Villas-Bôas Corrêa, Jornal do Brasil
Pela vereda iluminada do inesperado, esbarro com uma aula que é um curso completo de dignidade, compostura e coerência e que se encaixa como um gorro que se enterra até as orelhas nas cucas dos três poderes, a começar pelo Legislativo.
E o guia está amplamente credenciado para a lição que passa pelas 241 páginas do último livro do escritor, acadêmico e historiador José Murilo de Carvalho, uma obra-prima de nascença, de texto irretocável e título enxuto, D. Pedro II. Nos anexos, com o rigor de quem preza o leitor, oito páginas de Indicações bibliográficas lista e comenta as principais obras sobre a vida do imperador que durante quase meio século governou o Brasil.
Entre as que conheço e as que não li, aposto que nada se compara, na sucessão de achados e surpresas do grande livro que chegou às livrarias na hora exata.
Com o pedido de licença solicitada ao autor e para cutucar o interesse dos leitores, cato algumas pérolas do capítulo 14, pág. 97, O bolsinho imperial, que traça o perfil do segundo e último imperador do Brasil.
Às citações, entre aspas: "A manutenção de uma corte luxuosa no Brasil seria inviável até mesmo por causa da modesta dotação da família imperial, a lista civil. Ela era de oitocentos contos por ano. No início do reinado, isso representava apenas 3% da despesa do governo central. No final, os oitocentos contos estavam reduzidos a 0,5%. Ao longo dos 49 anos do reinado, o imperador nunca aceitou aumento da dotação, apesar de várias propostas nesse sentido feitas ao Parlamento. Além de não ter os hábitos perdulários das grandes cortes, D. Pedro não buscava acumular dinheiro. Anotou no diário: 'Nada devo, e quando contraio uma dívida, cuido logo de pagá-la, e a escrituração de todas as despesas da minha casa pode ser examinada a qualquer hora. Não ajunto dinheiro'".
"As viagens ao exterior eram custeadas com empréstimos porque D. Pedro se recusava a usar dinheiro público. Com o passar dos anos, foi reduzindo os gastos dos palácios".
"Além de não aceitar aumento de dotação, D. Pedro às vezes doava parte dela ao Tesouro. Em 1867, mandou descontar 25% da sua dotação como contribuição às finanças da guerra contra o Paraguai. A imperatriz seguiu-lhe o exemplo. As viagens às províncias causavam rombos em suas finanças, tantas eram as doações feitas. Só a de 1859 ao norte do Brasil custou mais de duzentos contos, um quarto da dotação. Grande parte do bolsinho imperial, como se dizia, ia para esmolas, doações a entidades beneficentes e científicas, pensões. Muitos pobres de São Cristóvão eram sustentados por esmolas que recebiam aos sábados, uma espécie de bolsa família em pequena escala".
"Boa parcela das pensões correspondia ao que hoje se chama bolsa de estudos. Muitos brasileiros estudaram no país e no exterior à custa do bolsinho imperial".
"Durante o Segundo Reinado, 151 bolsistas obtiveram pensões, 41 deles para estudar no exterior. No Brasil, foram 65 os pensionistas do ensino básico e médio, dos quais quinze eram mulheres. Os pensionistas no exterior recebiam ajuda para viagem, livros e enxoval. Em contrapartida, tinham de prestar contas trimestrais do seu aproveitamento e assumir o compromisso de regressar ao país ao final dos estudos".
"O descaso do imperador por dinheiro é bem ilustrado pela decisão de distribuir aos pobres os lucros, parcos, é verdade, da Fazenda de Santa Cruz, de propriedade da Coroa. Ele justificava a medida com o argumento de não querer que se dissesse que 'estava entesourando'. Por não entesourar, ao ser exilado teve de continuar a pedir empréstimos, que ainda não estavam pagos por ocasião de sua morte".
Nada a acrescentar. Sem comentários.
Pela vereda iluminada do inesperado, esbarro com uma aula que é um curso completo de dignidade, compostura e coerência e que se encaixa como um gorro que se enterra até as orelhas nas cucas dos três poderes, a começar pelo Legislativo.
E o guia está amplamente credenciado para a lição que passa pelas 241 páginas do último livro do escritor, acadêmico e historiador José Murilo de Carvalho, uma obra-prima de nascença, de texto irretocável e título enxuto, D. Pedro II. Nos anexos, com o rigor de quem preza o leitor, oito páginas de Indicações bibliográficas lista e comenta as principais obras sobre a vida do imperador que durante quase meio século governou o Brasil.
Entre as que conheço e as que não li, aposto que nada se compara, na sucessão de achados e surpresas do grande livro que chegou às livrarias na hora exata.
Com o pedido de licença solicitada ao autor e para cutucar o interesse dos leitores, cato algumas pérolas do capítulo 14, pág. 97, O bolsinho imperial, que traça o perfil do segundo e último imperador do Brasil.
Às citações, entre aspas: "A manutenção de uma corte luxuosa no Brasil seria inviável até mesmo por causa da modesta dotação da família imperial, a lista civil. Ela era de oitocentos contos por ano. No início do reinado, isso representava apenas 3% da despesa do governo central. No final, os oitocentos contos estavam reduzidos a 0,5%. Ao longo dos 49 anos do reinado, o imperador nunca aceitou aumento da dotação, apesar de várias propostas nesse sentido feitas ao Parlamento. Além de não ter os hábitos perdulários das grandes cortes, D. Pedro não buscava acumular dinheiro. Anotou no diário: 'Nada devo, e quando contraio uma dívida, cuido logo de pagá-la, e a escrituração de todas as despesas da minha casa pode ser examinada a qualquer hora. Não ajunto dinheiro'".
"As viagens ao exterior eram custeadas com empréstimos porque D. Pedro se recusava a usar dinheiro público. Com o passar dos anos, foi reduzindo os gastos dos palácios".
"Além de não aceitar aumento de dotação, D. Pedro às vezes doava parte dela ao Tesouro. Em 1867, mandou descontar 25% da sua dotação como contribuição às finanças da guerra contra o Paraguai. A imperatriz seguiu-lhe o exemplo. As viagens às províncias causavam rombos em suas finanças, tantas eram as doações feitas. Só a de 1859 ao norte do Brasil custou mais de duzentos contos, um quarto da dotação. Grande parte do bolsinho imperial, como se dizia, ia para esmolas, doações a entidades beneficentes e científicas, pensões. Muitos pobres de São Cristóvão eram sustentados por esmolas que recebiam aos sábados, uma espécie de bolsa família em pequena escala".
"Boa parcela das pensões correspondia ao que hoje se chama bolsa de estudos. Muitos brasileiros estudaram no país e no exterior à custa do bolsinho imperial".
"Durante o Segundo Reinado, 151 bolsistas obtiveram pensões, 41 deles para estudar no exterior. No Brasil, foram 65 os pensionistas do ensino básico e médio, dos quais quinze eram mulheres. Os pensionistas no exterior recebiam ajuda para viagem, livros e enxoval. Em contrapartida, tinham de prestar contas trimestrais do seu aproveitamento e assumir o compromisso de regressar ao país ao final dos estudos".
"O descaso do imperador por dinheiro é bem ilustrado pela decisão de distribuir aos pobres os lucros, parcos, é verdade, da Fazenda de Santa Cruz, de propriedade da Coroa. Ele justificava a medida com o argumento de não querer que se dissesse que 'estava entesourando'. Por não entesourar, ao ser exilado teve de continuar a pedir empréstimos, que ainda não estavam pagos por ocasião de sua morte".
Nada a acrescentar. Sem comentários.