sexta-feira, outubro 20, 2006

A educação brasileira vai mal – 3

A falta de sintonia com a modernidade

Muitas companhias no Brasil ficam meses com vagas em aberto pela incapacidade de encontrar trabalhadores de bom nível -- um cruel contra-senso para um país com 8 milhões de desempregados. É o caso da rede francesa de livrarias Fnac. A empresa trabalha com um perfil de funcionário com nível de formação elevado. Cerca de 40% dos atendentes cursam ou concluíram uma faculdade. O RH recebe 7 000 currículos por mês. Mas, de cada 20 candidatos selecionados para entrevista, 19 não conseguem entabular uma conversa mais elaborada. A vaga mais complicada de preencher é a de atendente do setor de livros. Nesse caso, o profissional precisa entender minimamente de literatura. Na matriz francesa, uma vaga como essa é preenchida no mesmo dia. Há seis meses, Elizabeth Cerqueira Leonetti, diretora de recursos humanos da Fnac, tenta, em vão, encontrar alguém qualificado em literatura para uma das lojas em São Paulo. "É lamentável e frustrante ver universitários que não sabem escrever, falar em público e trabalhar em equipe", diz Elizabeth.
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O pífio desempenho educacional brasileiro, claro, não é um problema novo. Mas tornou-se muito mais grave com a globalização acelerada dos negócios a partir dos anos 90. Cada vez mais as empresas comparam dezenas de países antes de realizar um investimento -- e a disponibilidade de mão-de-obra qualificada é um dos itens prioritários. Uma pesquisa realizada em parceria entre o Ibmec São Paulo e a London Business School com as 500 maiores empresas brasileiras identificou que a baixa formação dos empregados afeta negativamente decisões de investimento. Cerca de 40% delas disseram que a falta de trabalhadores qualificados impede a adoção de novas tecnologias. "O Brasil sempre se preocupou em fazer política industrial, mas ignorou que o mais importante é formar pessoas", diz o economista Naércio Aquino Menezes Filho, coordenador da pesquisa pelo Ibmec. "O resultado disso é que as empresas estão perdendo produtividade."
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O caso da LG do Brasil, subsidiária de uma das maiores fabricantes de eletroeletrônicos do mundo, com sede na Coréia, é exemplar para ilustrar essa perda. As linhas de produção da LG em Taubaté, no interior de São Paulo, montam nove celulares por hora. As linhas da fábrica da cidade de Pulsan, no interior coreano, produzem 15 aparelhos por hora -- quase 70% mais. As duas unidades contam com os mesmos equipamentos e o mesmo número de funcionários, teoricamente dotados do mesmo nível de formação escolar, o ensino médio completo. Segundo Fábio Gurman, gerente de RH da LG, a diferença é que o operário coreano foi educado por um dos melhores sistemas de ensino público do mundo, e o brasileiro, por um dos piores. "O poder de concentração, a capacidade de aprendizagem e a agilidade mental dos coreanos são impressionantes", diz Gurman. "Os brasileiros até que se empenham, mas precisam de mais treinamento, mais orientação e são dispersos."
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Diante desse quadro desalentador, o que explica que empresas brasileiras continuem trabalhando, crescendo e -- algumas vezes -- até inovando? A resposta está nos esforços feitos pela própria iniciativa privada, que, por uma questão de pragmatismo, assume funções do Estado. A saída é, a um só tempo, solução e problema. Ao investir na educação da mão-de-obra, os empresários garantem o capital humano de que precisam, mas desviam atenção e in vestimentos que, num ambiente ideal, deveriam estar voltados exclusivamente para os negócios. O negócio da Vale do Rio Doce é extrair minério e transportá-lo até seus consumidores. Mas a empresa precisa formar 200 condutores de locomotiva por ano. O negócio da paulista Tecnisa é construir prédios. Mas a empresa todo ano contrata dez professores e gasta 150 000 reais para ensinar centenas de operários a ler, escrever e ter noções básicas de informática. Assim, consegue garantir a qualidade das obras e reduzir desperdícios. Toda vez que começa uma obra, instala ao lado uma sala de aula. "Dar educação é obrigação do Estado, mas ele perdeu o rumo", diz Romeo Busarello, diretor de marketing da Tecnisa. Muitas empresas, como a Gerdau, oferecem complementação dos estudos. Em 1998, 25% de seus empregados tinham ensino fundamental incompleto. Graças a incentivos oferecidos pelo grupo, a proporção caiu para menos de 1%.
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O empresário Edson Musa, presidente do conselho de administração da Caloi, viu de perto como o ensino de baixa qualidade prejudica a vida do trabalhador e da indústria. Ao comprar a empresa, em 1999, Musa decidiu implantar programas de qualidade. Foi avisado pelo RH que os operários não conseguiriam assimilar um programa sofisticado. "Achei aquilo um absurdo e mandei aplicar um teste para medir os conhecimentos", diz Musa. Resultado: 38% dos operários com ensino fundamental completo eram analfabetos funcionais -- conheciam palavras, mas não entendiam o significado das frases. Para resolver o problema, a Caloi implantou um programa de reforço escolar e passou a aplicar uma prova na seleção de novos funcionários. Agora a Caloi pedirá ensino médio completo aos operários. "Não precisaríamos desse nível de formação", diz Musa. "Mas talvez assim encontremos gente com conhecimentos de ensino fundamental." Se Musa tivesse conversado com Guilherme Leal, co-presidente do conselho de administração da Natura, ficaria preocupado quanto às chances de encontrar pessoal qualificado. A fábrica da Natura em Cajamar, a apenas 30 quilômetros de São Paulo, emprega poucos moradores da vizinhança porque eles não passam na prova de seleção. "Se ainda estivéssemos no semi-árido nordestino eu poderia entender", diz Leal. "Mas estamos a poucos quilômetros do maior centro cultural do país."
