Ricardo Noblat
Nem a Folha de S. Paulo, que publicou a entrevista na última segunda-feira, nem os demais veículos de comunicação deram importância ao que disse Benjamin Steinbruch, presidente da Federação das Indústrias de São Paulo e dono da Companhia Siderúrgica Nacional, sobre a eleição presidencial do próximo domingo.
A certa altura da entrevista, o repórter Fernando Rodrigues perguntou em quem Steinbruch votaria. O poderoso industrial respondeu:
- Não sinto necessidade de revelar. Meu voto é a favor das mudanças. Se a presidente Dilma propuser mudanças com relação ao futuro do Brasil, ela tem chance de ter o meu voto. Se a candidata Marina propuser mudanças, ela tem a possibilidade de ter o meu voto. Assim como o Aécio.
Rodrigues insistiu:
- Se um empresário como o senhor revelar o voto no Brasil, pode sofrer perseguição?
A resposta foi espantosa, a se levar em conta que vivemos numa democracia e que as pessoas são livres para votar em quem quiser:
- Com certeza. Pode.
Rodrigues foi adiante:
- Se disser que vota em Marina e ela perder a eleição, o senhor acha que poderia ser perseguido?
- Acho que sim. O empresário brasileiro e o banqueiro são tremendamente dependentes do governo. Lá fora você não tem essa necessidade de ter a boa vontade do governo. Aqui, só o BNDES te dá financiamento de longo prazo com carência.
Quer dizer: se o presidente da República não for com a sua cara, o BNDES lhe fechará as portas.
Conta a lenda que um homem vestido como escafandrista entrou em um bar famoso do Leblon, na década de 70, tirou a máscara e pediu uma cerveja.
Como ninguém se dignou a olhar para ele, João Saldanha, comentarista esportivo, pediu silêncio e falou em voz alta:
- Gente, tem um escafandrista aqui e isso não é normal.
Não pode ser considerado normal um dos maiores industriais do país confessar seu temor de revelar em quem pretende votar para presidente.
É menos normal ainda guardar seu voto em segredo por que teme ser retaliado.
Se alguém com o status de Steinbruch teme a perseguição quanto mais um pobre eleitor que recebe o Bolsa Família? Ou que é beneficiado pelo programa Minha Casa, Minha Vida? Ou o Mais Médicos?
A Constituição assegura a todos os brasileiros direitos iguais para que concorram a cargos eletivos. Que direitos não me serão negados caso eu me oponha aos que governam?
Se não me sinto sequer seguro para dizer em quem pretendo votar...
Temos um arremedo de democracia – a verdade é essa. E a democracia entre nós é tanto mais fraca quanto maior é a determinação dos donos do poder de não abrir mão do poder.
Um só exemplo: por dispor de uma maior coligação de partidos, Dilma teve direito a um programa de propaganda eleitoral de 12 minutos contra um de seis de Aécio e um de dois minutos de Marina.
Espancada diariamente na televisão por Dilma, Marina mal teve tempo para se defender – quanto mais para defender suas ideias. Pergunto: é justo que tenha sido assim?
A verdade: quem está no poder tem todas as vantagens do mundo. E abusa delas até a Justiça dizer chega.
A Justiça raramente diz chega.
(Imagem: O Estado de S.Paulo)
Benjamin Steinbruch
