domingo, junho 10, 2007

Bancos: 600 bilhões em quatro anos

Pedro do Coutto, Tribuna da Imprensa
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Há poucos dias, ao instalar um fórum econômico em São Paulo, o vice-presidente José Alencar, crítico declarado e permanente do endividamento brasileiro, revelou que, ao longo dos quatro anos do primeiro governo Lula, o País pagou aos bancos, de juros, nada menos que 600 bilhões de reais Não para amortizar, e sim, o que é mais grave, apenas para rolar a dívida interna do País, que agora atinge 1 trilhão e 200 bilhões de reais, conforme o balanço que mensalmente a Secretaria do Tesouro publica no Diário Oficial.

Este ano, por exemplo, o desembolso com a taxa em torno de 12 por cento cobradas pela rede bancária está previsto na escala de 165 bilhões de reais. Não existe despesa pública maior do que esta. José Alencar afirmou que de 2003 a 2007 o governo poderia ter pago a metade dos juros que pagou. Ainda assim - acrescentou - continuariam figurando entre os mais elevados do mundo. Principalmente para aplicações sem o menor risco, sem maiores investimentos, sem muito trabalho, apenas movimentando máquinas de calcular das mais simples. E também sem empregar muita gente na tarefa.

Para que se tenha uma idéia exata do montante da dívida interna, basta compará-la com o orçamento da União para este ano, que é de 1 trilhão e 556 bilhões de reais. O endividamento representa praticamente 75 por cento do total da lei de meios. Para dimensionar o peso dos juros em quatro anos, estabelece-se a mesma comparação. Eles significaram 40 por cento do teto orçamentário projetado para 2007. Em termos de PIB, a dívida interna significa algo em torno de 56 por cento. É demais. Relativamente à inflação que o IBGE aponta para os últimos doze meses, os juros reais são de 9 por cento. O IBGE calcula 3 pontos no índice inflacionário. Os bancos recebem 12 pontos, coincidentemente pelo período de doze meses.

José Alencar, ao criticar a taxa paga, condenou de forma direta a política colocada em prática pelo Banco Central. Sem dúvida. Mas não ficou só na imagem generalizada. Especificou. Disse que se o País tivesse desembolsado 300 bilhões em quatro anos, em vez de 600 bilhões de reais, os programas de educação, saúde, saneamento, transportes, segurança, teriam avançado muito mais do que avançaram. Mas como os banqueiros capitalizaram soma tão alta de recursos, o poder público ficou sem possibilidade de agir como gostaria. Além disso, os juros recebidos pelos bancos contribuíram fortemente para aumentar a concentração de renda no Brasil.

Basta comparar a taxa anual de 12 por cento, para ficarmos no último degrau da escada, com as correções aplicadas aos salários. Os funcionários públicos, tanto os federais quanto os do Rio de janeiro, então, nem se fala. Enquanto os preços subiram (e sobem, aliás, como é natural) eles não conseguem sair do lugar. Por isso, francamente, fiquei surpreso com a afirmação feita pelo economista Paulo Guedes, no artigo que publicou em"O Globo" de 4/06, de que a massa salarial encontra-se em evolução no País. Só posso entender não ter ele considerado a inflação oficial e ficado apenas no movimento nominal dos salários. Mas movimento nominal não quer dizer muita coisa. Representa apenas uma correção.

Movimento por movimento, o que dizer do que favorece a economia particular dos estabelecimentos de crédito? Pode-se dizer, como inclusive Paulo Guedes disse, que a acumulação de capital contribuiu e contribui para tornar o crédito mais acessível. Até aí tudo bem. Mas isso está longe de significar progresso da massa salarial. Ao contrário, pois o recurso cada vez maior ao crédito significa uma compressão mais acentuada no volume de salários. Isso porque, como há tempos sustentou com clareza Homero Icaza Sanches, "o bruxo das pesquisas", o impulso ao consumo de parte de uma classe, qualquer classe, é sempre mais forte do que sua disponibilidade.

Ele estava ainda dirigindo as pesquisas da Rede Globo e seu estudo serviu para mostrar que, no plano comercial, ao contrário do eleitoral, não é decisivo somente levar-se em conta de qual segmento a que os entrevistados pertencem. Este fato, por si só, não será representativo da vontade que os consumidores expressam. Com base em Homero, nesta odisséia estatística, pode-se compreender bem um dos motivos que levam à expansão do crédito. A necessidade que o consumidor tem de adquirir. A necessidade, também, que os bancos têm de aplicar. Pois ganhando dinheiro demais, qualquer parcela parada na sua contabilidade significará uma perda inflacionária. E banqueiro não quer perder nada.

Isso é natural, ninguém quer. Nem tempo. Este tempo que todos nós estamos cansados de perder nas filas dos bancos porque eles empregam menos do que deveriam. Não influiria em seus lucros. Até porque os salários que pagam são dedutíveis no imposto de renda. Nós, assalariados, é que não podemos reduzir do IR as horas que todos os meses escapam de nossas mãos. Por isso, aproveito para citar Marcel Proust. Todos nós, consumidores, estamos eternamente partindo em busca do tempo perdido.

As perdas causadas pela concentração de renda são ainda maiores. E aumentam a cada dia, na medida em que a política de juros altos se mantém. Na há saída. Os salários, hoje, representam apenas 30 por cento do PIB, se tanto. Mantida a política atual, daqui a um ano sua participação relativa será ainda menor. E assim caminha o País na rota irreversível do conservadorismo. Ele venceu com FHC. Continua com Lula.