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Essa necessidade de avaliar uma multidão de candidatos para encontrar um punhado de eleitos custa caro. No ano passado, a Atento, maior empresa de atendimento telefônico do país, entrevistou 240 000 jovens de 18 a 24 anos com ensino médio completo. Metade dos candidatos foi reprovada nos testes orais por não conseguir falar o português básico corretamente. Identificar e desclassificar tantos despreparados custou 1,8 milhão de reais à empresa. "Só precisamos que o atendente tenha um bom vocabulário", diz Cleide Barani, vice-presidente de RH da Atento. "Mas a maioria dos jovens não sabe falar. Utilizam regularmente expressões como 'nóis foi'."
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Mesmo empresas que recrutam alguns dos profissionais mais preparados do país têm dificuldade para preencher as vagas. A subsidiária brasileira da Tata, maior empresa de informática da Índia, há meses não consegue preencher 300 vagas. "Simplesmente não encontramos gente com o perfil técnico necessário", diz Sérgio Rodrigues, presidente da empresa. O laboratório farmacêutico Aché depende de cientistas estrangeiros para desenvolver novos medicamentos porque o número de profissionais brasileiros aptos a trabalhar no setor é ínfimo. "Sem a ajuda de gente de fora não teríamos chance de sobreviver", diz Victor Siaulys, presidente do conselho de administração do Aché. A Embraer, por sua vez, precisou até montar seu próprio curso de especialização para garantir o suprimento de engenheiros aeronáuticos, já que os três cursos existentes no país não dão conta de atender à demanda imposta por seu crescimento. Por ano, são formados 60 profissionais desse tipo. Nos últimos cinco anos, a Embraer investiu 13 milhões de dólares para formar 573 profissionais. É custo na veia, especialmente quando se lembra que suas competidoras contam com uma multidão de jovens bem formados à procura de emprego.
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Se há tanta demanda por engenheiros aeronáuticos, por que não surgem novos cursos? A explicação é a miopia do sistema educacional. "As universidades brasileiras são burocráticas, fechadas em si mesmas e não se planejam de acordo com as necessidades do mercado", diz Carlos Monteiro, diretor da CM Consultoria, especializada em gestão para o ensino superior privado. Atualmente, 60% dos 4 milhões de universitários brasileiros estão matriculados em não mais que dez cursos, voltados para carreiras saturadas, como administração, direito e psicologia. Nos cursos técnicos, a situação não é muito diferente -- a modernização existe, mas é lenta.
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As discussões em torno do tema educação são cíclicas no Brasil -- costumam se intensificar nos períodos eleitorais e submergir no momento seguinte. Mas raramente o problema é analisado pelo prisma da economia. "O que tem de ficar claro é que, se nada mudar, vai ser impossível ter crescimento de verdade", diz o economista Edward Glaeser. O obstáculo fica evidente quando se olha para as empresas de setores em expansão. "Quanto maior é o ritmo de crescimento das empresas, mais complicado é encontrar pessoas qualificadas, e mais oneroso treiná-las", diz Chieko Aoki, presidente da rede de hotéis Blue Tree, que enfrenta a falta de capital humano na ampliação das operações no Nordeste. A preocupação com a formação dos funcionários, antes restrita ao RH e à área de projetos sociais, virou tema recorrente na alta cúpula das empresas. "Se o Brasil engrenar um novo surto de crescimento, vai parar por falta de gente para trabalhar", diz Marcos Magalhães, presidente da Philips. Outro executivo preocupado é Manoel Amorim, presidente do conselho de administração da operadora de celulares Vivo. Amorim concilia a atribulada agenda profissional com a de conselheiro do movimento Quero Mais Brasil, em que defende reformas no ensino público. "Estudei em escolas públicas do subúrbio do Rio de Janeiro, mas consegui cursar Harvard e ter uma carreira bem-sucedida", diz ele. "A oportunidade que eu tive não existe mais." Entre os empresários cativados pelo tema está Jorge Paulo Lemann, acionista da Inbev e da Lojas Americanas. Lemann criou uma fundação que leva seu nome e atua na melhoria da gestão do ensino público. "Meus amigos podem achar que estou virando um socialista tardio, mas na verdade estou aflito com os baixos níveis educacionais do Brasil", diz Lemann. Em várias entidades, a educação passou a ter tanta importância quanto a reforma tributária e a redução da taxa de juro. "Enfrentamos a concorrência científica da China, da Índia e da Coréia, países que educam bem seus jovens", diz Luís Norberto Pascoal, presidente da rede de lojas de pneus DPaschoal e integrante do Compromisso Todos pela Educação, movimento empresarial que defende reformas na educação. "Se quisermos ter perspectiva de ocupar um lugar de destaque no mundo, temos de investir na qualidade do ensino público e manter as crianças e os jovens em escolas de qualidade."