domingo, outubro 12, 2014

Contadora de Youssef diz que ex-ministro Mário Negromonte mantinha contatos com o doleiro e chegou a orientá-lo

 Vinicius Sassine
O Globo

Meire Poza enumera quatro empreendimentos que abasteceram empresa do doleiro preso pela PF

André Coelho / Agência O Globo
Meire Poza em depoimento à Comissão Parlamentar
 de Inquérito (CPI) mista da Petrobras 

BRASÍLIA - A contadora que atuou para o doleiro Alberto Youssef e que colaborou com as investigações da Polícia Federal (PF), Meire Poza, afirmou que o ex-ministro das Cidades Mário Negromonte mantinha contatos com o doleiro e chegou a orientá-lo sobre a compra de uma empresa de controle de monitoramento de veículos em Goiânia. Negromonte, que renunciou ao cargo de deputado federal para assumir o cargo de conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios (TCM) da Bahia em junho deste ano, foi ministro da presidente Dilma Rousseff entre fevereiro de 2011 e fevereiro de 2012.

O ex-ministro era visto com o doleiro num restaurante em São Paulo comprado por Youssef, segundo a contadora, que presta depoimento na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) mista da Petrobras, nesta quarta-feira. Negromonte, conforme Meire, indicou a Youssef a compra da empresa de monitoramento de veículos em Goiânia, pois haveria a aprovação do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) sobre esse monitoramento. O Denatran é vinculado ao Ministério das Cidades.
O irmão do ex-ministro, Adarico Negromonte, foi citado pela contadora como responsável por transportar o dinheiro das empresas do doleiro.

Em depoimento, a contadora Meire Poza elencou quatro empresas como clientes de uma das empresas dele, a GFD Investimentos: Mendes Júnior, Sanko Sider, Engevix e Paranasa. Ela confirmou que a GFD não exercia qualquer atividade e que a principal fonte de receita do empreendimento eram repasses dessas empreiteiras, em troca de notas fiscais frias.

Meire Poza afirmou não ter "informações diretas" sobre os contratos das empreiteiras com a Petrobras. Ela disse ser possível, no entanto, que o doleiro tenha presenteado outros servidores da estatal, além do ex-diretor Paulo Roberto Costa.

Costa ganhou uma Land Rover de presente do doleiro. Meire também confirmou que Youssef deu um helicóptero ao deputado federal Luiz Argôlo (SD-BA), no valor de R$ 800 mil. Ainda segundo a contadora, o doleiro presentou uma amante com apartamentos e restaurantes, de nome Taiana. Quebras de sigilos telefônicos mostram diversas conversas entre Youssef e Taiana de Sousa Camargo, que trabalhou no gabinete da deputada federal Aline Corrêa (PP-SP).

— O Youssef recebia o dinheiro das empreiteiras e usava para comprar um terreno no Rio de Janeiro, por exemplo — disse Meire no depoimento, em resposta aos primeiros questionamentos do relator da CPI, deputado Marco Maia (PT-RS).

Meire já prestou depoimento no Conselho de Ética da Câmara, que abriu processo para investigar a relação de Youssef com o deputado federal Luiz Argôlo (SD-BA). Na ocasião, ela confirmou que o parlamentar recebeu dinheiro do doleiro, disse que Youssef fez pagamentos a outras pessoas e o definiu como "banco".

A contadora decidiu colaborar com a Justiça do Paraná, onde tramitam os processos relacionados à Operação Lava-Jato, que desvendou um esquema de lavagem de dinheiro envolvendo um montante de R$ 10 bilhões. Ela confirmou a emissão de notas fiscais frias a empreiteiras, por meio das empresas de Youssef, com o objetivo de dissimular a prestação de serviços. Meire falou em "malas de dinheiro" movimentadas pelas empresas.

O GLOBO revelou em 12 de setembro que a contadora, em depoimento à Polícia Federal (PF), afirmou ter havido uma reunião entre Youssef e o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), para tratar de investimentos de fundos de pensão. Segundo Meire, a reunião ocorreu em 12 de março deste ano, cinco dias antes de o doleiro ser preso. Renan e Youssef teriam fechado um "acordo verbal" para que dois fundos de pensão investissem em ações de uma das empresas do doleiro.

No depoimento, Meire afirmou que parlamentares do PT e do PMDB fizeram as negociações pelos aportes dos fundos Postalis, dos Correios, e Funcef, da Caixa Econômica Federal (CEF), mediante uma suposta partilha de comissões com integrantes dos dois partidos. Pelo PT, as negociações teriam sido conduzidas pelo deputado federal André Vargas (sem partido-PR). A proximidade e negócios conjuntos do deputado com o doleiro já foram citados nas investigações da Lava-Jato.

O valor dos aportes dos fundos de pensão, ainda segundo o depoimento, seria de R$ 50 milhões. "Corretores" - intermediários que fariam o dinheiro chegar aos partidos - ficariam com 10%. O negócio não se concretizou porque Youssef acabou preso poucos dias depois.