quinta-feira, dezembro 28, 2006

Assaltar o tesouro, a missão

Pedro do Coutto, na Tribuna de Imprensa
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A política sempre foi e será eternamente a luta pelo poder, uma mistura de ciência, técnica e tática, a arte do possível, mas também o único instrumento possível de construção coletiva. Não se pode, é claro, separá-la dos interesses econômicos, porém dentro dos limites da ética e da moral, por mais que se queira flexibilizá-los. A rigidez excessiva em matéria política é um erro, só existe na teoria, nunca na prática. Mas há condicionantes da consciência e do compromisso dos dirigentes para com os outros, para com a sociedade. Sem lei, sem consciência e sem compromisso, não há civilização. A política não pode ser feita por santos, tampouco eles existem na vida real.
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Figuram nos murais, nos painéis, nas obras de arte, principalmente as da Renascença, que compõem o fantástico acervo do Vaticano. Aliás, diga-se de passagem, as igrejas de Roma, Paris (caso da Notre Dame), Florença, Veneza, Colônia, para citar só estes monumentos eternos, hoje são museus com ingresso pago, como é até natural, para manter tão insuperável patrimônio, legado do talento humano sempre.
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Assim, as pessoas que desejarem entrar nestes templos só para rezar e buscar um encontro com Deus vão ter dificuldade. Talvez até impossibilidade. Mas esta é outra questão. Estou citando apenas para retirar o falso caráter sublime e divino que muitos, da boca para fora, tentam atribuir às situações humanas.
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Entretanto, a síntese da política encontra-se no coletivo. Quem possui tal vocação encontra na política o campo certo. Os que sentem vocação para o individual ou para o plano setorial devem buscar outra atividade. Por isso mesmo é que não faz o menor sentido alguém ingressar no universo político com o objetivo de enriquecer, o que, no caso, só pode ser alcançado se estiver propenso a assaltar o patrimônio público, assaltar o tesouro público.
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Incrivelmente, é o que vem acontecendo. E cada vez mais e com maior intensidade e descaramento. Assaltar o tesouro, a missão, título que dou a este artigo inspirado na filmografia americana voltada para a aventura e o rompimento com o tempo e o espaço. A cada dia, no Brasil, lamentavelmente, aumenta o número de desonestos, de ladrões imundos atuando na política. Não querem realizar nada de construtivo.
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Só querem vantagens, e, para tal, desenvolvem uma ganância cada vez maior. Como não existe crédito sem débito, para cada desonesto que enriquece aumenta a pobreza de muitos. Cresce a violência, amplia-se a insegurança, projeta-se cada vez mais velozmente a criminalidade. De todos os tipos. Os dirigentes de setores de fiscalização que, direta e indiretamente, promovem a sonegação terminam colocando armas nas mãos de bandidos e assim contribuindo para roubos, seqüestros, extorsões, assassinatos.
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O pior é que nem de leve consideram-se culpados, embora sejam os grandes agentes causadores da banalização do mal, de que em 1960 nos falou Hannah Arendt, a pensadora judia, por ocasião do julgamento do carrasco nazista Eichman, em Tel Aviv, Israel.
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A colocação ajusta-se plenamente aos tempos modernos. De tanto se ter conhecimento de crimes em série, a começar por uma onda desenfreada de corrupção nos poderes públicos, todos nós começamos a viver na era da banalização do mal. Os crimes e os criminosos não nos espantam. Cada um deles, é como se fosse a página virada de um romance policial. Em conseqüência, a vida humana vai perdendo valor. O direito de ir e vir numa cidade como o Rio de Janeiro, por exemplo, torna-se um evento lotérico.
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Em decorrência do crescimento do volume da corrupção, especialmente em termos de quantidade, faltam recursos públicos para tudo. O IBGE revelou na sua última Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios que das 51,7 milhões das residências brasileiras exatamente a metade não conta com água filtrada. Não é preciso acrescentar qualquer outro argumento.
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Está ocorrendo uma subversão completa. Setores encarregados de fiscalizar promovem a sonegação em benefício dos seus titulares, encarregados exatamente de realizar este combate. Órgãos de segurança transformam-se em fonte de insegurança. É essencial que haja uma ruptura urgente capaz de devolver a política a seu verdadeiro campo de vocação e de atuação.
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Está difícil. Principalmente em função do surgimento de uma nova e perniciosa cultura. Quem ocupa um posto de direção e não se deixa envolver por corruptos e corruptores é considerado um idiota, um estúpido, alguém que se encontra em conflito com os dias atuais. A governadora Rosinha Garotinho, esta semana, chegou a dizer publicamente - "O Globo" de 20/12 - que não demitiu um integrante de sua administração, embora acusado pelo secretário Marcelo Itagiba, porque ele iria sair mesmo, para se candidatar às eleições de outubro. Impressionante. O espelho da nova cultura está contido na frase. É o caso do deixa pra lá, deixa para depois.
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Exatamente em face de tal disposição sombria é que a ilegalidade vem avançando fortemente e ocupando o espaço legal da cidade, do Estado do Rio de Janeiro, do País. A sociedade está perdendo a luta contra a corrupção. A permanecer tal tendência, parte ainda maior da população vai acabar aderindo à ela. Será o desastre total. Será o fim do futuro. O fim do tesouro público.