sábado, fevereiro 17, 2007

O dia seguinte

Fabio Grecchi, Tribuna da Imprensa

Seria ótimo que acontecesse aquilo que o pai do menino João Hélio Fernandes, na entrevista que foi ao ar domingo à noite pela TV, pediu: que a morte de seu filho não fosse em vão, mas um marco zero de algo que pusesse fim à angústia de ser morador de uma metrópole. Ao lado da mãe, olhos marejados e voz embargada, o que eles temem que outros Joões Hélios sejam mortos com a mesma crueldade num futuro não tão distante assim.

Vários pais, infelizmente, desejaram a mesma coisa. Seus filhos foram sacrificados em holocausto por uma sociedade que os esqueceu. Por que se omitiu. Claro, é o caminho mais fácil, porta larga para toda uma gama de políticos, juízes, governadores, estudiosos, que deitaram cátedra e vêem tudo piorar exponencialmente. E continuam deitando cátedra, defendendo teses, divulgando teorias que nada mais são do que meros tratados de boa vontade.
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Dizer que a sociedade não agüenta mais é bobagem. O presidente Lula "je pense" que sim. Tomara tenha visto a entrevista com os pais do menino, tomara tenha se colocado, com dona Mariza, na pele dos dois. São também pais, avós. Porque seu partido, em convenção na Bahia, passou lotado pela tragédia do menino. E ao final ainda encontrou fôlego para comemorar ao som do bloco Ilê Aiê.

O que uma coisa tem a ver com outra? Tudo. No momento em que discute com que cargos o PT quer ficar na máquina pública, deveria estar pensando em entregar ao presidente um rol de propostas para serem colocadas em prática já, em nome do bem-estar público. Mais: puxar uma frente suprapartidária, que se espalhasse por todo o País e que estimulasse o debate sobre o Brasil que vem sendo erigido.

Falta investimento na educação? Falta maior justiça na divisão do bolo arrecadatório? Falta ampliação no mercado de emprego? Falta mudança na Lei Penal? Montou-se um conselho político e um conselho econômico com dezenas de inúteis membros, por que não discutir - como se deve - as raízes do esgarçamento da sociedade? No livro de Percival de Souza sobre o PCC, fica evidente o envolvimento superficial das autoridades. Tudo é paliativo, consertado à linha 10 e cola de arroz. Resultado: a estrutura não resiste e cobra o preço pela enganação. Que cada vez é mais alto e violento.

Já houve vários marcos zero na luta da sociedade contra a violência. À medida que as oportunidades são desperdiçadas, tudo piora. O crime avança mais e mais em petulância, exatamente porque rompe barreiras. Aquilo que era tabu há cinco anos, agora é normal. O que era bárbaro há uma década, agora é natural. Claro: houve tempo em se pôr freio e nada aconteceu.

Diante de tamanha inércia, é rezar para surgir uma solução milagrosa que coloque de joelhos um monstro cada vez mais forte.