quinta-feira, novembro 02, 2006

O apagão dos aeroportos!

Por Flávio Freitas Faria (*)
Publicado no Alerta Brasil

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Ainda está viva na memória dos brasileiros a ocorrência do "apagão", quando a incúria das autoridades colocou sob risco o fornecimento de energia elétrica, impondo restrições aos cidadãos e às empresas. A sociedade brasileira sofre agora as conseqüências do caos que se instalou nos aeroportos, em novo espetáculo de fracasso do poder público federal na prestação de serviço sob sua responsabilidade.
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Tal qual havia ocorrido em 2001, no apagão da energia elétrica, as autoridades aeronáuticas e aeroportuárias recorrem a explicações e justificativas absolutamente inaceitáveis para ocultar sua omissão. Não podendo atribuir a culpa a São Pedro, como naquela ocasião haviam tentado os responsáveis pelo setor elétrico, as autoridades civis e militares que deveriam zelar pela gestão eficiente da navegação aérea buscam agora escamotear sua negligência com argumentos que ofendem a inteligência do cidadão brasileiro.
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Uma dessas autoridades teve o atrevimento de atribuir o "apagão" dos aeroportos, em especial o de Brasília, ao excesso de pousos e decolagens em decorrência das eleições. Feliz seria o Brasil se tantos cidadãos possuíssem aviões a ponto de congestionar os céus por ocasião dos pleitos eleitorais. Esqueceu-se, porém, ao inventar tal disparate, que algumas semanas atrás vivemos uma eleição de primeiro turno sem que nada de anormal ocorresse nos aeroportos do País.
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Um outro veio em seguida dizer que o Aeroporto Juscelino Kubitschek, em Brasília, havia subitamente chegado ao limite de saturação. Tivesse consultado a página da própria Infraero na Internet e teria evitado a gafe. De janeiro até o final de setembro de 2006, o movimento de aeronaves na capital federal havia somado 93.250 pousos e decolagens, contra um total de 97.872 operações realizadas no mesmo período de 2005. O movimento diminuiu, portanto. E não se pode esquecer que uma segunda pista havia sido há poucos meses inaugurada no aeroporto brasiliense, o que permite supor uma melhoria em suas condições operacionais.
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O que as autoridades teimam em negar, é o que todos já perceberam. Os controladores de vôo, civis e militares, estão realizando uma ação coletiva e deliberada de retardamento dos pousos e decolagens. Chame-se a isto operação tartaruga, procedimento padrão, greve branca, ou que outro nome se deseje inventar: é incontestável que os vôos estão sofrendo atrasos sistemáticos em razão de alteração das rotinas até então adotadas, sem que houvesse qualquer ordem superior para tal. Vá lá que o Comando da Aeronáutica prefira não enxergar tal atitude como indisciplina, para evitar o incômodo da apuração de responsabilidades e da aplicação de punições. Não se pode pretender, porém, que os usuários dos aeroportos, já suficientemente incomodados pelos atrasos de seus vôos, sejam compelidos a aceitar explicações tão destituídas de fundamento.
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Muitos devem estar, com toda razão, condenando a categoria dos controladores de vôo pelo aproveitamento político da comoção pública subseqüente ao acidente com o jato da Gol. No entanto, é inegável que o salário de um controlador de vôo é ínfimo perante a responsabilidade colocada em suas mãos. A falta de sensibilidade revelada pela categoria não isenta seus superiores hierárquicos, a quem competia agir para remediar-lhes o salário iníquo.Irregularidades no cumprimento de escalas de trabalho e respectivos períodos de descanso também devem ser atribuídas às autoridades aeronáuticas. Se o cumprimento estrito das normas exigia a ampliação do contingente de controladores de vôo, por que não foram tomadas as providências necessárias para tal?
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O colapso do controle de nosso espaço aéreo não resulta de fatores imponderáveis, ou de um excesso de tráfego aéreo contra o qual seja impossível reagir. Se assim fosse, os cidadãos americanos, europeus e asiáticos já viriam experimentando há décadas o tumulto que ora assola nossos aeroportos. Qualquer um dos quatro mais movimentados aeroportos americanos (Atlanta, Chicago, Los Angeles e Dallas-Fort Worth) suporta sozinho mais pousos e decolagens anuais do que a soma de nossos quatro aeroportos de maior movimento (Congonhas, Guarulhos, Brasília e Galeão). É evidente que, para tanto, dispõem de recursos materiais e humanos muito superiores aos nossos. Cabe, porém, àquelas mesmas autoridades prever a expansão do tráfego aéreo e tomar as providências para enfrentar tal crescimento. Se não o fizeram a tempo, falharam em sua missão.
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Não há mistério no que está ocorrendo. Falhou o governo agora, assim como falhou o governo anterior ao não agir para evitar a crise do setor elétrico. O "apagão" dos aeroportos, assim como o "apagão" do setor elétrico, poderia ter sido evitado.
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(*) Flávio Freitas Faria é engenheiro formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica e consultor legislativo da Câmara dos Deputados