quarta-feira, outubro 08, 2014

Novo governo terá de usar o gogó

Raul Velloso
O Globo

O modelo simplista de expansão da demanda de consumo que vem sendo adotado desde 2003 está esgotado. A estagnação da produção industrial e da taxa de investimento, e, por último, a queda da taxa de crescimento potencial do PIB brasileiro de cerca de 4,5% ao ano, para algo entre 0 e 1% ao ano, são os principais sinais de que o modelo precisa mudar radicalmente. Agora, é preciso o País se voltar completamente para o crescimento do investimento,  especialmente em infraestrutura e especialmente privado (pois o setor público, além de ineficiente, está virtualmente quebrado), o que levaria ainda ao aumento da produtividade geral da economia, seja qual for o próximo governo.

Não adianta o governo dizer que a taxa de desemprego é baixa. Nas difíceis condições atuais, para o desemprego começar a aumentar seguidamente, é só um passo.

Outro problema ignorado pelo governo é a iminente crise fiscal em que suas políticas nos colocaram, depois de termos conquistado vários degraus de credibilidade nessa área, sem falar na inflação descontrolada. Como no Brasil o gasto público é muito rígido e sua expansão é parte fundamental do modelo econômico atual, tudo depende do que acontece com a receita.

Para compensar o setor industrial, principal prejudicado pelo modelo consumista em vigor, o governo desonerou a tributação incidente em especial sobre esse setor; aumentou brutalmente os empréstimos subsidiados a ele destinados principalmente via BNDES; achatou as tarifas de energia elétrica deixando uma conta gigantesca para a União e os consumidores pagarem futuramente; segurou os preços de combustíveis, tarifas de ônibus e pedágios; forçou a adoção das menores tarifas e taxas de retorno imagináveis nas concessões de serviço público; e, o que é pior, tem assistido impassível à queda do crescimento tanto do PIB como da arrecadação tributária e dos superávits fiscais.

O que mais faz é pôr em prática soluções não convencionais ou práticas condenáveis de contabilidade criativa, amplamente rejeitadas pelos analistas.

A recuperação do investimento e do crescimento do PIB é a única saída para evitar que o País perca sua classificação de “grau de investimento” pelas agências internacionais de risco, o que detonaria mais uma das crises de curto prazo que pareciam fora de nosso radar. Essas crises, como já se viu, provocam forte aumento da inflação, das taxas de juros e do desemprego.

A insistência do atual governo de atribuir a culpa desses resultados desfavoráveis à “situação externa” deixa de fazer qualquer sentido, pois a produção industrial mundial já se descolou da nossa há bastante tempo. Em que pese a importância desses resultados, praticamente nada disso tem sido abordado no debate eleitoral.  Para se qualificar para mais um mandato, o atual governo deveria reconhecer o fracasso do modelo que vem pondo em prática, e demonstrar como fará para nos retirar da armadilha em que estamos metidos.

Como, na melhor hipótese imaginável,  nem o gasto será cortado nem o crescimento do PIB e da arrecadação ocorrerão no curtíssimo prazo, o próximo governo terá de convencer os mercados, no gogó, que tem um programa de trabalho sério, crível e comprometido com esses objetivos. Penso que uma nova administração, mais comprometida com mudança, faria mais sentido no difícil momento que vivemos.

(Para uma discussão mais detalhada dos argumentos aqui apresentados, sugiro a leitura do artigo que estou colocando hoje em www.raulvelloso.com.br)