Prioridades distorcidas –
Nunca tantos brasileiros tiveram acesso ao ensino superior gratuito. Desde o início do ano, mais de 1 milhão de universitários passaram a ter os estudos custeados pelos cofres do Estado, seja por cursarem uma universidade pública, seja pelo recebimento de bolsas. No final de fevereiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou que o privilégio do ensino superior gratuito seria ampliado, com investimentos de 600 milhões de reais na construção de 40 campi. As universidades federais também foram autorizadas a abrir concurso para preencher 4 000 vagas de professores. Dos 18 bilhões de reais que o Ministério da Educação (MEC) tem para gastar com o ensino, 70% serão destinados às universidades federais. Vistos a distância, tais números poderiam sugerir que o governo finalmente encontrou uma maneira inteligente de aplicar o dinheiro público e está investindo na qualificação profissional dos jovens, preparando o país para disputar espaço entre as nações mais competitivas do planeta. Trata-se de uma conclusão apressada.
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Para a maioria dos especialistas, o Brasil mantém há décadas uma grande distorção na forma como investe em educação. Embora tenha um volume de gastos comparável ao de países desenvolvidos, o que torna o ensino brasileiro um dos piores do mundo é justamente a decisão de colocar a maior parte do dinheiro nas universidades públicas -- enquanto o ensino fundamental e o médio, em que estão matriculados mais de 40 milhões de crianças e jovens, vivem em eterna crise por falta de recursos. "O governo gasta demais com um número pequeno de universitários que, em sua maioria, poderiam pagar pelo estudo, e gasta muito pouco com as crianças pobres das escolas da rede pública", diz Sérgio Werlang, diretor executivo do banco Itaú e ex-diretor do Banco Central, um estudioso dos efeitos da educação na economia. "O problema da educação no Brasil não é falta de dinheiro, mas a forma como ele é aplicado."
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O governo gasta, em média, 10 000 dólares por ano para manter um estudante de universidade pública e cerca de 870 dólares com uma criança matriculada no ensino fundamental. A educação superior normalmente é mais cara que a de nível básico, mas essa diferença no Brasil -- da ordem de 1 050% -- é uma das mais desproporcionais do mundo. Na Coréia, onde o ensino é referência internacional, o universitário custa apenas 75% mais que o aluno do fundamental. O pior é que o número de universitários privilegiados é mínimo: apenas um em cada quatro alunos de curso superior está em instituições públicas. Há outro agravante: o grosso dos recursos das universidades públicas não financia bibliotecas, laboratórios modernos ou pesquisas de ponta. É consumido pela folha de pagamento. Neste ano, quase 90% dos 12 bilhões de reais repassados às federais serão usados para pagar salários de professores, funcionários e aposentados.
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Estudos indicam que isso ocorre, em parte, porque há gente demais para atender os alunos. Nos países de Primeiro Mundo, as universidades têm, em média, um professor para cada 20 alunos. Na americana Harvard Business School, uma das mais conceituadas faculdades de negócios do planeta, as salas de aulas são anfiteatros com uma centena de estudantes. No Brasil, as universidades públicas têm, em média, um professor para cada dez alunos. A conta fica mais salgada se for considerado o sistema de trabalho e seus vícios. É comum professores faltarem às aulas para exercer atividades paralelas, como as de consultor ou palestrante. Isso ocorre porque, na maioria das instituições, não existe mecanismo formal de controle da freqüência. Os professores mais dedicados ganham tanto -- ou menos -- que os relapsos. A maioria tem contrato de dedicação integral, pois, de acordo com a Constituição, devem não apenas lecionar mas também se dedicar à produção de pesquisas. Muitos não fazem nem uma coisa nem outra -- apenas uma dúzia das 220 universidades públicas brasileiras faz pesquisa de fato. "Dizer que os professores universitários ganham mal é meia verdade", diz o economista Gustavo Ioschpe, autor do livro A Ignorância Custa um Mundo. "Para o tanto que a maioria trabalha, eles ganham bem."
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Ensino infantil em dólares por aluno
Comparado a outros países, o Brasil gasta muito com o ensino superior e pouco com o fundamental. Vejam os números abaixo:
Brasil – .............. 930
Coréia- .............. 2.600
México – ..............2.000
Estados Unidos – 7.700
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Ensino fundamental em dólares por aluno
Nunca tantos brasileiros tiveram acesso ao ensino superior gratuito. Desde o início do ano, mais de 1 milhão de universitários passaram a ter os estudos custeados pelos cofres do Estado, seja por cursarem uma universidade pública, seja pelo recebimento de bolsas. No final de fevereiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou que o privilégio do ensino superior gratuito seria ampliado, com investimentos de 600 milhões de reais na construção de 40 campi. As universidades federais também foram autorizadas a abrir concurso para preencher 4 000 vagas de professores. Dos 18 bilhões de reais que o Ministério da Educação (MEC) tem para gastar com o ensino, 70% serão destinados às universidades federais. Vistos a distância, tais números poderiam sugerir que o governo finalmente encontrou uma maneira inteligente de aplicar o dinheiro público e está investindo na qualificação profissional dos jovens, preparando o país para disputar espaço entre as nações mais competitivas do planeta. Trata-se de uma conclusão apressada.
