Sérgio Ripardo
Bloomberg
Após disputa política por cargos e fracasso de licitação, Banco do Nordeste assume gestão de microcrédito; no Banco da Amazônia, capitalização é desafio
(Divulgação/BNB)
Fomento Banco do Nordeste, que cancelou escolha de gestor para programa
de microcrédito urbano, diz que vai administrar, sozinho, o Crediamigo
A tentativa do BNB (Banco do Nordeste) de escolher um gestor para a maior carteira de microcrédito urbano da América do Sul expôs, neste ano, um risco histórico de interferências políticas nos rumos das instituições financeiras sob controle estatal e com foco regional, principalmente em anos eleitorais como 2022.
O BNB acabou desistindo, em novembro, de um processo de licitação, após a revelação de que a instituição de pagamento Cactvs, um dos concorrentes, tinha problemas de reputação, com envolvimento de seu fundador em um escândalo no mercado financeiro. O certame foi lançado após uma mudança polêmica na presidência do BNB em setembro, com cargos cobiçados por políticos do Centrão, partidos que dão apoio ao governo federal.
Com o desgaste desencadeado com a pré-seleção da Cactvs, o banco oficial de fomento acabou assumindo o compromisso de tocar, sozinho, seu programa Crediamigo, voltado principalmente para pequenos empreendedores informais em periferias, embora internamente funcionários digam que a tarefa será desafiadora a partir de janeiro, já que nas últimas décadas essa missão era terceirizada e não há estrutura própria suficiente para ter a mesma capilaridade de atender a esse público-alvo no curto prazo.
O BNB não respondeu ao pedido de comentários de Bloomberg Línea sobre o futuro do programa Crediamigo diante desses desafios operacionais nem como se deu a pré-seleção de uma instituição com problemas anteriores de compliance. O BNB não foi o primeiro banco regional que a Cactvs tentou assumir operações de microcrédito. No Basa (Banco da Amazônia), também foi desclassificada em uma concorrência, confirmou uma fonte familiarizada com a situação.
A reportagem procurou o Banco Central para saber sobre a situação da Cactvs e sobre relatos de que o Banco do Brasil teria encerrado um contrato com a instituição de pagamento no fornecimento de serviços de uso do pix em seu aplicativo. A assessoria do BC informou o seguinte: “A Cactvs é uma instituição de pagamento não sujeita à autorização do BC. Contudo, ela solicitou adesão ao arranjo do Pix. Esse pedido de adesão está em análise na etapa cadastral”. Já a assessoria do BB enviou esta resposta: “O BB não vai se posicionar”. A Cactvs não respondeu ao pedido de comentários.
As incertezas sobre o alcance e a eficácia do programa de microcrédito do BNB no ano que vem ocorrem num contexto negativo para a economia brasileira, castigada pela inflação e alta dos juros, oficialmente em recessão técnica, com desemprego ainda em patamar elevado, afetando principalmente as regiões de menor renda do país. Segundo dados divulgados no último dia 10 pelo BNB, o Crediamigo é uma “importante ferramenta na recuperação econômica do Nordeste durante a pandemia de Covid-19″, com a média mensal de desembolsos do programa, de março de 2020 a novembro de 2021, somando R$ 1,03 bilhão, valor 39% maior na comparação com os 36 meses anteriores à pandemia (mar/17 a fev/20). Nesse período, o desembolso médio foi de R$ 743 milhões por mês, segundo o BNB.