quinta-feira, dezembro 30, 2021

Consulta pública é plataforma para antivacinas

  Natalia Pasternak 

O Globo

 | JACK GUEZ / AFP 

Médico israelense administra uma dose da vacina Pfizer-BioNtech 

contra o coronavírus para crianças a um menino, perto de Tel Aviv 

A comunidade científica recebeu com muita surpresa as declarações do ministro da Saúde Marcelo Queiroga, que coloca em dúvida a segurança de vacinas para crianças na faixa etária entre 5 e 11 anos. A vacina da Pfizer não só já está autorizada para uso nessa faixa etária nos Estados Unidos e na União Europeia, como foi avaliada de modo independente pelos órgãos competentes do Brasil, a Anvisa e a Câmara Técnica de Assessoramento em Imunização da Covid-19 (CTAI-Covid-19). Ali trabalham especialistas em vacinas, imunologia, microbiologia e epidemiologia. São os profissionais qualificados para avaliar se uma vacina é segura, eficaz e necessária.

Ora, se quem entende do que está falando — no Brasil e no mundo —concluiu que a vacina é segura e deve ser aplicada, qual o motivo da hesitação do ministro, e da convocação de uma consulta pública? O debate científico já foi realizado. A vacina pediátrica da Pfizer foi liberada e já está em uso em boa parte do mundo. Isso nos dá ainda mais informações sobre sua segurança, além dos testes clínicos realizados pela farmacêutica. A FDA, agência americana, autorizou a vacina em 29 de outubro. A agência europeia de medicamentos, em 25 de novembro.

A vacina pediátrica da Pfizer foi testada em aproximadamente três mil crianças de 5-11 anos, com eficácia de mais de 90%, e sem efeitos colaterais diferentes de qualquer outra vacina infantil. Dados de novembro mostram que aproximadamente 3 milhões de crianças de 5-11 anos já receberam ao menos uma dose da vacina nos EUA.

Dados de outro órgão americano, o CDC, mostram que crianças nesta faixa etária representam 39% das infecções em menores de 18 anos. Mais de 8.300 casos graves, com necessidade de hospitalização, foram reportados nos EUA, com mais de 100 mortes. Há também o risco de Covid longa em crianças, o que pode prejudicá-las por toda a vida. O número de mortes já coloca a Covid19 como uma das dez principais causas de óbito nesta faixa etária.

Só isso já deveria bastar para convencer qualquer um com bom senso de que vacinar as crianças trará benefícios que em muito superam os riscos de efeitos colaterais leves, como dor no braço e febre.

Mas o ministro Queiroga insiste em plantar a dúvida, reunir-se com notórios membros do movimento antivacinas no Brasil, e criar uma consulta pública. Essa estratégia não é novidade para quem estuda negacionismo e desinformação.

No livro "Contra a Realidade", da autoria desta colunista em parceria com o jornalista científico Carlos Orsi, abordamos as origens da negação da ciência, suas causas e consequências. Neste contexto, analisando outros movimentos negacionistas, como o da relação entre tabaco e câncer, e o negacionismo climático, vemos que levar a público debates sobre questões técnicas que já estão bem resolvidas entre especialistas é uma manobra desonesta para fugir de responsabilidades... O real motivo de uma “consulta pública” convocada nessas condições é semear a dúvida, adiar decisões importantes, e oferecer um megafone a falsos “especialistas” que não conseguem se fazer levar a sério por quem realmente entende do assunto e que, portanto, de outra forma jamais seriam ouvidos.

É exatamente o que Queiroga faz. Ao chamar a consulta pública, dá uma plataforma federal para quem se opõe a vacinas por questões comerciais ou ideológicas, gera confusão, e se exime de tomar uma decisão urgente que o obrigaria a trabalhar: fazer acordos, comprar vacinas, organizar as campanhas.

A consulta pública da vacinação infantil representa mais um passo na institucionalização do negacionismo da ciência em saúde no Brasil. As consequências disso no longo prazo, juntamente com o desmonte em curso do Programa Nacional de Imunizações (PNI), podem ser desastrosas.