domingo, janeiro 14, 2007

Ópera bufa

por Denis Rosenfield, filósofo, Blog Diego Casagrande
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A disputa pela Presidência da Câmara de Deputados revela-se uma ópera bufa. O governo conseguiu a proeza de ter dois candidatos competitivos, um do PCdoB, Aldo Rebelo, e outro do PT, Arlindo Chinaglia. Ao mesmo tempo, encena todo um teatro de que há uma disputa que pode vir a produzir uma situação semelhante a que levou Severino Cavalcanti à mesma Presidência. Ora, o governo tem um controle dessas duas candidaturas e não vai mais repetir o mesmo erro. Alimenta, no entanto, essa disputa como se ela fosse relevante, como se o houvesse uma real ameaça das oposições.
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Não podemos esquecer que Aldo Rebelo é um fiel servidor de Lula. Nos momentos mais críticos do mensalão, ele fez tudo que estava ao seu alcance para deixar que o presidente ficasse acima desses problemas, obstaculizando qualquer iniciativa que pudesse eventualmente conduzir a um impeachment. Estamos diante de uma das piores Legislaturas dos últimos tempos e o atual presidente ainda se acha capacitado para continuar dirigindo essa Casa, chamada eufemisticamente de Casa do Povo. Pouquíssimos deputados foram punidos e a impunidade lá reina. Deputados envolvidos com a corrupção circulam livremente e são, agora, alguns, eleitores importantes. A última grande iniciativa foi a tentativa de um substancial aumento salarial dos deputados, provavelmente enquanto recompensa pelos “méritos” alcançados.
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O candidato petista, por sua vez, compartilha a mesma opinião relativa ao aumento dos salários e procura, apenas, incrementar o naco de poder em proveito do seu próprio partido, muito combalido pelas sucessivas denúncias de desvio de recursos públicos e pela substituição repetida de lideranças partidárias, comprometidas direta ou indiretamente com essas denúncias. O seu partido não julgou, em sua Comissão de Ética, nenhum dos seus membros, acobertando qualquer ação transgressiva, moral ou legal. A situação que se vislumbra, em caso de vitória sua, é que o PT recuperaria o seu poder na Câmara de Deputados, podendo pressionar ainda mais o governo em direção de algumas de suas propostas. Entre as quais, certamente, se sobressairiam as de maiores cargos no aparelho de Estado, ou seja, de apropriação partidária da máquina estatal.
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Lula consegue o prodígio de aparentar ser refém dessa disputa e de situar-se acima dela, como juiz que decidirá o que é melhor para o país. Refém, pois aparece como não controlando um processo do qual segue senhor. Juiz, pois consolida sua posição de árbitro, acima de classes sociais, sindicatos, associações e partidos, firmando uma certa imagem populista. É como se ele não tivesse partido, tendo-o ao mesmo tempo. Ele joga com esses pequenos enfrentamentos partidários, tirando deles o maior proveito. E se dá, aliás, ao luxo de sair de férias, mostrando o quanto isto lhe importa. Em briga de irmãos, o pai deve pouco se intrometer, salvo para uma decisão sábia e definitiva!
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As oposições estão bem ajudando Lula neste processo. Em vez de marcarem posição, apresentando um candidato honesto, crível, com idéias, estão perdidas em busca de uma estratégia. Os maiores partidos esboçam uma aliança com o candidato do PCdoB, como se, assim, estivessem lutando contra o PT. A estratégia não deixa de ser curiosa, pois fecham com Lula encenando uma disputa partidária. O Presidente deve estar se regozijando, na medida em que um dos seus candidatos, talvez o preferido, seja também o candidato de um setor importante das oposições. Estas deveriam, na verdade, marcar posição, mesmo que fosse para perder, credenciando-se para uma próxima disputa. Da forma que estão operando, terminarão fortalecendo na opinião pública a idéia de que são coniventes com tudo o que aconteceu nos últimos anos. Deveriam apresentar a imagem da ruptura com a corrupção, com a impunidade dos deputados, lutando pela renovação do Congresso, por uma nova pauta para o país. Caindo no jogo de Lula, fazem com que o acontecido tenda a desaparecer na maré de que todos os partidos seriam iguais. A vida política se faz de símbolos, e tanto Aldo Rebelo quanto Arlindo Chinaglia representam o descalabro dessa Legislatura, sem que isto implique o menor reproche às suas condutas individuais. Conta aqui o que simbolizam do ponto de vista político.