Editorial Jornal do Brasil
A Polícia Federal aprendeu a dar voz de prisão a qualquer bandido, informa a comissão de frente do bloco dos engaiolados pela Operação Hurricane ("furacão", em inglês). No grupo dos 25 capturados no primeiro dia da ofensiva contra a máfia dos caça-níqueis, figuram, ao lado de veteranos bicheiros que descobriram os encantos do tráfico de drogas e armas, delegados federais, advogados, juízes, desembargadores e um procurador regional da República.
O balanço inicial da operação, minuciosamente planejada e executada com notável competência, exibe números impressionantes. Segundo a Polícia Federal, foram apreendidos R$ 10 milhões em cédulas, R$ 5 milhões em cheques, US$ 300 mil, 34 mil euros, 400 libras e 51 automóveis (quase todos importados), além dos 27 relógios da grife Rolex trancados num cofre do apartamento de Ailton Guimarães Jorge, o notório Capitão Guimarães.
Só na casa de Aniz Abrahão David, o Anísio da Beija-Flor, a polícia apreendeu, no meio de outros guardados incomuns, US$ 48 mil (mais de R$ 100 mil). O advogado Ubiratan Guedes, integrante da brigada de doutores incumbida de manter em liberdade o presidente de honra da escola de samba de Nilópolis, achou tudo muito natural. "Qualquer cidadão poderia ter isso em casa", desdenhou Guedes, antecipando parcialmente a linha de defesa do réu.
A blindagem jurídica vai incluir um argumento que costuma tornar ainda mais misericordiosos juízes e jurados do Brasil. "Meu cliente fez uma cirurgia cardíaca há cerca de um ano e toma medicamentos todos os dias", contou o doutor. Testemunhas das performances de Anísio nos desfiles das escolas de samba do primeiro grupo, as arquibancadas da Sapucaí ainda convalescem do espanto. Os destaques da Beija-Flor agora incluem o cardíaco mais animado do Brasil.
O desembaraço dos bacharéis, estimulado pela agressividade corporativista da Ordem dos Advogados do Brasil, tangencia a fronteira da afronta, mas nada tem de surpreendente. Eles sabem que, se a polícia aprendeu a prender, a Justiça ainda não sabe punir bandidos ricos com o desejável rigor, muito menos mantê-los na cadeia. Assim tem sido desde sempre. Profissionais e amigos a serviço dos envolvidos com o bando mafioso acreditam que será assim agora.
Essa crença, fundamentada em incontáveis antecedentes, desta vez se apóia num inquietante alicerce adicional. Ao longo das investigações, a polícia reuniu evidências e provas consistentes de ações criminosas praticadas por magistrados e desembargadores vinculados à quadrilha. E juízes raramente são severos com juízes.
Terão de sê-lo desta vez, sob pena de transformar em certeza a suspeita de que o país caminha para assumir a liderança no ranking dos paraísos da impunidade dolarizada. Antes do aparecimento da figura do juiz-bandido, já era perturbadoramente pequena a confiança no Judiciário. Ficou menor com a descoberta dos lalaus. Poderá descer a quase nada se a indulgência prevalecer.
Tal descrença foi ratificada, por sinal, pela morna reação da opinião pública ao noticiário sobre a Operação Hurricane. Em democracias mais musculosas, a sociedade estaria nas ruas, exigindo a pronta punição dos pecadores. No Brasil, nem a presença de bandidos nos mais importantes tribunais causa perplexidade. Até agora, só provocou manifestações de indignação a suspeita de que integrantes do bando fraudaram o resultado do desfile de Carnaval.
A Polícia Federal aprendeu a dar voz de prisão a qualquer bandido, informa a comissão de frente do bloco dos engaiolados pela Operação Hurricane ("furacão", em inglês). No grupo dos 25 capturados no primeiro dia da ofensiva contra a máfia dos caça-níqueis, figuram, ao lado de veteranos bicheiros que descobriram os encantos do tráfico de drogas e armas, delegados federais, advogados, juízes, desembargadores e um procurador regional da República.
O balanço inicial da operação, minuciosamente planejada e executada com notável competência, exibe números impressionantes. Segundo a Polícia Federal, foram apreendidos R$ 10 milhões em cédulas, R$ 5 milhões em cheques, US$ 300 mil, 34 mil euros, 400 libras e 51 automóveis (quase todos importados), além dos 27 relógios da grife Rolex trancados num cofre do apartamento de Ailton Guimarães Jorge, o notório Capitão Guimarães.
Só na casa de Aniz Abrahão David, o Anísio da Beija-Flor, a polícia apreendeu, no meio de outros guardados incomuns, US$ 48 mil (mais de R$ 100 mil). O advogado Ubiratan Guedes, integrante da brigada de doutores incumbida de manter em liberdade o presidente de honra da escola de samba de Nilópolis, achou tudo muito natural. "Qualquer cidadão poderia ter isso em casa", desdenhou Guedes, antecipando parcialmente a linha de defesa do réu.
A blindagem jurídica vai incluir um argumento que costuma tornar ainda mais misericordiosos juízes e jurados do Brasil. "Meu cliente fez uma cirurgia cardíaca há cerca de um ano e toma medicamentos todos os dias", contou o doutor. Testemunhas das performances de Anísio nos desfiles das escolas de samba do primeiro grupo, as arquibancadas da Sapucaí ainda convalescem do espanto. Os destaques da Beija-Flor agora incluem o cardíaco mais animado do Brasil.
O desembaraço dos bacharéis, estimulado pela agressividade corporativista da Ordem dos Advogados do Brasil, tangencia a fronteira da afronta, mas nada tem de surpreendente. Eles sabem que, se a polícia aprendeu a prender, a Justiça ainda não sabe punir bandidos ricos com o desejável rigor, muito menos mantê-los na cadeia. Assim tem sido desde sempre. Profissionais e amigos a serviço dos envolvidos com o bando mafioso acreditam que será assim agora.
Essa crença, fundamentada em incontáveis antecedentes, desta vez se apóia num inquietante alicerce adicional. Ao longo das investigações, a polícia reuniu evidências e provas consistentes de ações criminosas praticadas por magistrados e desembargadores vinculados à quadrilha. E juízes raramente são severos com juízes.
Terão de sê-lo desta vez, sob pena de transformar em certeza a suspeita de que o país caminha para assumir a liderança no ranking dos paraísos da impunidade dolarizada. Antes do aparecimento da figura do juiz-bandido, já era perturbadoramente pequena a confiança no Judiciário. Ficou menor com a descoberta dos lalaus. Poderá descer a quase nada se a indulgência prevalecer.
Tal descrença foi ratificada, por sinal, pela morna reação da opinião pública ao noticiário sobre a Operação Hurricane. Em democracias mais musculosas, a sociedade estaria nas ruas, exigindo a pronta punição dos pecadores. No Brasil, nem a presença de bandidos nos mais importantes tribunais causa perplexidade. Até agora, só provocou manifestações de indignação a suspeita de que integrantes do bando fraudaram o resultado do desfile de Carnaval.