Míriam Leitão e Marcelo Loureiro
O Globo
Uma tarefa que o Brasil terá que enfrentar nos próximos anos será a de fazer mudanças profundas no comércio exterior. Segundo José Augusto de Castro, presidente da AEB, em 2014 “se nós tivermos superávit será negativo”, ou seja, fruto da queda das importações. O especialista Joseph Tutundjian acha que o Brasil “perdeu o bonde” ao não entrar nas cadeias globais de produção.
O economista Fernando Ribeiro, do Ipea, lembra que, como o Brasil é exportador de commodities e as duas principais estão com preços em queda — soja e minério de ferro —, isso significa necessariamente menos receitas de exportação.
O que se conclui de uma rodada de conversas com quem entende do assunto é que este ano haverá redução do volume total de comércio e queda no valor total das exportações, já que essas cotações estão caindo. Mas esses são apenas os problemas conjunturais. O estrutural é o Brasil ter perdido, conforme mostrou o estudo da Organização Mundial do Comércio, as chances abertas nos últimos anos de se integrar às cadeias internacionais de produção.
— Não é impossível, mas vai demorar para virar este jogo. A China fez uma industrialização gerada pelas exportações. Fez um esforço de entrar no comércio exterior que a levou a melhorar a qualidade e isso fez com que ela pudesse oferecer produtos melhores a seu mercado interno. Antes, eu ia à China e nada havia de bom para comprar. Agora, existe muito produto de consumo de alto nível. Nós optamos por fechar o mercado e exigir componentes nacionais. Isso aumentou o custo de produção e não elevou a qualidade do produto —, diz Tutundjian.
Castro, da associação de comércio exterior AEB, diz que as exportações cairão 6% no ano, até porque não há mais a mágica das plataformas de petróleo. Foram apenas duas vendas em 2014. Elas não saem do Brasil mas são contabilizadas como exportação.
— Teremos queda na corrente de comércio de 5,5%. Isso é muito ruim porque significa menor atividade econômica. O minério de ferro teve queda forte de preços — lembra Castro.
Tutundjian diz que não se preocupa com a soja, porque se por acaso houver redução de produção por causa de problemas climáticos no Brasil, o preço sobe e portanto a queda do volume é compensada pela elevação das receitas.
— O nosso grande problema é exportação de manufaturados. O produto brasileiro não tem preço nem design, porque faz anos que não se investe para que o produto seja atraente para o mercado internacional. E este ano temos o agravamento da crise da Argentina, que é o grande comprador de automóveis do Brasil.
Os especialistas são unânimes em dizer que o país não pode mais continuar isolado e dependente apenas de commodities, cujas cotações podem cair rapidamente. No caso do minério de ferro, veja abaixo, a queda tem a ver com a redução do crescimento chinês, o que leva a menos investimento em infraestrutura.
.jpg)