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Para a maioria dos especialistas, o Brasil mantém há décadas uma grande distorção na forma como investe em educação. Embora tenha um volume de gastos comparável ao de países desenvolvidos, o que torna o ensino brasileiro um dos piores do mundo é justamente a decisão de colocar a maior parte do dinheiro nas universidades públicas -- enquanto o ensino fundamental e o médio, em que estão matriculados mais de 40 milhões de crianças e jovens, vivem em eterna crise por falta de recursos. "O governo gasta demais com um número pequeno de universitários que, em sua maioria, poderiam pagar pelo estudo, e gasta muito pouco com as crianças pobres das escolas da rede pública", diz Sérgio Werlang, diretor executivo do banco Itaú e ex-diretor do Banco Central, um estudioso dos efeitos da educação na economia. "O problema da educação no Brasil não é falta de dinheiro, mas a forma como ele é aplicado."
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O governo gasta, em média, 10 000 dólares por ano para manter um estudante de universidade pública e cerca de 870 dólares com uma criança matriculada no ensino fundamental. A educação superior normalmente é mais cara que a de nível básico, mas essa diferença no Brasil -- da ordem de 1 050% -- é uma das mais desproporcionais do mundo. Na Coréia, onde o ensino é referência internacional, o universitário custa apenas 75% mais que o aluno do fundamental. O pior é que o número de universitários privilegiados é mínimo: apenas um em cada quatro alunos de curso superior está em instituições públicas. Há outro agravante: o grosso dos recursos das universidades públicas não financia bibliotecas, laboratórios modernos ou pesquisas de ponta. É consumido pela folha de pagamento. Neste ano, quase 90% dos 12 bilhões de reais repassados às federais serão usados para pagar salários de professores, funcionários e aposentados.
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Estudos indicam que isso ocorre, em parte, porque há gente demais para atender os alunos. Nos países de Primeiro Mundo, as universidades têm, em média, um professor para cada 20 alunos. Na americana Harvard Business School, uma das mais conceituadas faculdades de negócios do planeta, as salas de aulas são anfiteatros com uma centena de estudantes. No Brasil, as universidades públicas têm, em média, um professor para cada dez alunos. A conta fica mais salgada se for considerado o sistema de trabalho e seus vícios. É comum professores faltarem às aulas para exercer atividades paralelas, como as de consultor ou palestrante. Isso ocorre porque, na maioria das instituições, não existe mecanismo formal de controle da freqüência. Os professores mais dedicados ganham tanto -- ou menos -- que os relapsos. A maioria tem contrato de dedicação integral, pois, de acordo com a Constituição, devem não apenas lecionar mas também se dedicar à produção de pesquisas. Muitos não fazem nem uma coisa nem outra -- apenas uma dúzia das 220 universidades públicas brasileiras faz pesquisa de fato. "Dizer que os professores universitários ganham mal é meia verdade", diz o economista Gustavo Ioschpe, autor do livro A Ignorância Custa um Mundo. "Para o tanto que a maioria trabalha, eles ganham bem."
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Ensino infantil em dólares por aluno
Comparado a outros países, o Brasil gasta muito com o ensino superior e pouco com o fundamental. Vejam os números abaixo:
Brasil – .............. 930
Coréia- .............. 2.600
México – ..............2.000
Estados Unidos – 7.700
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Ensino fundamental em dólares por aluno
Brasil – ................. 870
México – ............ 1.600
Coréia – ............ 4.000
Estados Unidos – 8.300
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Ensino médio em dólares por aluno
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Brasil -............... 1.100
México –........... 1.900
Coréia –............. 6.400
Estados Unidos - 9.600
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Ensino superior em dólares por aluno
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Brasil –.................... 10.000
México –.................... 5.700
Coréia –..................... 7.000
Estados Unidos -....... 24.000
Gasto anual por aluno na rede pública, de acordo com a paridade do poder de compra em dólar .
Brasil –.................... 10.000
México –.................... 5.700
Coréia –..................... 7.000
Estados Unidos -....... 24.000
Gasto anual por aluno na rede pública, de acordo com a paridade do poder de compra em dólar .
(Fonte: OCDE).
