Marcelo Loureiro
O Globo
A CVM pediu o resultado da investigação interna feita pela Petrobras para apurar as descobertas da operação Lava-Jato. A autarquia, assim, cutuca um dos pontos fracos da atual gestão da companhia: o obscurantismo.
Estamos em mais uma daquelas semanas em que a Petrobras é envolvida em notícias ruins. Mesmo, porém, com o rebaixamento da nota de crédito da companhia, ainda que tenha vindo a público o pagamento discutido de US$ 434 milhões à Bolívia, sem que as denúncias de corrupção tenham se esgotado, é certo que a Petrobras pode dar a volta por cima. Mas a gestão dela precisa de mudanças.
Em agosto, a Petrobras decidiu pagar à Bolívia US$ 434 milhões, de maneira retroativa, por gases nobres que vinham misturados pelo gasoduto Brasil x Bolívia (Gasbol). O TCU decidiu investigar o acordo, chamado pela empresa de “indenização”. Entre outras dúvidas, o órgão quer esclarecer quem teria autorizado a renegociação.
– Não sei responder sobre esse caso porque não recebi as informações que solicitei. A decisão não foi tomada pelo conselho de administração da companhia –, lamenta Mauro Cunha, conselheiro da Petrobras.
A decisão de pagar pelos gases sem que o contrato original obrigasse a isso foi tomada no âmbito da diretoria. O valor se refere ao volume que veio dos campos bolivianos desde 2007. Fontes do setor dizem que não há razão aparente para pagar o que o contrato não prevê. É mais um exemplo de como a administração da Petrobras precisa ser revista.
A companhia está sendo alvo de investigação de uma CPMI, no Congresso. A Justiça e o país ouvem as revelações do ex-diretor Paulo Roberto Costa, que hoje delata detalhes de desvios de recursos da companhia para o pagamento de políticos. Mesmo com esse enredo, o Conselho de Administração da companhia ficará quase dois meses sem se reunir. Os membros indicados pelo governo recusaram a solicitação, feita pelos conselheiros independentes, de uma reunião extraordinária para discutir as revelações recentes. O Comitê de Auditoria, órgão desenhado para examinar as relações da companhia com o governo, conta hoje com dois indicados pelo controlador – ou seja, o próprio governo – e outro membro que está lá há 10 anos.
Fica claro que os controles da empresa não estão funcionando. Quando isso acontece, esquemas como os que contaram com a participação de Costa triunfam.
No “gás rico” que vem da Bolívia, há propano. Ele tem utilidades específicas. Pode ser usado como componente do gás de cozinha, no processamento de outros gases e em alguns ramos da indústria da construção. Apesar disso, basicamente passou esse tempo sendo queimado como simples gás natural. Os gases nobres que a empresa decidiu pagar não eram usados porque não havia estações ao longo do gasoduto que os separassem do gás natural. É um reflexo da falta de capacidade de investimento e de excessos de obrigações da empresa no setor de óleo e gás.
O TCU tenta descobrir se, com o novo valor acordado, a importação continua sendo viável. Os maus negócios trazem surpresas à gestão financeira da empresa, que acaba de levar um puxão de orelhas da Moody ́s, agência de classificação de risco. A qualidade da dívida dela perdeu um degrau porque o montante está muito alto em relação à geração de caixa. No fim de junho, seriam precisos 3,94 anos de geração de caixa para pagar a dívida da Petrobras. No fim de 2013, quando o indicador estava em 3,5, a empresa divulgou como meta levar esse indicador para 2,5.
A Petrobras tem endividamento de R$ 304 bilhões, alta de 15% em seis meses. Fontes do setor de óleo e gás entendem que a empresa deveria estudar a venda de ativos e usar os recursos para financiar suas prioridades de investimento.
Há estudos que avaliam o Gasbol em torno de US$ 18 bilhões. Outros ativos apontados como não prioritários são as participações nas distribuidoras de gás natural. A Petrobras tem participação em 23 das 27 companhias regionais de gás natural. Foi fundamental na construção da estrutura de gasodutos para popularizar o uso local desse combustível, mas hoje precisa discutir se vale à pena continuar nessa posição. Campos tradicionais de petróleo no Sergipe, Espírito Santo e Bahia, com baixa produtividade, poderiam ser repassados a empresas menores. Outras companhias do porte da Petrobras não operam ativos assim.
Entre 2014 e 2018, a empresa terá de investir US$ 220 bilhões, a maior parte (US$ 153 bi) em extração e produção, com destaque para o pré-sal. É um desafio que não será vencido sem controles internos e clareza operacional. Porque competência, ativos interessantes e tecnologia a Petrobras tem.