terça-feira, maio 01, 2007

O Ibama e a tomada do estado pelo PT

Reinaldo Azevedo

Vocês sabem que eu não sou exatamente um ecologista. Resisto bravamente a simpatizar com bagre, mico-leão-dourado ou baleia. Vejo esses bichos e não consigo imaginar futuros gloriosos ou harmoniosos, embora faça minha parte etc e tal. Sei não. Mas acho que ainda vou reivindicar em grana a minha parte no aquecimento global. Sou do tipo que aquece pouco o planeta... Ecologistas são todos chegados a uma escatologia, ao fim do mundo. Eu não acredito muito neles. Eu me lembro de ter feito a conta lá atrás. Quando eu tivesse 35 anos, a Amazônia já teria acabado. Estou com 45. Parece que 87% das árvores ainda estão lá. Tá: acho melhor preservar do que devastar, desde que se responda também às demandas do desenvolvimento. Ponto parágrafo.
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Dito isso, começo a tratar da questão da divisão do Ibama. O governo Lula é um esculacho, e sua marca principal, já disse isso algumas dezenas de vezes, é a desinstitucionalização. Diante dos problemas, quaisquer que sejam, o PT opta pelo arranjo politiqueiro, pela acomodação das correntes do partido, em prejuízo do estado. Os ecologistas exageram e transformam em ciência as suas impressões? Sinceramente, eu acho que sim. Aqui e no mundo. O debate sobre o aquecimento global é a prova. Falo um pouco deste particular e volto ao fio.
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A nova onda, agora, dos “aquecimentistas” (uso aspas para destacar o fato de que a palavra não existe) é dizer que ainda dá tempo de salvar o planeta. Por quê? Exageraram tanto nos supostos efeitos devastadores do aquecimento e na irreversibilidade dos prejuízos, que aconteceu o óbvio: o mundo, então, disse: “Bom, se é assim, a vaca foi pro brejo”. O tiro saiu pela culatra, e agora eles têm de correr atrás do prejuízo.
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Retomo o fio. Se os ecologistas brasileiros exageram; se as previsões sobre os malefícios da construção da hidrelétrica no rio Madeira são puro catastrofismo, que se enfrente tecnicamente a questão. Que ela seja confrontada também politicamente. Em vez disso, o que faz a ministra Marina Silva (Meio Ambiente)? Decide dividir o Ibama, de modo a acomodar a militância preservacionista mais ampla, com sotaque internacional, e abrigar também os petistas, as necessidades do partido.
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Vejam que curioso: é o modelo Lula, que consegue juntar a disciplina mercadista com o populismo assistencialista; o entendimento privilegiado com Bush com o incentivo à virulência antiamericana de Chávez e Evo Morales. Procura-se, agora, fazer o mesmo no Ibama. Em suma, desinstitucionaliza-se para acomodar a política vesga do governo – ou, para ser claro, a ausência de política.Como já apontou o jornalista Marco Sá Corrêa, em recente artigo no Estadão, o desmembramento do Ibama e a criação do tal Instituto Chico Mendes, ademais, são uma espécie de privatização da militância ecológica brasileira, entronizando o grupo da ministra Marina Silva e dos irmãos Viana, do Acre, como imperadores da preservação e da floresta. Desnecessário dizer que Chico Mendes nada representa, por exemplo, para a causa da Mata Atlântica, por exemplo. Em suma: o Instituo Chico Mendes significa a criação de uma mitologia em benefício de um grupo político, a que Marina pertence.
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Se vocês pensarem bem, sob certo ponto de vista, Marina é a pessoa mais parecida com Lula no governo. Também ela está cercada por uma espécie de aura mítica: a coitadinha da floresta que atingiu o topo do poder sem se descaracterizar. A sua simples presença parece evocar reminiscências telúricas. É uma tolice, claro.
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A criação do Instituto Chico Mendes nada mais é do que a entrega formal de um pedaço do estado brasileiro ao PT. Além de implicar, obviamente, o enfraquecimento do Ibama. Alguns dirão que é irônico que isso aconteça na gestão de Marina Silva. É nada. As causas, para o PT, sempre foram um instrumento de tomada do estado, não de formulação de políticas públicas.