Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa
Vale começar com a repetição do provérbio árabe de que bebe água limpa quem chega primeiro na fonte. O que pretenderia o presidente Lula derramando-se em elogios a Ciro Gomes, até tentando aproximá-lo do PT, ao tempo em que se refere a Aécio Neves como se fosse um aliado, recebe José Serra à maneira de um príncipe, no Palácio do Planalto, e faz espalhar que seu sucessor não precisará provir do seu partido.
Muita gente supõe sinceridade nessas novas posturas presidenciais. Inexistem motivos para rejeitar o raciocínio. Afinal, estando no exercício do segundo mandato e não podendo, pelos termos atuais da Constituição, disputar um terceiro, é natural que Lula se volte desinteressadamente para planejar o futuro. Sem alusões ao novo ministro Mangabeira Unger, é claro.
Para o atual presidente, interessaria ser sucedido por alguém que não caísse de tacape e borduna sobre seu governo prolongado. Um sucessor capaz, até, de dar continuidade a alguns de seus projetos. O problema é que tem gente desconfiando de tanta generosidade. O homem, mesmo sem diploma universitário, é catedrático em política. Mestre na arte de espalhar cascas de banana na trajetória dos outros.
Nesse particular, lembra Getúlio Vargas, que transformou um governo provisório em 15 anos de poder. Não seria o caso de Lula estar queimando candidatos, em vez de criar hipóteses? No fundo, não estaria nessa nova abertura o embrião do continuísmo? Porque ligar Ciro Gomes ao seu governo e ao PT poderá vir a ser fatal para as pretensões do independente ex-ministro da Integração Nacional. Suas chances existem na razão direta de inaugurar uma nova fase econômica, social e institucional.
Jogar incenso no Palácio da Liberdade, beatificando o governador Aécio Neves, não seria uma forma de incompatibilizá-lo com a parte dos tucanos empenhada em desencadear terremotos oposicionistas? Quanto a José Serra, a estratégia é a mesma. Mais estranhos parecem os comentários referentes ao fato de o PT não dispor de candidatos naturais.
Teria sido o caso de José Dirceu, não fosse a lambança por ele mesmo perpetrada junto com Delúbio Soares e outros. Jacques Wagner, Dilma Rousseff, Tarso Genro, Patrus Ananias, Marta Suplicy e demais companheiros realmente não empolgam, mas ir deixando isso claro, desde já, em comentários variados não caracterizaria uma estratégia?
Qual? Ora, a de queimá-los, abrindo a porta para o terceiro mandato. Impossível desenvolver esse roteiro a frio, mas será bom atentar que se tornará viável diante de duas paralelas: de um lado, mostrar-se o segundo governo melhor do que o primeiro. De outro, evoluir em torno da crise que seria a falta de soluções. Em especial se o Congresso vier a revogar o princípio da reeleição, com o aumento dos mandatos presidenciais para cinco anos. Por quê? Porque alterado outra vez o regime, não começará tudo do zero? Todo cidadão poderia candidatar-se, sabendo estar excluída daí por diante a possibilidade do segundo mandato. Mesmo, ironicamente, se vier a tratar-se do terceiro...
Laranjas
A Amazônia prima por plantas e frutas exóticas, daquelas que aqui no Sul conhecemos apenas pelo nome. Surpreende-nos, por isso, a quantidade de laranjas sendo plantadas na região. A referência vai para a volumosa aquisição de terras amazônicas por "laranjas" brasileiros, na verdade testas-de-ferro de empresas e grupos estrangeiros.
Poderiam, os alienígenas, aproveitar-se claramente da lei que permite a entrega a eles de glebas sem fim, mas, para evitar os holofotes e as denúncias de uns poucos preocupados com a soberania nacional, estão optando por esse subterfúgio. Nos registros do Incra e arredores amontoam-se certidões em nome de empresas ditas brasileiras, mas, na realidade, estrangeiras em termos de capital e de comando.
Só no Maranhão, acabam de ser concedidos 400 processos de alienação de terras. Roraima já tem 70% de seu território não-índígena controlado por gente de fora.
E assim ampliam o controle da floresta, de início para ficar intocada, ainda que em poucos anos preparada para ser internacionalizada. O governo Lula não está parecendo os três macaquinhos do folclore chinês, que não vêem, não falam e não ouvem? E nem temos a vantagem de nos tornar o maior exportador mundial de laranjas, porque essas, depois de chupadas, viram bagaço...
