segunda-feira, maio 28, 2007

Frigoríficos querem negociação direta com europeus

Os grandes frigoríficos estão se movimentando para falar diretamente com seus consumidores no exterior, especialmente na Europa. A estratégia é bem simples: eliminar intermediários entre a indústria brasileira e o consumidor final dos cortes de carne bovina para vender a preços mais competitivos, aumentando, assim, as margens de lucro.

"Há quatro anos, a carne brasileira passava por até oito intermediários até chegar ao consumidor final. Hoje, não são mais do que quatro, quando os frigoríficos já não negociam diretamente com as redes varejistas", disse Marcus Vinícius Pratini de Moraes, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Carnes (Abiec) e ex-ministro da Agricultura do Brasil.

Com essa movimentação dos frigoríficos, grandes traders brasileiras que atuavam no mercado exportador de carne estão reduzindo sua atuação nesse segmento e se dedicando mais aos embarques de açúcar e álcool. "As empresas dizem que estão saindo do mercado de carne porque a demanda por commodities energéticas é muito grade, mas no fundo elas não estão sendo mais procuradas pelos frigoríficos", disse um analista do mercado.

Um dos primeiros frigoríficos a adotar essa estratégia foi o Bertin. Atualmente com escritórios na Itália, Holanda e avaliando novas oportunidades em mercados europeus, o diretor de exportação de carne in natura, Marco Bicchieri, lembra que grupo já consegue colocar carne nas gôndolas de supermercado com marca própria.

"Vendendo diretamente ao varejo é possível ampliar em até 13% nossa margem por não passar por intermediários", afirma. No segundo semestre do ano passado, o Marfrig, presente na lista dos cinco maiores exportadores do País, abriu um escritório comercial em Londres para estar mais próximo fisicamente dos clientes europeus. A medida foi considerada ousada e provocativa por alguns analistas de mercado, pelo fato de o escritório estão próximo também da Irlanda, um dos maiores críticos à carne brasileira.

O Frigorífico Independência está analisando o sucesso de seu concorrente para decidir de forma mais concreta uma eventual investida no exterior. "Uma combinação de fatores favoráveis justificam o desempenho do Brasil no mercado internacional, mas é a melhoria da qualidade e o aumento da disponibilidade dessa carne de nível superior que permite que pratiquemos preços melhores", afirma André Skirmut, diretor comercial do Independência.

Apenas neste ano, o preço médio de exportação da tonelada sofreu uma valorização de 6,2%, passando de US$ 1.507,42 para US$ 1.601.36 por tonelada. O resultado de toda essa movimentação da indústria é que a as exportações do setor batem recordes a cada mês, mesmo o com dólar se aproximando cada vez mais dos R$ 2,00.

Entre janeiro e abril a receita com os embarques de carne aumentou 43,3%, passando de US$ 992,2 milhões para US$ 1,42 bilhão nos primeiros quatro meses do ano. Em volume o crescimento foi menor, mas não menos expressivos. Foram 888,68 mil toneladas, 34,9% a mais que o mesmo período do ano passado.

Na avaliação de José Vicente Ferraz, analista da FNP Consultoria, outro motivo que tem levado os embarques de carne a atingirem níveis tão elevados é uma demanda reprimida do mercado internacional. Para ele, o caso de "vaca-louca" nos Estados Unidos e a seca recorrente na Austrália abriram mercado para o Brasil. "Hoje o Brasil escolhe o preço que quer vender porque a Europa, por exemplo, não tem de quem comprar.

Se existisse mais carne no mercado teria demanda para o produto sem redução dos preços", afirma Ferraz. Com o crescimento das exportações acontecendo principalmente na carne in natura, o consultor alerta para a necessidade de os frigoríficos melhorarem sua produtividade e qualidade.

"Temos que transformar a indústria frigorífica nacional em uma indústria alimentícia cada vez mais moderna", afirma Ferraz, para quem todo o movimento de abertura de capital que alguns frigoríficos iniciaram faz parte desse processo de profissionalização.