Dodai Stewart
The New York Times
(Justin J Wee/The New York Times)
O pug Noodle em Nova York, em cinco de dezembro de 2021.
Se você ficou acordado até tarde, provavelmente já sabia disto: os primeiros momentos de 2021 chegaram com um clima diferentão. A tradicional comemoração de Ano Novo em Nova York foi estranhamente pacata. Não houve multidões abarrotando a Times Square e se beijando à meia-noite, nem gente indo beber de bar em bar.
E à medida que o ano se desenrolava, não tínhamos energia – nem para ficar em pé: um pug oráculo chamado Noodle, que parece sempre estar derretendo, virou astro do TikTok, ilustrando com mestria as pernas bambas do desânimo. Na hora de sair da cama, Noodle geralmente fica todo desmilinguido. Assim como muitos de nós.
Desde o início, houve sinais de problemas. O prédio do Congresso americano foi atacado por arruaceiros no dia seis de janeiro, incluindo um homem sem camisa que usava capacete com chifres, pessoas agitando bandeiras confederadas ou brancas e vermelhas, representando a República da Georgia, e um sujeito vestindo um moletom com os dizeres "Campo de Auschwitz".
Dois dias depois, enquanto o país se recuperava, uma música angustiada sobre uma carteira de motorista se tornou o hino que não sabíamos que precisávamos. No dia 20 de janeiro, o Twitter e o Instagram foram inundados por memes do senador Bernie Sanders sentado em uma cadeira dobrável, de braços e pernas cruzados, luvas de tricô à mostra. Esperando pacientemente que tudo acabasse.
(Justin J Wee/The New York Times)
O pug Noodle em Nova York, em cinco de dezembro de 2021.
Em março, depois de um ano inteiro de pandemia, 500 mil americanos haviam morrido de Covid-19. E nós, os remanescentes, estávamos atolados na areia movediça do limbo. O limbo como uma espera, o limbo como um nem cá nem lá, o limbo como malabarismo para tentar seguir em frente por um caminho com obstáculos cada vez mais difíceis de transpor.
Havia a sensação de que nós, os sobreviventes, havíamos superado o pior. Estávamos vivos!
Porém, não exatamente florescendo. Já não aguentávamos mais fazer pães, e a não ser que você acidentalmente deixasse o filtro de gatinho ligado durante uma reunião no Zoom, aquela alegria do "eu trabalho de casa" já se transformara em uma amarga percepção: "eu moro no trabalho".
O limbo pode ser legal, não? Chubby Checker cantou uma versão animada com toques caribenhos em "Limbo Rock": "Every limbo boy and girl, all around the limbo world – gonna do the limbo rock, all around the limbo clock". Só que, nesse caso, limbo é a brincadeira de se inclinar para trás e passar por baixo de uma corda esticada que vai indo cada vez mais para baixo. Então, foi isso que fizemos.
Contudo, a vacina ainda não havia sido aprovada para crianças, e a volta às aulas permanecia incerta. Daí, quando achávamos que tínhamos entendido as peculiaridades do vírus e dominado a terminologia epidemiológica, eis que surge a variante delta.
A cada novo acontecimento, precisávamos de mais tempo para processar, e no final, a conta não fechava. O uso de cannabis foi legalizado em vários estados americanos, mas o Daft Punk se separou? Espaçonaves da China e dos Emirados Árabes foram a marte, mas a série "I May Destroy You", da HBO, foi esnobada na premiação dos Golden Globes? O governo americano admitiu a existência de OVNIs, mas também confessou não saber de onde eles vêm? O que estava acontecendo?
Presos no que parecia uma eterna repetição, um dia se confundindo com o outro, alguns especialistas definiram esse sentimento coletivo de falta de foco e de alegria e o chamaram de definhamento. Mas o gatilho para a apatia da pandemia foi realmente a sensação de paralisação.
No final de março, um grande navio de carga chamado Ever Given tentou passar pelo Canal de Suez e ficou encalhado. Nossa reação: ESTAMOS NA MESMA. Àquela altura, quem não se identificava com essa sensação de estar acorrentado, sem mobilidade, fora de controle o suficiente para causar um incidente internacional?
Seis dias depois, o navio desencalhou; nós, não. Os dias foram passando. Só o que fazíamos era esperar. Esperar pela nossa vez no calendário de vacinação, esperar na fila do posto de gasolina, esperar pela emissão de passaportes, esperar na fronteira com outros países. Voltaríamos ao trabalho presencial? Era esperar para ver.
Dante descreve o limbo como um vale tão profundo que não se pode enxergar o fundo, um "abismo de lamentação" que "reúne trovões e lamúrias infinitas". Fomos levando, sem ver a luz no fim do túnel, mas certamente havia lamúrias.
Fazendo um esforço para seguir em frente, embarcamos em uma montanha russa emocional cheia de altos e baixos a uma velocidade vertiginosa: Sha’Carri Richardson esperou um ano inteiro pelas eliminatórias olímpicas, qualificou-se como a americana mais rápida, testou positivo para maconha e foi suspensa por um mês, o que a tirou dos Jogos Olímpicos. O site OnlyFas baniu conteúdos explícitos, e depois voltou atrás. Homens muito ricos deixaram o planeta, e voltaram imediatamente.
Prometeram-nos um verão vacinação – e ficamos imaginando o que raios isso significava –, mas ele nunca se materializou; ao invés disso, o mar literalmente pegou fogo. E não tínhamos ânimo para nada.
A brincadeira foi ficando mais difícil!
Ao entrarmos no segundo outono de pandemia, descobrimos detalhes desagradáveis de uma das poucas maneiras de nos mantermos conectados durante o limbo: as redes sociais. Continuar nelas ou não? Vamos esperar para ver. Então, o Facebook, o Instagram e o WhatsApp caíram. Por várias horas. Bilhões de pessoas ficaram em um limbo de comunicação. Inabaláveis, recorremos às telas em busca de algum alívio assistindo a competidores lutando para sobreviver ao limbo da prisão na violenta série "Round 6".
Agora, avistamos a variante ômicron no horizonte – ou batendo à nossa porta –, causando estragos e pânico na mídia; e o inverno setentrional está chegando, trazendo consigo calafrios e escuridão. Porém, há uma minúscula semente de esperança: os turistas estão voltando a Nova York.
O que será de 2022? Não há dados históricos nem pugs capazes de prever o futuro. Podemos estar longe do fim, mas pelo menos agora temos bastante experiência. Um brinde ao recomeço – de novo.
c. 2021 The New York Times Company