segunda-feira, maio 21, 2007

Brasil 2007, o país do "nunca antes"

Fritz Utzeri, jornalista, Jornal do Brasil

O Brasil do Molusco é um país quase perfeito, com uma saúde quase perfeita, governado por um presidente que está quase atingindo a perfeição. Além disso, caracteriza-se por feitos constantes e repetidos que "nunca antes neste país", foram vistos. Temos hoje "o melhor programa social do mundo" (o Bolsa Família), e programas ousados como o PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) e o da educação, que vão levar o Brasil para o primeiro mundo.

Os escandinavos morrem de inveja, ainda mais se considerarmos que temos moeda forte que vai humilhando o pobre dólar e chovem investimentos estrangeiros no país, ainda mais quando o "Risco Brasil" cai a níveis recordes. Então como explicar a grita dos industriais e a fuga de muitas empresas para o exterior? Esse fenômeno que os europeus chamam de "relocação" é cada vez mais comum em países do primeiro mundo, onde as regras que regem o trabalho são muito rígidas, sem contar impostos, os salários e vantagens dos trabalhadores e a força dos sindicatos.

Esses fatores têm levado muitas empresas a deixar seus países em busca de "paraísos" com pouca ou nenhuma regulamentação do trabalho, salários baixos, sem sindicatos e com encargos sociais leves: a China, por exemplo, que hoje abriga indústrias brasileiras do setor calçadista, têxtil e de eletroeletrônicos.

O câmbio abaixo dos R$ 2 nos dá uma sensação de riqueza e os brasileiros começarão de novo a encher os aviões para Orlando, Miami e passar férias em Buenos Aires. Os importados ficam mais baratos e os industriais reclamando, pois com a moeda valorizada fica difícil competir lá fora, somando moeda valorizada e altos impostos.

A enxurrada de dólares que entra hoje no Brasil tem a ver com o Risco Brasil sim, mas pouco a ver com produtividade, indústria e empregos. O verdadeiro Risco Brasil não tem diminuído e não passa semana no Rio sem que pelo menos duas pessoas não morram ou sejam feridas por balas perdidas. O outro, o índice das agências que atribuem risco, como a Standard & Poor's (curiosamente Poor's, em inglês, é "dos pobres") só diz respeito aos especuladores e avalia o risco daqueles que buscam lucro fácil.

Com a taxa de juros em queda - mas ainda elevada em relação ao resto do mundo e apesar das promessas de Meirelles ao Molusco de baixá-las 0,5% na próxima reunião do Copom - aplicar especulativamente no Brasil ainda é um verdadeiro negócio da China.

Para um efetivo desenvolvimento, o Brasil precisa trocar a natureza do capital que nos procura. Restringir a entrada do "capital motel", que não traz um só emprego e sangra o nosso país a longo prazo e facilitar a entrada de capitais produtivos, oferecendo incentivos, juros menores e padrões fiscais mais razoáveis. Aí será possível crescer e acompanhar o ritmo da atual economia mundial e não ficar disputando com o Haiti a rabeira do crescimento em nosso continente.

Uma coisa Luiz Inácio tem: sorte. Os últimos 10 anos da economia mundial conheceram uma expansão e ausência de crises notáveis, apesar da guerra no Iraque e da insegurança do terrorismo. Quem aproveitou cresceu muito nestes últimos anos. Nós, ao contrário, parecemos estar conformados com a adoção da mediocridade como norma. Criamos expectativas ridiculamente baixas para o nosso potencial (como a de estimar que se o governo cumprir 60% do PAC, já estará "de bom tamanho") e alardeamos estar no melhor país do mundo, o país do "nunca antes"...