sexta-feira, outubro 27, 2006

Lembrai-vos de Jânio.

Sebastião Nery
Publicado na Tribuna da Imprensa

Jânio Quadros era governador de São Paulo em 55 e apoiava a candidatura de Juarez Távora (UDN-PDC) à presidência da República, contra Juscelino (PSD-PTB), Ademar de Barros (PTB) e Plínio Salgado (PRP).
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Lacerda vinha reclamando que a campanha de Juarez em São Paulo estava fraca. Jânio fez uma grande reunião com secretários, presidentes e diretores de empresas estatais, empresários e banqueiros. E deu as ordens:
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- Como sabem os senhores, o general não pode perder em São Paulo. Seria o fim da minha vida pública. Vamos mobilizar apoios, recursos, muitos recursos. Temos que conseguir imediatamente umas 150 peruas (Kombis).
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De repente, entra na sala o deputado Fauze Carlos, amigo de Jânio, e lhe mostra a última pesquisa nacional, do Gallup, com Juarez Távora na frente. Jânio arregalou os olhos, examinou bem os números e disse a Fauze, teatralizando a voz e escandindo as sílabas:
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- Va-mos pa-rar, meu ca-ro, se-não o ho-mem ga-nha!
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Juarez Távora
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A sala ouviu perplexa, não entendeu nada, sobretudo porque Jânio repentinamente encerrou a reunião. Jânio queria e precisava que Juarez ganhasse em São Paulo, mas não demais, para não ganhar no País, porque em 55 ele já era candidato a presidente nas futuras eleições de 60 e preferia disputar na oposição, como sempre fez quando ganhou.
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Juarez ganhou em São Paulo e no Rio, e JK no País, como Jânio queria.
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Serra e Aécio estão com cabeça de Jânio. Serra muito gostaria que Alckmin ganhasse em São Paulo e Aécio que ganhasse em Minas, mas a ninguém convenceram de que querem a vitória de Alckmin no País todo.
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Lembrem-se eles de Jânio. Tantas fez que ganhou em 60 e sumiu em 61.
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Bezerro de ouro
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A Bíblia ensina como os homens foram castigados quando começaram a adorar um bezerro de ouro. O Brasil tem um bezerro de ouro: os juros da dívida pública. Tornaram-se o deus supremo do governo, dos partidos e sobretudo da imprensa. Nesta campanha, isso ficou escancaradamente claro.
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Foi irritante e intolerável. Podia-se falar de tudo. Mas que ninguém ousasse blasfemar contra as duas palavras sagradas: dívida e juros. Em cada debate, entrevista, as televisões, jornais, revistas, escalavam os pitbuls da Febraban em permanente plantão. Em geral estavam indiferentes, sonolentos, abrindo a boca. Quando apareciam as palavras dívida ou juros, era o milagre.
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Acordavam. E acordavam a serviço. A Heloisa Helena, coitada, só faltava sair dos debates e entrevistas cheia de dentadas. Quando falava em juros de 9% (4% de inflação e mais 5% de juros reais), nossos coleguinhas sorriam entre dentes, em esgares contidos. Depois partiam para cima dela.
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"Folha"
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O público não entendia, porque não sabia a letra da música. Cada televisão, grande jornal, revista, tem atrás de si, quando não tem na frente, um ou vários bancos. Os bancos mandam nos jornais, que mandam nos jornalistas.
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Os candidatos, encurralados pelos banqueiros e seus leões-de-chácara, falavam em "baixar juros", mas nunca mostraram os números, denunciando e discutindo o escândalo da dívida, dos juros, do assalto ao País pelos banqueiros.
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Terça-feira, a "Folha", com manchete de primeira página, lancetou o tumor. Marcos Cezari divulgou um estudo oficial, dos auditores fiscais da Receita Federal, que é ainda muito mais grave do que todos os mensalões, sanguessugas, dossiês, roubos e roubalheiras do governo Lula.
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Escândalo
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1 - "Brasil pagou 1,2 trilhão de juros em 6 anos - Peso da dívida pública mais que dobrou em 10 anos - De 99 a 2005, o Brasil pagou R$ 1,2 trilhão em juros para custear a dívida pública. E deve mais de R$ 1 trilhão".
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2 - "Em porcentagem do Orçamento Federal, os gastos saltaram de 18,75% em 1995 para 42,45% em 2005, no terceiro ano da gestão Lula (mais 126%). O recorde foi em 2003, no primeiro ano do governo Lula, com 46,82% do Orçamento" (mais 150%, doação de Palocci e Meirelles aos banqueiros).
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3 - "Os dados fazem parte do estudo inédito `Execução orçamentária do Brasil: de FHC a Lula', divulgado pelo Sindicato dos Auditores Fiscais da Receita Federal em São Paulo (Unafisco), elaborado pelos auditores Silvana Mendes Campos e Marcelo Cota Guimarães".
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4 - "O estudo sugere que, para reduzir a dívida pública, o Brasil precisa baixar a taxa de juros e fazer uma auditoria responsável na dívida - a última auditoria foi em 1931, quando 40% da dívida foram considerados irregulares".