sexta-feira, junho 08, 2007

A corrupção é intocável. O resto é simulação

Pedro Porfírio, Tribuna da Imprensa

Na política é difícil distinguir os homens capazes dos homens capazes de tudo." (Henri Beraud, jornalista e escritor francês - 1885/1958)

Circula na internet um e-mail bem humorado com um pedido pra lá de extravagante: "Repassem até chegar ao Bin Laden". Na carta eletrônica apenas uma foto, a do Congresso Nacional, com uma faixa fincada em seu gramado: "Bin Laden, aqui tem mais duas torres".

Cito essa brincadeira sem nenhuma pretensão. Ou melhor, apenas para mostrar a quantas nossa preclara classe política chegou na boca e nos computadores dos brasileiros. Não há razão para recorrer àquele personagem polêmico só porque ele fez os norte-americanos sentirem em casa, na própria carne, pela primeira vez, os efeitos mortais da guerra, à qual se dedicam com bizarro destemor e milhões de dólares na terra dos outros.

Descrença nos políticos
Tem sentido, porém, preocupar-se com a jocosa imagem da principal instituição da democracia, seu complexo legislativo. Mais deletéria é sua cotação em pesquisas como a realizada em abril pela Universidade de Brasília, segundo a qual 88,4% da população não confiam nos políticos que ela própria elege.

Instigante e reveladora, a pesquisa feita entre os moradores da Capital Federal mostra que até o jogo do bicho está melhor na fita do que os políticos: enquanto 22,7% acreditam nos bicheiros, apenas 8% confiam nos políticos. No Congresso, a cotação é de 19,9%; nos partidos, 16,5%; no Governo Federal, 33%; na Justiça, 43,4%, e nas Forças Armadas, 58,5%.

Numa relação de profissões apresentadas, os brasilienses também não fizeram por menos em relação à mídia: apenas 2,6% confiam nos jornalistas, contra 32,6% que confiam mais nos bombeiros; 26,1% nos professores; 20,9% nos médicos; 5,6% nos engenheiros; 5,2% nos juízes, e 4,8% nos promotores. É sabendo que um dia a casa cai que a nossa despudorada maioria parlamentar prepara uma "reforma política" baseada na idéia de que a emenda deverá ser pior do que o soneto.

É isso mesmo. Como o povo começa a sinalizar de que já não assimila a classe política nem como um mal necessário, à medida que enche a bola das Forças Armadas, nossas excelências preparam uma fieira de truques, ministrados como se fossem a salvação da lavoura.

Com a ajuda de nossa mídia de falsos brilhantes, estão receitando como santos remédios uma fidelidade partidária onde legendas cartoriais existem como sociedades privadas; uma votação em lista que fecha as portas aos candidatos que não forem da graça dos caciques e um financiamento público de campanha que, como já acontece com o fundo partidário, privilegiará as legendas com mais deputados e condenará à morte os nanicos.

Corrupção no podium
Mas o secular instituto da corrupção permanecerá no podium porque é da tradição e do interesse do sistema. Políticos venais garantem a impunidade explícita, porque se um derrapa num descuido ou numa vindita, sobrará uma meia dúzia de três ou quatro sem rabo preso para atirar a primeira pedra. Políticos venais e mandatos de aluguel são essenciais num país que pratica uma insólita transferência de renda dos cidadãos contribuintes para as burras de empreiteiras e prestadoras de serviços ao Estado, insaciáveis, mas generosas nas propinas.

Tanto que já ninguém se entende sobre a defesa do meu, do seu, do nosso dinheirinho. Ações espetaculosas que chegaram a provocar frenesis não deram em nada. Exibem-se as algemas e até o gradil, mas no final do capítulo todos voltam ao aconchego dos seus.

Isso porque o ambiente é meramente circense e daí não passa. Não me cabe aqui nem tentar esmiuçar o porquê. Mas o real é que, incriminado em prosa e verso, aqui e além-mar, Paulo Salim Maluf exibe à distinta platéia o medalhão de uma votação farta e emblemática, que fez dele o deputado mais votado do Brasil nas últimas eleições.

E para o gáudio dos impudicos, o sodalício da corrupção cada vez aumenta mais, abrindo filiais e franquias onde quer que haja um cofre público e empresários sem escrúpulos. Tal estrago ainda se dá ao luxo de permear-se da mais lânguida hipocrisia. Discursos aversos não faltam. Nem leis ou tratados. Já faz 11 anos, o Brasil assinou em Caracas a Convenção Interamericana contra a Corrupção; em 2003, na cidade de Mérida, no México, também assinou outra convenção com o mesmo fim, no âmbito da ONU, contando com a adesão de 140 países.

No entanto, esses eventos só serviram para o floreio de uma peça de retórica. O próprio governo federal calcula em R$ 40 bilhões as perdas com superfaturamentos e o Tribunal de Contas da União, onde um processo leva até 5 anos, admite que só foram recuperados R$ 5 milhões de um total de R$ 502 milhões em multas aplicadas no ano passado.

Enquanto isso, prosperam os agro-negócios dos "capos" da política e o dinheiro escondido pelos corruptos permanece nos paraísos fiscais. Empresas corruptoras se apresentam como vítimas, quando se sabe e se diz à boca pequena que elas são fontes primárias da cascata de ladroeiras. Assim está num relatório assinado pela Kroll, uma consultoria norte-americana da pesada, em parceria com a Transparência Brasil: "Uma grande parte das empresas (70%) declara que já se sentiu compelida a contribuir para campanhas eleitorais. Destas, 58% declararam ter havido menção a vantagens a serem auferidas em troca do financiamento".

Faz-se de tudo para manter o arcabouço central da corrupção, como se ela fosse o motor dos negócios, públicos e privados. E para animar a festa apresentam achados pontuais que têm efeito de bolhas de sabão. Faz-se de tudo também para fazer crer que alguma coisa se faz.

De onde chegamos à galhofa de apelar a Bin Laden, como se no Brasil tudo se resolvesse com a detonação de duas torres destacadas na imensidão de pradarias que cultivam os espinhos de uma promiscuidade fértil, que esmagam, alquebram ou isolam as raras flores do campo. Aqui e agora, o superaquecimento da corrupção torna vãs as tentativas fortuitas de alguns teimosos gatos pingados, que ainda acreditam nos contos do vigário e na sobrevivência de uma réstia de escrúpulos e de uma congelada percepção de que um dia a casa cai.

Em tempo: para ler a pesquisa da Universidade de Brasília acesse contas abertas