, ao contrário, não tem objetivo nenhum, anda às cegas arrastada apenas pela arrogância e pela estupidez com que sempre tratou seus auxiliares.
Lula, fruto da convivência com empresários e políticos ao longo de muito anos, aprendeu que não se pode ir contra a realidade. E talvez a maior lição dentre tantas que colecionou, foi justamente quando nos governos Itamar e FHC deu-se vida ao Plano Real e todas as reformas que advieram. Mercadante (e o próprio Mantega) buzinaram que não daria certo. Há no youtube vídeos com declarações do Lula condenando o Plano. Ironicamente, foi Lula o maior beneficiário do Plano pelo qual se alcançou a tão almejada estabilidade econômica. Com ela, e com a economia mundial vivendo seu melhor momento graças ao crescimento chinês, que se pode conviver com crescimentos social e econômico conjugados. As boas sementes havia sido lançadas ao solo fértil da estabilização, e o tempo da colheita havia chegado.
Então o que deu errado? Bem, ninguém imaginava ou previa a crise de 2009. E ela mostrou quão falsa era a ideia de que o Brasil chegara ao paraíso. Naquele momento, por falta de reformas, e até pelo preconceito de Lula em relação capital privado no campo das concessões publicas, perdemos as melhores oportunidades de sairmos da crise mais fortes, mais bem preparados e um imenso campo de realizações. Foram muitos os bilhões de dólares que viajaram pelo mundo em busca destas oportunidades. Os principais países desenvolvidos emitiram moeda a rodo para tentar conter a crise, com destaque para a Comunidade Europeia e Estados Unidos.
Muitos alertas partiram deste blog para que o Brasil revisse seus marcos regulatórios no campo de infraestrutura e melhorasse seu ambiente de negócios. Contudo, nem Lula nem Dilma souberam ver tais oportunidades. Insistiram num modelo – o do consumo a qualquer preço – que no caso brasileiro sofria imensas limitações de médio e longo prazo.
Os programas de distribuição de renda se, de um lado, permitiriam que o mercado de consumo se revigorasse, a renda média do trabalhador sendo muito baixo, por outro lado, impunha que o modelo encontrasse alternativas de crescimento que elevasse esta renda para que o consumismo a qualquer preço pudesse ter vida mais longa.
Do lado da indústria, desde 2006, já emitia sinais de exaustão. O custo Brasil impunha aos produtos aqui produzidos um ônus que os produtos similares chineses não carregavam. Hoje, apenas para se ter uma ideia, cerca de um quarto do que se vende no país é importado.
E as margens de erros se sucederam a partir de 2011. Ainda em campanha, Dilma Rousseff demonizou qualquer ajuste fiscal. Entendia que era coisa do passado. Nos anos seguintes, o Brasil queimou gorduras acumuladas em gastos sem retorno, ou seja, em despesas correntes, e não em investimentos. A dívida pública saltou de R$ 600,0 bi para algo próximo a R$ 2,5 trilhões. Nesta semana, para fechar as contas públicas e cumprir pífia meta de superávit primário, o governo Dilma lançou mão do saldo que havia no Fundo Soberano. E ainda teve o desplante de considerar as críticas como “absurdas”. Ao final de seus quatro anos, e como sempre afirmamos o resultado é o que importa, o crescimento desceu a pior média da história, abaixo de Collor, Sarney.
Vamos ver, em caso de reeleição de Dilma, quem será o boneco que aceitará exercer o papel de marionete para a senhora Dilma terminar sua obra de hipotecar e comprometer o futuro do país. Seja quem for, deverá saber lidar com margens de erros, só que desta vez com muitos pontos percentuais para mais e para menos.
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