Vale começar com a repetição do provérbio árabe de que bebe água limpa quem chega primeiro na fonte. O que pretenderia o presidente Lula derramando-se em elogios a Ciro Gomes, até tentando aproximá-lo do PT, ao tempo em que se refere a Aécio Neves como se fosse um aliado, recebe José Serra à maneira de um príncipe, no Palácio do Planalto, e faz espalhar que seu sucessor não precisará provir do seu partido.
Muita gente supõe sinceridade nessas novas posturas presidenciais. Inexistem motivos para rejeitar o raciocínio. Afinal, estando no exercício do segundo mandato e não podendo, pelos termos atuais da Constituição, disputar um terceiro, é natural que Lula se volte desinteressadamente para planejar o futuro. Sem alusões ao novo ministro Mangabeira Unger, é claro.
Para o atual presidente, interessaria ser sucedido por alguém que não caísse de tacape e borduna sobre seu governo prolongado. Um sucessor capaz, até, de dar continuidade a alguns de seus projetos. O problema é que tem gente desconfiando de tanta generosidade. O homem, mesmo sem diploma universitário, é catedrático em política. Mestre na arte de espalhar cascas de banana na trajetória dos outros.
Nesse particular, lembra Getúlio Vargas, que transformou um governo provisório em 15 anos de poder. Não seria o caso de Lula estar queimando candidatos, em vez de criar hipóteses? No fundo, não estaria nessa nova abertura o embrião do continuísmo? Porque ligar Ciro Gomes ao seu governo e ao PT poderá vir a ser fatal para as pretensões do independente ex-ministro da Integração Nacional. Suas chances existem na razão direta de inaugurar uma nova fase econômica, social e institucional.
Jogar incenso no Palácio da Liberdade, beatificando o governador Aécio Neves, não seria uma forma de incompatibilizá-lo com a parte dos tucanos empenhada em desencadear terremotos oposicionistas? Quanto a José Serra, a estratégia é a mesma. Mais estranhos parecem os comentários referentes ao fato de o PT não dispor de candidatos naturais.
Teria sido o caso de José Dirceu, não fosse a lambança por ele mesmo perpetrada junto com Delúbio Soares e outros. Jacques Wagner, Dilma Rousseff, Tarso Genro, Patrus Ananias, Marta Suplicy e demais companheiros realmente não empolgam, mas ir deixando isso claro, desde já, em comentários variados não caracterizaria uma estratégia?
Qual? Ora, a de queimá-los, abrindo a porta para o terceiro mandato. Impossível desenvolver esse roteiro a frio, mas será bom atentar que se tornará viável diante de duas paralelas: de um lado, mostrar-se o segundo governo melhor do que o primeiro. De outro, evoluir em torno da crise que seria a falta de soluções. Em especial se o Congresso vier a revogar o princípio da reeleição, com o aumento dos mandatos presidenciais para cinco anos. Por quê? Porque alterado outra vez o regime, não começará tudo do zero? Todo cidadão poderia candidatar-se, sabendo estar excluída daí por diante a possibilidade do segundo mandato. Mesmo, ironicamente, se vier a tratar-se do terceiro...
Laranjas
A Amazônia prima por plantas e frutas exóticas, daquelas que aqui no Sul conhecemos apenas pelo nome. Surpreende-nos, por isso, a quantidade de laranjas sendo plantadas na região. A referência vai para a volumosa aquisição de terras amazônicas por "laranjas" brasileiros, na verdade testas-de-ferro de empresas e grupos estrangeiros.
Poderiam, os alienígenas, aproveitar-se claramente da lei que permite a entrega a eles de glebas sem fim, mas, para evitar os holofotes e as denúncias de uns poucos preocupados com a soberania nacional, estão optando por esse subterfúgio. Nos registros do Incra e arredores amontoam-se certidões em nome de empresas ditas brasileiras, mas, na realidade, estrangeiras em termos de capital e de comando.
Só no Maranhão, acabam de ser concedidos 400 processos de alienação de terras. Roraima já tem 70% de seu território não-índígena controlado por gente de fora.
E assim ampliam o controle da floresta, de início para ficar intocada, ainda que em poucos anos preparada para ser internacionalizada. O governo Lula não está parecendo os três macaquinhos do folclore chinês, que não vêem, não falam e não ouvem? E nem temos a vantagem de nos tornar o maior exportador mundial de laranjas, porque essas, depois de chupadas, viram bagaço...