Enquanto isso, o dinheiro dos ensinos fundamental e médio mingua. Pela lei, essas modalidades devem ser mantidas pelos estados e municípios e receber 25% do que eles arrecadam com os impostos. Mas a realidade é de penúria. Até bem pouco tempo atrás, em São Paulo, a cidade mais rica do Brasil, há crianças em escolas de lata. No Nordeste, um professor pode ganhar menos de um salário mínimo. Quase metade das escolas do ensino fundamental nem sequer tem uma biblioteca. A Revista EXAME solicitou um levantamento ao Ministério da Educação com o total de investimentos dos estados e municípios em educação. Foi informada de que seria impossível apresentar um número exato. "Na prática, não existe um consenso do que seja investimento em educação", diz Ilona Becskeházy, diretora executiva da Fundação Lemann, entidade que oferece programas de aperfeiçoamento de gestão para escolas públicas. "Para algumas prefeituras, asfaltar a rua na frente da escola conta como investimento em educação."
Enquanto isso, o dinheiro dos ensinos fundamental e médio mingua. Pela lei, essas modalidades devem ser mantidas pelos estados e municípios e receber 25% do que eles arrecadam com os impostos. Mas a realidade é de penúria. Até bem pouco tempo atrás, em São Paulo, a cidade mais rica do Brasil, há crianças em escolas de lata. No Nordeste, um professor pode ganhar menos de um salário mínimo. Quase metade das escolas do ensino fundamental nem sequer tem uma biblioteca. A Revista EXAME solicitou um levantamento ao Ministério da Educação com o total de investimentos dos estados e municípios em educação. Foi informada de que seria impossível apresentar um número exato. "Na prática, não existe um consenso do que seja investimento em educação", diz Ilona Becskeházy, diretora executiva da Fundação Lemann, entidade que oferece programas de aperfeiçoamento de gestão para escolas públicas. "Para algumas prefeituras, asfaltar a rua na frente da escola conta como investimento em educação."
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Os estudantes brasileiros do ensino médio tiraram as piores notas
em um teste feito em 40 países
em um teste feito em 40 países
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Matemática:
1°. – Hong Kong – 550 pontos
40° - Brasil - 356 pontos
.
Ciências
1° - Finlândia – 548 pontos
39° - Brasil - - 390 pontos
.
Leitura
1° Finlândia – 543 pontos
36° - Brasil – 403 pontos
Fonte: Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa)
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A falta de transparência do sistema ficou escancarada em abril deste ano, quando o MEC realizou um cadastramento dos alunos baseado na presença em sala de aula. Descobriu-se uma diferença absurda: 13 milhões de crianças a menos do que fora informado pelo Censo Escolar, feito com dados dos estados e municípios. O fenômeno da proliferação de alunos fantasmas explica-se -- o censo serve de base para o rateio das verbas federais e a quantidade de alunos pesa na divisão do dinheiro.
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O Brasil tem apenas uma universidade entre as 200 melhores do mundo — classificação inferior à de vários outros países emergentes
País Universidades no ranking Instituição mais bem colocada
China 10 15° Índia 3 50°
Coréia 3 94°
Cingapura 2 22°
Rússia 2 79°
México 1 96°
Brasil 1 196°
Fonte: Jornal inglês The Times
Embora cruel para milhões de crianças, a opção de concentrar investimentos no ensino superior poderia ter servido para que o país tivesse universidades de primeira linha. A Índia adotou essa estratégia e criou alguns dos melhores centros de tecnologia do mundo. Definitivamente, não é o caso no Brasil. De cada 100 alunos que ingressam nas universidades federais, 65 não se formam -- a taxa de abandono nos cursos de física e química chega a 95%. Parte disso ocorre porque os currículos estão defasados, com excesso de vagas em áreas tradicionais, como direito e administração, e poucos cursos em áreas em ascensão, como engenharia de telecomunicações e biotecnologia. Em levantamentos internacionais, as universidades brasileiras mal aparecem em notas de rodapé. No ranking criado pelo suplemento de educação do jornal britânico The Times para mapear as 200 melhores instituições do mundo, a única brasileira é a Universidade de São Paulo, no 196o posto. Contam pontos no levantamento o volume de pesquisas, o número de citações em artigos e o número de prêmios Nobel de cada instituição. A Universidade Autônoma do México, que está em 96o lugar, produziu três ganhadores de Nobel. No Brasil, como se sabe, nunca ninguém foi agraciado. "A estrutura das universidades públicas se tornou ingovernável e não cumpre seu papel", diz o economista Claudio de Moura Castro, especialista em educação. "Não existe nenhum sentido em expandir esse tipo de universidade."
