quinta-feira, dezembro 28, 2006

A orquídea

Fabio Grecchi, na Tribuna da Imprensa
.
Quem gosta de democracia é a elite intelectual. Sabe o quanto custa a ausência da liberdade de expressão e de opinião. O povão quer ditadura; acha que a mão pesada do Estado é a única capaz de colocar fim à ladroagem, sobretudo dos políticos. Acredita ingenuamente que a corrupção se extingue com o binômio prisão mais porrada. Não necessariamente nesta ordem.
.
Por que não falei na elite econômica? Simples: toma a forma do vaso que a contém. Ganha com a democracia ou com a ditadura. Segunda-feira passada, aqui nesta TRIBUNA, o professor Francisco Carlos Teixeira confirmou isto analisando a ditadura Pinochet. A junção do povão religioso com os donos dos modos de produção sustentou quase duas décadas de um regime brutal. A elite econômica soube virar a casaca com Patrício Aylwin, Eduardo Frei, Ricardo Lagos e Michele Bachelet, mas a herança bárbara se mantém viva em cerca de 30% do eleitorado chileno.
.
A ditadura surge como solução ao caos político causado pela corrupção. O presidente Lula teve boas razões para chorar diante de seus ministros quando lembrou da crise que quase o removeu. Várias vezes entrou e saiu do figurino de um João Goulart do século 21. Não se diga que esta fase está ultrapassada na América Latina: Carlos Mesa não fechou seu governo na Bolívia e os militares quase trazem Hugo Banzer de volta (o câncer o matou antes); Lúcio Gutierrez veio fugido para o Brasil, apeado pelos militares "a serviço" do povo. Motivo: corrupção.
.
Lula balançou na corda, vários foram os discursos da oposição pedindo - com razão - seu impeachment. Não puniu, não afastou, nem disse os nomes de quem o traiu. Os reacionários se assanharam: o aparelhamento à moda socialista do Estado tinha criado uma cadeia de faturamento da qual apenas o presidente não sabia. Pensava-se que estavam sem forças, mas qual o quê? É uma classe unida a dos golpistas. O povo manifestou sua repulsa nas pesquisas de opinião, com Lula ladeira abaixo. Se viesse uma ditadura as coisas entravam nos eixos. Pelo menos o ambiente era propício.
.
Quando se diz que a democracia é uma planta tenra, que deve ser regada diariamente, parece exagero. Mas não é. E são poucos os jardineiros que sabem disto.
.
Nada vai...
Quarta-feira eu escrevia aqui. "Há uma disparidade grosseira entre as funções baixas e médias de Legislativo, Judiciário e Executivo. Em vez de se nivelar todos pela CLT, criam-se castas de motoristas, ascensoristas, assessores que ganham duas, três vezes mais que o mesmo funcionário em outro Poder. (...) Para isto seria necessária uma reforma administrativa (...) que (...) estabelecesse tetos nos Três Poderes".
.
O que disse o Lula ontem? Que defende o teto único para o servidor. O problema, porém, são os sindicatos dos servidores: alguém vai sair perdendo.

...acontecer
Sigam o raciocínio. Os mais prejudicados são os funcionários públicos ligados ao Poder Executivo, cuja equiparação salarial seria ao Legislativo e ao Judiciário. Representa dizer o seguinte: apenas um segmento dos servidores receberia aumento. Claro que os dos dois outros poderes não aceitariam isto.
.
Como reduzir salários é inconstitucional - não se poderia aproximar aos do Executivo, para baixo -, haveria um aumento desnivelado para todos. Aí quem não aceitaria seria o ministro Guido Mantega (Fazenda). Derrotado no reajuste do mínimo, com mais esta, só pedindo demissão.