quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Os crimes que não acabam

Xico Vargas, NoMínimo

A missa de 7º dia, em homenagem ao menino João Hélio, na Candelária, mostrou o que pode ser o suplício dobrado a que vêm sendo submetidas famílias cariocas vítimas da violência. Sem nenhuma combinação, a presença de pessoas levadas apenas pela solidariedade expôs o calvário que cruza a cidade há quase duas décadas. Reuniu-se na Candelária uma coleção de crimes de extraordinária violência e repercussão que ainda não acabaram.

Lá estavam os pais de Gabriela Prado, a menina morta durante tiroteio entre assaltantes e policiais, na estação São Francisco Xavier do metrô. Gabriela foi assassinada há três anos, pouco antes de completar 15 anos. Ainda não foi identificada a arma da qual partiu o tiro que a matou. Parte disso se deve ao estoque de 15 mil laudos atrasados na Polícia Técnica.

Também estava Luciana Novaes, a estudante baleada na cantina da universidade Estácio de Sá, na Tijuca, em 2003. Desde então, tetraplégica, Luciana é transportada quase deitada numa cadeira de rodas. Ali também dorme e não raro precisa de aparelhos que a ajudem a respirar.

O autor do tiro que a deixou assim jamais foi conhecido. Anthony Garotinho, então secretário de Segurança, fez intenso barulho antes de encerrar as investigações, diante das câmeras de TV, com a apresentação de um pobre-coitado no papel de culpado. Um circo que logo desabou.

Luciana queria ser enfermeira, profissão que só veio a conhecer como paciente das pessoas que a atenderam nos dois primeiros anos de adaptação à paraplegia. Tem direito, mas o estado não a indenizou. Como nada ofereceu às Mães de Acari, que lá estavam na Candelária. São mulheres em permanente luto pela perda – há 13 anos – de oito jovens e três adultos moradores da favela de Acari.

É crime no qual não há o que discutir sobre a responsabilidade do poder público. Os assassinos são policiais e tristes-figuras que dependem de pequenos serviços prestados à polícia para manter-se. Origem idêntica a dos autores, três anos depois, da chacina de Vigário Geral, na qual 21 pessoas foram executadas.

Não apurar, não encontrar culpados, nem responsabilizar-se pelo caos que o domina é a maneira como o estado mantém inertes essas%