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Para os especialistas no tema, se o Brasil quiser universalizar o ensino de qualidade terá de inverter as prioridades -- concentrar recursos no ensino básico e acabar com a universidade gratuita. Ao contrário do que dizem os críticos a essa idéia, não se pretende privatizar as universidades públicas, apenas instituir a cobrança de mensalidade para quem pode pagar. O ensino superior gratuito foi abolido em todos os países que são referência em educação, como Inglaterra e Coréia do Sul. Na China, os universitários pagam entre 800 e 1 600 reais por mês para freqüentar instituições públicas. "Mesmo na América Latina, poucos países ainda mantêm universidades públicas a custo zero", diz Jeffrey Puryear, diretor do Programa de Promoção da Reforma Educativa da América Latina. Entre outras medidas defendidas para melhorar o ambiente universitário está o fim da estabilidade para os professores, que passariam a ser remunerados, promovidos e demitidos de acordo com a qualidade do trabalho. Mais que uma forma de usar racionalmente o dinheiro público, tais mudanças são vistas como um passo inicial para viabilizar o crescimento econômico a longo prazo. Com outra vantagem palpável: a melhoria na distribuição de renda. "Quem estuda mais, ganha mais. Como poucos estudam no Brasil, a desigualdade é enorme", diz Werlang. "Já passou da hora de enfrentar essa questão."
Matemática:
1°. – Hong Kong – 550 pontos
40° - Brasil - 356 pontos
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Ciências
1° - Finlândia – 548 pontos
39° - Brasil - - 390 pontos
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Leitura
1° Finlândia – 543 pontos
36° - Brasil – 403 pontos
Fonte: Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa)
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A falta de transparência do sistema ficou escancarada em abril deste ano, quando o MEC realizou um cadastramento dos alunos baseado na presença em sala de aula. Descobriu-se uma diferença absurda: 13 milhões de crianças a menos do que fora informado pelo Censo Escolar, feito com dados dos estados e municípios. O fenômeno da proliferação de alunos fantasmas explica-se -- o censo serve de base para o rateio das verbas federais e a quantidade de alunos pesa na divisão do dinheiro.
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O Brasil tem apenas uma universidade entre as 200 melhores do mundo — classificação inferior à de vários outros países emergentes
País Universidades no ranking Instituição mais bem colocada
China 10 15° Índia 3 50°
Coréia 3 94°
Cingapura 2 22°
Rússia 2 79°
México 1 96°
Brasil 1 196°
Fonte: Jornal inglês The Times
Embora cruel para milhões de crianças, a opção de concentrar investimentos no ensino superior poderia ter servido para que o país tivesse universidades de primeira linha. A Índia adotou essa estratégia e criou alguns dos melhores centros de tecnologia do mundo. Definitivamente, não é o caso no Brasil. De cada 100 alunos que ingressam nas universidades federais, 65 não se formam -- a taxa de abandono nos cursos de física e química chega a 95%. Parte disso ocorre porque os currículos estão defasados, com excesso de vagas em áreas tradicionais, como direito e administração, e poucos cursos em áreas em ascensão, como engenharia de telecomunicações e biotecnologia. Em levantamentos internacionais, as universidades brasileiras mal aparecem em notas de rodapé. No ranking criado pelo suplemento de educação do jornal britânico The Times para mapear as 200 melhores instituições do mundo, a única brasileira é a Universidade de São Paulo, no 196o posto. Contam pontos no levantamento o volume de pesquisas, o número de citações em artigos e o número de prêmios Nobel de cada instituição. A Universidade Autônoma do México, que está em 96o lugar, produziu três ganhadores de Nobel. No Brasil, como se sabe, nunca ninguém foi agraciado. "A estrutura das universidades públicas se tornou ingovernável e não cumpre seu papel", diz o economista Claudio de Moura Castro, especialista em educação. "Não existe nenhum sentido em expandir esse tipo de universidade."
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Para os especialistas no tema, se o Brasil quiser universalizar o ensino de qualidade terá de inverter as prioridades -- concentrar recursos no ensino básico e acabar com a universidade gratuita. Ao contrário do que dizem os críticos a essa idéia, não se pretende privatizar as universidades públicas, apenas instituir a cobrança de mensalidade para quem pode pagar. O ensino superior gratuito foi abolido em todos os países que são referência em educação, como Inglaterra e Coréia do Sul. Na China, os universitários pagam entre 800 e 1 600 reais por mês para freqüentar instituições públicas. "Mesmo na América Latina, poucos países ainda mantêm universidades públicas a custo zero", diz Jeffrey Puryear, diretor do Programa de Promoção da Reforma Educativa da América Latina. Entre outras medidas defendidas para melhorar o ambiente universitário está o fim da estabilidade para os professores, que passariam a ser remunerados, promovidos e demitidos de acordo com a qualidade do trabalho. Mais que uma forma de usar racionalmente o dinheiro público, tais mudanças são vistas como um passo inicial para viabilizar o crescimento econômico a longo prazo. Com outra vantagem palpável: a melhoria na distribuição de renda. "Quem estuda mais, ganha mais. Como poucos estudam no Brasil, a desigualdade é enorme", diz Werlang. "Já passou da hora de enfrentar essa questão."