Raul Velloso
O Globo
O modelo simplista de expansão da demanda de consumo que vem sendo adotado desde 2003 está esgotado. A estagnação da produção industrial e da taxa de investimento, e, por último, a queda da taxa de crescimento potencial do PIB brasileiro de cerca de 4,5% ao ano, para algo entre 0 e 1% ao ano, são os principais sinais de que o modelo precisa mudar radicalmente. Agora, é preciso o País se voltar completamente para o crescimento do investimento, especialmente em infraestrutura e especialmente privado (pois o setor público, além de ineficiente, está virtualmente quebrado), o que levaria ainda ao aumento da produtividade geral da economia, seja qual for o próximo governo.
Não adianta o governo dizer que a taxa de desemprego é baixa. Nas difíceis condições atuais, para o desemprego começar a aumentar seguidamente, é só um passo.
Outro problema ignorado pelo governo é a iminente crise fiscal em que suas políticas nos colocaram, depois de termos conquistado vários degraus de credibilidade nessa área, sem falar na inflação descontrolada. Como no Brasil o gasto público é muito rígido e sua expansão é parte fundamental do modelo econômico atual, tudo depende do que acontece com a receita.
Para compensar o setor industrial, principal prejudicado pelo modelo consumista em vigor, o governo desonerou a tributação incidente em especial sobre esse setor; aumentou brutalmente os empréstimos subsidiados a ele destinados principalmente via BNDES; achatou as tarifas de energia elétrica deixando uma conta gigantesca para a União e os consumidores pagarem futuramente; segurou os preços de combustíveis, tarifas de ônibus e pedágios; forçou a adoção das menores tarifas e taxas de retorno imagináveis nas concessões de serviço público; e, o que é pior, tem assistido impassível à queda do crescimento tanto do PIB como da arrecadação tributária e dos superávits fiscais.
O que mais faz é pôr em prática soluções não convencionais ou práticas condenáveis de contabilidade criativa, amplamente rejeitadas pelos analistas.
A recuperação do investimento e do crescimento do PIB é a única saída para evitar que o País perca sua classificação de “grau de investimento” pelas agências internacionais de risco, o que detonaria mais uma das crises de curto prazo que pareciam fora de nosso radar. Essas crises, como já se viu, provocam forte aumento da inflação, das taxas de juros e do desemprego.
A insistência do atual governo de atribuir a culpa desses resultados desfavoráveis à “situação externa” deixa de fazer qualquer sentido, pois a produção industrial mundial já se descolou da nossa há bastante tempo. Em que pese a importância desses resultados, praticamente nada disso tem sido abordado no debate eleitoral. Para se qualificar para mais um mandato, o atual governo deveria reconhecer o fracasso do modelo que vem pondo em prática, e demonstrar como fará para nos retirar da armadilha em que estamos metidos.
Como, na melhor hipótese imaginável, nem o gasto será cortado nem o crescimento do PIB e da arrecadação ocorrerão no curtíssimo prazo, o próximo governo terá de convencer os mercados, no gogó, que tem um programa de trabalho sério, crível e comprometido com esses objetivos. Penso que uma nova administração, mais comprometida com mudança, faria mais sentido no difícil momento que vivemos.