quinta-feira, abril 05, 2007

Tempestade de incompetência

Editorial do Jornal do Brasil
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Parece não haver limites para a incompetência e a desfaçatez exibidas pelo governo federal desde o primeiro dia do apagão do transporte aéreo. Há cinco meses, incontáveis passageiros são permanentemente atormentados pela crise da aviação civil, escancarada por cancelamentos de vôos, atrasos nos horários de pouso e decolagem, congestionamentos nas áreas de embarque, interdições de pistas, abusos das empresas, panes no sistema de controle - enfim, pelo colapso nos ares. Nesse período, as autoridades responsáveis pelo absurdo nada fizeram de útil. Limitaram-se a contemplar o desastre, entre uma e outra tentativa de justificar o injustificável.
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Só agora o Palácio do Planalto resolveu mover-se. Não para demitir do Ministério da Defesa, por justíssima causa, o inoperante Waldir Pires, que viaja pela estratosfera enquanto multidões ultrajadas conhecem o inferno em terra. Nem para providenciar a imediata ampliação do quadro de controladores de vôo ou para atender às reivindicações pertinentes da categoria. Tampouco para usar a verba reservada ao setor pelo orçamento da União, imobilizada nos hangares do superávit primário. Muito menos para identificar os responsáveis pelo escandaloso desperdício de dinheiro produzido pela Infraero.
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O Planalto só acordou do sono afrontoso para exorcizar o fantasma de uma Comissão Parlamentar de Inquérito destinada a investigar as causas do apagão. Acionada pelo Executivo, e valendo-se de truques e espertezas detestáveis, a majoritária bancada governista procura enterrar o perigo no mausoléu da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. Para tanto, conta com o apoio militante do presidente Arlindo Chinaglia.
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Aos olhos convenientemente míopes de Chinaglia, não existe um "fato determinado" a apurar, requisito indispensável à instalação de qualquer CPI. A piada de péssimo gosto acabou entrando em colisão frontal com a bravata reiterada na segunda-feira pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, depois de confrontado com imagens, colhidas no fim de semana, que atestavam a transformação dos aeroportos em zonas de guerra. Lula exigiu, mais uma vez, a "imediata e rigorosa apuração das causas da crise".
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Eis aí o "fato determinado" que Chinaglia finge não ver: se há crise, como admite o presidente, há responsabilidades a apurar. Elas se estendem, como sabem até birutas de aeroclube interiorano, muito além da garoa paulistana, à qual agora se atribuem todas as interdições do aeroporto de Congonhas. Ou quase todas: no domingo, o pesadelo foi prorrogado em algumas horas por um cachorro que resolveu passear na pista principal.
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Embora ultrapassem amplamente essas fronteiras mesquinhas, as origens de uma crise que nem mesmo Lula ousa atribuir a "heranças malditas" são recentes e tão facilmente identificáveis quanto os equívocos e descalabros que contribuíram para agravá-la. A aviação civil jamais figurou entre as prioridades do atual governo. E o que já é assustador teria assumido dimensões ainda mais apavorantes, sem que disso sequer desconfiasse a nação, se não tivesse ocorrido nos céus do Pará, em 29 de setembro passado, o pior acidente da história da aviação civil brasileira.
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A colisão entre o Boeing da Gol e o Legacy de uma empresa americana acabou por rasgar o véu que cobria o painel de horrores. Convencidos de que acabariam assumindo pecados alheios, os controladores de vôo decidiram deixar claro que são poucos, trabalham demais (em condições obscenas) e lidam com equipamentos obsoletos. A "operação-padrão" foi o andor que abriu a procissão de descobertas. Conjugadas, informam que a aviação civil brasileira se encontra em avançado estado de decomposição. Por culpa do atual governo.
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A Anac virou um cabide de empregos para ineptos. A Infraero transformou-se numa suspeitíssima fabricante de shoppings para saguões de aeroportos. Ao examinar as contas de 2005, o Tribunal de Contas da União reuniu pilhas de provas e evidências de irregularidades nas obras realizadas em oito aeroportos, entre os quais os de Congonhas, Cumbica e Viracopos. O ministro Waldir Pires não sabe sequer explicar o que quer dizer Cindacta, a sigla que supostamente monitora caminhos aéreos tão esburacado quanto as estradas federais.
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"Mais do que investigar os problemas aéreos, o importante é encontrar uma solução", declamou Chinaglia, o caçula dos conselheiros acácios do Planalto. As soluções foram sugeridas nos recorrentes relatórios que autoridades da Aeronáutica encaminharam à cúpula do governo, sem conseguir sensibilizar os pais da pátria. A aviação civil clama por mais controladores, equipamentos modernos, investimentos na infra-estrutura dos aeroportos, empresas mais ágeis e sensíveis, mais pistas, mais vôos.
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Sobretudo, implora por governantes e administradores que saibam ao menos distinguir um teco-teco de um bombardeiro.