quinta-feira, abril 05, 2007

Aos PIBerais

por Igor Taam, site Instituto Millenium

Há dois tipos de liberais: o economicista e os outros. Estes são mais políticos, mais literários, mais moralistas, mais culturalistas, mais filosóficos. Fazem de tudo menos análise econômica pura e simplesmente. É verdade que a Economia não é cega às demais tendências e vice-versa, basta lembrar que Adam Smith era professor e autor de tratados sobre Ética. Infelizmente, nos debates atuais, o PIBeralismo não deixa de ser uma corrente, senão totalmente dominante, majoritária. Se algum partido conservador se deixou convencer pelas benesses do liberalismo, foi por razões de melhor produção, eficiência, locação de recursos, etc. São bons motivos para agremiações cívicas e preocupadas aderirem às hostes do livre-mercado; é, porém, só isso que a tradição liberal tem a oferecer?

Como se pode verificar no começo do parágrafo anterior, existe o grupo “outros”, que tem muitos nomes, cada um se ocupando de aspectos completamente diversos da realidade. Sobre a liberação das drogas, o casamento gay, a prostituição, o acesso às armas de fogo… São pontos que costumam gerar polêmicas. É certo ou errado? É bom ou mau? É virtuoso ou detestável? Quais perguntas devem ser feitas além do cálculo de empregos? Pessoalmente, não sou usuário de entorpecentes, não recomendaria a ninguém que assinasse um acordo matrimonial modificado para necessidades homossexuais, acho a profissão mais antiga do mundo uma das mais degradantes do ser humano, e não porto nem vendo nada que atire projéteis para autodefesa. Nada disso me é particularmente interessante. No entanto, não espero que todos concordem com minhas assertivas íntimas, como não quero que outros imponham suas crenças benevolentes e medos pessoais ao meu estilo de vida. E é nesse ponto que os PIBerais falham. Vão apenas argumentar a uma dona-de-casa que a liberdade às drogas dará mais empregos a seus filhos viciados? Vão dizer ao crente que apóie a família gay pelo aumento poupança nacional, ignorando sua própria danação? As pessoas não são feitas de números, mas todos podem entender que cada vida é formada de incontáveis decisões pessoais.

Indivíduo por indivíduo, todos têm sua própria maneira de entender e lidar com as possibilidades internas e oportunidades ao redor, nunca podendo descartar o fator experiência. Aprendemos a não botar o dedo na tomada, ou levando choque, ou aceitando os conselhos de alguém que já levou, ou vendo diretamente alguém se contorcendo com alguns watts de potência correndo pelos seus dedos. É uma vivência desagradável, mas estar vivo é também vivenciar coisas desagradáveis, é fazer coisas erradas e tomar outras decisões a partir disso. Quando mutilam as experiências possíveis de um adulto, mutilam também o seu crescimento diante dos fatos da vida, ele nunca tomará choques e jamais saberá o que é uma tomada. Talvez um outro crescimento, o do Produto Interno Bruto, dependa desse desenvolvimento pessoal, talvez, não; será, porém que preferimos ser um nenenzão rico a um homem modesto? Será realista que uma coletividade auto-infantilizada é capaz de ousar, arriscar e gerar grandes riquezas?

Recentemente ouvi de um PIBeral que, ao se argumentar contra o poder dado a uns poucos para decidirem o que somente diz respeito a um indivíduo ou a um grupo de sócios, estamos discutindo o sexo dos anjos. Esse liberal acha que devemos nos moldar ao debate nacional, ou seja, falar basicamente da taxa de juros, das exportações, do mercado como solução aos problemas que todos se preocupam. Tudo muito grave, ok, mas pergunto agora se realmente essas pessoas todas, firmes na crença de que serem dirigidas por políticos é coisa excelente, vão fazer uma exceçãozinha racional para as atividades econômicas, pois todo o resto da vida delas não passa de uma besteira à-toa.