domingo, junho 10, 2007

Dize-me com quem andas...

Fritz Utzeri, jornalista , Jornal do Brasil

Há algo estranho em Luiz Inácio da Silva. O termo "tefal", usado para designar FH quando os escândalos pareciam não atingi-lo, é pouco para caracterizar a invulnerabilidade do Molusco. Ele deve ter nascido com um campo de força à sua volta, desses de ficção científica. Nada o atinge, por mais que esteja no centro da ação. Senão, como explicar que a cada novo escândalo em seu entorno imediato, sua popularidade se mantém inabalada ou até cresce? Bem, lulas e outros cefalópodes são naturalmente escorregadios e velozes, daí ser difícil grudar algo neles.

Ou então estamos diante do máximo da alienação, coisa de Muito além do jardim, aquele filme com Peter Sellers no qual ele era um perfeito abobado cujas platitudes o transformaram num guru. Se fosse verdade, teríamos que admitir que o presidente da República é o pior avaliador de homens que já existiu. Alguém que desmoraliza até a sabedoria popular, na qual tanto se apóia em suas metáforas. Quer dizer que nossos avós erravam quando diziam: "Dize-me com quem andas e eu te direi quem és"?

Difícil é crer nessa imagem alienada. O presidente é inculto, mas está muito longe de ser burro. Diria até que é muitas vezes mais inteligente que seu antecessor, FH. E nos escândalos mais recentes, demonstra que já está aprendendo a lidar de forma competente com eles, um verdadeiro mestre da enganação. Com duas faces, uma furibunda pouco conhecida a não ser pelos assessores, e outra para uso externo, geralmente bem humorada e sagaz.

Os envolvidos mais recentes nas tramóias são o próprio irmão e o compadre de Luiz Inácio. O mano mais velho, Vavá, foi pego mordendo bingueiros em troca de influência. Coisa rasteira que, se vendeu, não entregou. Ladrão de galinha, por suas próprias limitações, sujou-se magro. Bem que o mano mais novo disse que ele "não tem cabeça pra fazer lobby". Tudo nessa história é estranho. Por que desencadear a Operação Xeque-Mate (que rei morreu?) justo quando o presidente está no exterior? Por que tanto estardalhaço com o pobre do Vavá? Muito mais sério foi o que ocorreu com o Lulinha...

Se malandro fosse magnético, Luiz Inácio seria um ímã poderoso. A lista de gente não recomendável nas imediações do presidente é de estarrecer. Vejam o compadre Dario Morelli Filho (batizou um dos filhos do presidente), foi preso pela PF na Operação Xeque-Mate, por seu envolvimento com a máfia dos caça-níqueis, cujo capo, Nilton César Servo, é amigo de Vavá e Dario.

Em escândalos mais antigos tivemos Oswaldo Bargas, marido da secretária do presidente; o churrasqueiro Jorge Lorenzetti, assessor especial de Luiz Inácio durante 17 anos; Paulo Okamoto, tão amigo que pagou uma dívida de R$ 29 mil e jamais cobrou do Molusco (ninguém me arranja um amigão desses!). E isso para não falar de Dirceu, Gushiken, Delúbio, Palocci (que acaba de ter os direitos políticos cassados por irregularidades como prefeito de Ribeirão Preto); Silvio Pereira, Berzoini, Genoino, Duda Mendonça, Humberto Costa, Silas Rondeau e Renan Calheiros.

Razão tinha o "quase-futuro- será-que-assume?" secretário da Sealopra, Mangabeira Unger, ao escrever que o atual governo é o mais corrupto da História. Em 1954, a UDN golpista denunciava a existência de um "mar de lama no Catete". Era uma pocinha perto do que vemos hoje, mas o único político brasileiro que tinha vergonha na cara se matou. Hoje acham graça, riem na nossa cara, não observam nem o decoro, nem a decência e não têm nem mesmo a hipocrisia de aparentar inocência e tentar inventar uma boa desculpa. Nem precisa. Qualquer porcaria serve, porque a absolvição já é garantida.