quinta-feira, abril 05, 2007

Juros concentram renda cada vez mais

Pedro do Coutto , Tribuna da Imprensa

O Brasil possui, pelo menos, duas moedas em seu território: uma para o trabalho, outra para o capital. Além disso, há grande multiplicidade de taxas de juros. Moedas e taxas, embora diversas, convergem para um único ponto: o da concentração de renda. Vamos por etapas. O governo paga juros de 12,75 por cento ao ano para rolar, junto aos bancos, a dívida mobiliária interna de 1 trilhão e 81 bilhões de reais.

Quando concede financiamentos a empresas, através do BNDES, cobra uma taxa de longo prazo no valor de 6,7 por cento por doze meses. Fomento econômico é o argumento. Vá lá. Pois, segundo o IBGE, a inflação de 2006 foi de 3,1 por cento. Os juros reais pagos pelo governo à rede bancária são altos? São. Mas os cobrados pelos mesmos bancos e pelo comércio a todos nós são imensamente mais elevados. Reportagem de Patrícia Duarte, "O Globo" de 27/3, apresenta os números fornecidos pelo Banco Central. Vamos aceitá-los. O comércio, no crédito direto, cobra anualmente 59 por cento.

Se a vendas se referirem a automóveis, a taxa cai para a média de 32,7 por cento. No crédito pessoal, os bancos estão cobrando 57 por cento. Se o tomador do empréstimo for empresa, dependendo do porte, o custo fica em torno de 30 pontos anuais. Mas os juros dos cheques especiais vão à estratosfera: nada menos que 141 por cento ao ano. Mais de quarenta vezes o índice inflacionário oficial. Mesmo dentro de um quadro assim, o volume do crédito no País, de acordo com Patrícia Duarte, alcançou 747,4 bilhões de reais em 2006. Crescimento de 21,4 por cento em doze meses. O endividamento não pára de subir.

Os números colocados à apreciação conduzem à certeza de que, ao contrário do que seria positivo, o País avança a cada dia na direção de concentração de renda cada vez maior. A teoria delfiniana do bolo, que o ministro da Fazenda defendeu durante o governo Médici, ao que parece, resistiu ao tempo. Delfim Neto talvez seja um profeta moderno. De fato, o bolo não cessou de inflar. Só que ele previu, depois do crescimento, não da economia, mas do bolo, o início de sua distribuição. Não aconteceu até hoje, passados mais de trinta anos. Quem tem muito, deseja cada vez mais. O capital é insaciável. Os fatos estão aí. Os números de ontem e de hoje do Produto Interno Bruto revelam.

Em 64, quando João Goulart foi deposto pelo movimento político-militar, o PIB brasileiro era de 80 bilhões de dólares, revela o economista Gilberto Paim, meu amigo pessoal. Em março de 85, quando Sarney assumiu a presidência da República, encerrando o ciclo militar do poder, o Produto Interno Bruto atingia 375 bilhões de dólares. Mas a equação se inverteu radicalmente: a massa salarial passou a pesar um terço, como explicou o professor Cláudio Contador num estudo memorável de 89, na revista "Exame", e a remuneração do capital passou a significar dois terços.

Hoje, para um PIB de praticamente 900 bilhões de dólares, permanece a estrutura registrada em março de 85. Como a população brasileira cresceu muito no período, pelo menos em mais 30 por cento, vemos que o progresso econômico não acarretou a evolução social. Ao contrário. A população favelada aumentou incrivelmente. A prova de que a renda se concentrou, e continua a se concentrar, está aí. Visível a todos. O presidente Lula, inclusive, desistiu da idéia de reformar e modernizar a sociedade. Foi considerado um conservador, segundo George Soros, em entrevista ao "Valor" de sexta-feira, 23 de março.

Não surpreende, portanto, a queda acentuada do chamado risco Brasil no mercado retórico internacional. O risco, para o capital financeiro externo, era a figura política de Luis Inácio Lula da Silva. O temor evaporou. Reeleito, por larga margem de votos, Lula segue firme, céu de brigadeiro, em seu segundo mandato. Tornou-se um produtor de esperança, alguém extremamente simpático. A idéia reformista permanece na mente e no coração dos eleitores, embora não se realize.

O presidente da República é um fenômeno extraordinário. Tem o apoio maciço do povo, seu governo é considerado entre ótimo e bom por mais de 50 por cento da opinião pública. Seu índice de rejeição é mínimo. A segurança pública está uma calamidade. A saúde também. A educação idem. Mas não importa. O eleitorado fixou-se nele como um homem acessível, aberto, muito bom, imagem natural, não artificial, do pai e do tio do País.

A aceitação coletiva deste panorama desloca o debate para outro plano de discussão. O enfoque sai do coletivo para o individual, na medida em que cada um imagina um caminho lotérico para seu sonho e seu êxito. E como todos na vida almejam o êxito, é lógico e natural, esta regra do jogo passa a se impor. E "La nave va", como no belo filme de Fellini, um gênio que já nos deixou e, sem dúvida, faz falta. O projeto de todos, no Brasil, passou a ser individual, pois da solução coletiva nada se pode esperar.

Basta conferir os índices de inflação do IBGE com os reajustes salariais. Basta confrontar os juros cobrados pelo mercado com os pagos e cobrados pelo governo. Basta colocar de um lado a moeda que traduz o trabalho, e de outro a que exprime a remuneração do capital. Os números são esses que estou reproduzindo. A realidade social é a síntese de todos eles.