sexta-feira, outubro 20, 2006

A educação brasileira vai mal – 2

Ao mudar a rota, retrocedemos
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Ao assumir seu primeiro mandato como presidente, Fernando Henrique tomou uma sábia decisão: implantar um programa social que “obrigasse” as crianças em idade escolar a freqüentarem as escolas. Para tanto, buscou num programa criado por Cristovam Buarque no Distrito Federal o pontapé inicial. Assim, nascia o Bolsa Escola cuja grande mérito foi levar 97% das crianças de 7 a 14 anos para dentro das escolas. O segundo passo, foi fortalecer a alimentação dessas crianças e o cuidado com sua saúde com o Bolsa Alimentação e o PETI – Programa de Erradicação do Trabalho Infantil. O conjunto destes programas produziram um resultado positivo bastante elogiado pela UNESCO.
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Em 2003, Lula encontrou os três programas a pleno vapor. Sua missão seria primeiro ampliar os programas, segundo qualifica-los melhor e, terceiro, iniciar um processo de melhoria na qualidade de ensino. Porém, Lula vislumbrou aí a possibilidade de fazer política em cima da miséria e das dificuldades do povo. Numa meia-volta inexplicável, abandonou todas as contrapartidas que os programas exigiam das famílias beneficiadas – 8,5 milhões de famílias – mudou o nome do programa para Bolsa Família, ampliou o número de beneficiários para 11,0 milhões de famílias, elevou o valor de benefícios num único teto – 75 reais e abandonou a qualificação que deveria ter dado seqüência. Resultado, o programa passou a ser um bolsão assistencialista sem contrapartidas, o número de alunos fora das escolas aumentou – atualmente são mais de 2,0 milhões de crianças fora das escolas – as repetências regrediram e o Trabalho Infantil aumentou em 10,5 %. Ou seja, podendo e tendo condições de avançar, o Brasil, a partir do governo Lula, retrocedeu. Isto não é discurso, é realidade. Por mais que Lula exiba números e valores gastos em educação e valores repassados ao seu programa social, aqui o que conta é qual resultado que se obteve, e neste campo, não há dúvida que o governo atual errou o caminho e esqueceu das prioridades.
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Ainda que o país passe a reter os jovens por mais tempo nas salas de aula, teria pela frente um desafio que, à primeira vista, pode parecer elementar: garantir que os alunos efetivamente aprendam, e fazer com que esse aprendizado vire riqueza. Atualmente, a maioria das crianças das escolas públicas se transforma em profissionais medíocres. Em 2003, o Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Básico identificou que 55% dos alunos matriculados na 4o série do ensino fundamental eram praticamente analfabetos e mal sabiam calcular. Na 8a série, menos de 10% dos estudantes haviam adquirido competência para elaborar textos mais complexos. Como conseqüência, cerca de 75% dos adultos têm alguma deficiência para escrever, ler e fazer contas, o que acarreta um efeito devas tador sobre sua capacidade de se expressar. "O que está acontecendo nas nossas escolas é estarrecedor", diz Paulo Cunha, presidente do grupo Ultra. Para conhecer a real situação da educação brasileira, Cunha visitou escolas municipais na capital paulista. "As crianças ficam oito anos nas salas de aulas e saem tão ignorantes quanto entraram. Como elas vão disputar um lugar no mercado de trabalho?"
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Não se pode ignorar a revolução educacional pela qual o Brasil passou nos últimos anos. Até poucas décadas, vivíamos num país de analfabetos, no qual educação era luxo. Hoje há mais de 40 milhões de crianças na escola. Cerca de 5 milhões delas entram no sistema todo ano. O feito, porém, é insuficiente para sustentar o crescimento numa economia globalizada, cada vez mais dependente de conhecimento e de inovação e na qual os parâmetros de comparação ignoram fronteiras. No jogo da competitividade mundial -- um jogo que define o sucesso das empresas e do próprio país --, a má qualidade do ensino e sua incapacidade de entregar ao mercado os profissionais que ele demanda transforma-se num veneno mortal. Isso fica evidente na dificuldade que empresas de quase todos os setores vivem para recrutar em larga escala seu bem mais precioso -- capital humano de boa qualidade. Esse é exatamente um dos grandes desafios das economias que perseguem o crescimento sustentável: garantir o suprimento de massas de pessoas qualificadas.
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No próximo capítulo vamos analisar como isto acaba por prejudicar as próprias empresas, provocando perda de competitividade, além de criar entraves e dificuldades no mercado de trabalho.