quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Mais uma inovação brasileira: o elogio gaiato

Vocês querem ver como se faz um elogio transformar-se em gaiatice ? Pois é, sob o título "Mais uma inovação brasileira", José Paulo Kupfer, NoMínimo, querendo elogiar a política assistencialista de Lula, resolveu dar um pontapé na informação, e distorcendo alguns fatos e verdades, e ignorando outros, faz uma verdadeira santificação do assistencialismo e o demonstra como a causa da instalação de unidade da Nestlé no Nordeste, investimento de 100 milhões de dólares. Leiam o artigo, depois retornamos para comentar:

Mais uma inovação brasileira
José Paulo Kupfer, NoMínimo

A Nestlé abriu uma fábrica em Feira de Santana (BA), de olho no mercado de baixa renda (ver a nota abaixo), turbinado, segundo a própria empresa, pelos programas de transferência de renda. Aqueles que quase ninguém vai ver como funciona, mas muitos não ficam vermelhos de carimbá-los, assim, sem mais nem menos, de “assistencialistas”.

A Nestlé, que não dorme de touca e não queima dinheiro, investiu R$ 100 milhões para aproveitar o “assistencialismo”. O “assistencialismo” fez com que o volume de vendas da empresa na região nordestina crescesse 20% em 2006 – duas vezes e meia acima do crescimento médio de suas vendas no País.

Impulsionada pelo “assistencialismo”, a nova fábrica vai produzir 50 mil toneladas de alimentos por ano, adquirindo parte dos insumos de produtores locais. E abrirá 2 mil empregos diretos e indiretos na região.

Como os neoliberais estão sempre certos e os programas de transferência de renda não passam de um vil e eleitoreiro assistencialismo, vai ver que o Brasil está inovando mais uma vez nas leis econômicas. Aqui assistencialismo gera emprego. E ainda por cima não qualquer emprego, mas empregos industriais!
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COMENTANDO A NOTÍCIA:

Inúmeras foram as vezes que transcrevemos aqui artigos escritos pelo José Paulo Kupfer. Por entendê-los corretos. Porém, hoje a transcrição é para apontar-lhe uma crítica. E o fazemos por lamentar que um sujeito se preste a fazer ou lançar uma teoria tola. Primeiro, que a economia nordestina cresceu não por obra e graça do “assistencialismo”. Segundo, que o “assistencialismo” chegou no Nordeste muito antes de Lula. Terceiro, porque dois foram os movimentos que impulsionaram, de fato, a economia nordestina, com geração de emprego e renda: de um lado, o turismo, financiado em grande parte, pelos fundos constitucionais, para os quais, muita gente torce o nariz, por desinformação em grande parte, e por má fé, o restante. A SUDENE, tanto quanto a SUDAM, abriram caminho na selva do esquecimento que as regiões Norte e Nordeste viveram ao longo de séculos por parte das regiões ricas do Sul-Sudeste. De há muito tempo, foram financiados imensos projetos de irrigação que transformaram o sertão em rico exportador de frutas. O mercado têxtil do Ceará é um dos mais prósperos do país há muitos anos. O turismo nordestino atrai todos os anos levas de turistas estrangeiros, que hoje tem a seu dispor toda uma infra-estrutura bancada com recursos da SUDENE. Naquilo que o Nordeste tinha de riqueza, o cacau, o “vassoura de bruxa” espalhado nas plantações por “técnicos petistas” arruinou a economia da região com enormes prejuízos para o país. Portanto, antes de espalhar uma ácida crítica ao neo-liberalismo por conta do crescimento da economia nordestina, melhor faria Kupfer em se informar nas razões históricas deste crescimento. Inclusive, caso Kupfer esteja tão desinformado assim, poderia por exemplo pesquisar sobre a grandeza da indústria coureiro-calçadista. Poderia, também, reler o discurso do prefeito onde a Nestlé inaugurou a fábrica, e ver a quem ele agradece a chegada daquela indústria. Nem é ao Lula, tampouco ao Jacques Wagner. Apenas para lembrá-lo mais um acontecimento esquecido por você, a Ford chegou na Bahia antes da Nestlé, antes do Petê. A soja também, portanto, no que tem sua crítica de desinformado, me parece ter também de má-fé.

É evidente, que cedo ou tarde, os investimentos feitos antes gerariam resultados na economia, tal qual vemos hoje. A Nestlé, por si só, não faria o investimento que fez, não tivesse a região como um todo contado com outros investimentos tal como acima mensuramos, mesmo que de forma resumida. Existem realidades no Nordeste, senhor Kupfer, desconhecidas por grande parte do país. Realidades positivas saiba. E o governo Lula não “chegou” no vazio com seu assistencialismo: ele encontrou toda uma teia de assistência social já estruturada. O que fez foi apenas expandi-la, eliminando as exigências que havia antes e que permitiam ao cidadão não ficar eternamente vinculado ao paternalismo estatal.

E quanto a Nestlé, a fábrica foi construída não com base nas vendas, e sim nos custos de produção, uma vez que estará próxima dos pontos de produção das matérias primas que ela irá demandar. Se não fosse esta proximidade, acredite, Kupfer, as vendas poderiam crescer até 200% e a Nestlé sequer se coçaria.

Mas, tudo bem, Kupfer, é bom quando a gente mostra o lado para o qual torcemos, pelo menos deixamos de enganar a torcida. Mesmo assim, quando seus artigos estiverem corretos, e produzidos com conceitos sensatos, sem este ranço preconceituoso e inadequado pelo desconhecimento da história, ainda os reproduziremos. Mas aceite uma sugestão: não ponha seus conceitos à frente da história. Num país em qualidade de ensino já é tão deprimente, não fica bem para alguém com sua formação, ficar destruindo a verdade histórica com desinformação e o que é pior, semeando maldade felina. Com mais informação, acredite, a gente não cai nas armadilhas das aparências, que nos levam a emitir conceitos destoantes e vazios, totalmente infundados e distantes da realidade.