terça-feira, julho 10, 2007

Chantagem com gosto de sadismo

Editorial do Jornal do Brasil

Quarta-feira será um dia marcante. A se confirmar a paralisação dos funcionários dos aeroportos, o país terá chegado ao fundo do poço no que diz respeito ao calvário imposto nesses dez meses aos cidadãos que precisam ou escolhem viajar de avião, seja em rotas internas, seja para o exterior. Mobilizados, os responsáveis pela infra-estrutura dos terminais passaram os últimos dias reunindo e preparando a tropa. Rufam os tambores.

O ataque aos já combalidos passageiros é iminente. A estratégia de deflagrar um movimento com reivindicações salariais neste período de férias escolares e de Jogos Pan-Americanos passa, primeiramente, pela propagação do medo. Quem, diante do cenário que estes funcionários com estabilidade no emprego garantem poder promover, manteria o planejamento de voar?

Reféns da dúvida, muitos certamente seguirão para o embarque, amaldiçoando o dia em que decidiram aproveitar as férias longe de casa. Outros, sem poder suspender compromissos de trabalho, tentarão alternativas capazes de reduzir os prejuízos no horizonte, decorrentes da impossibilidade de honrar o que foi acertado.

É nesse ambiente turvo que se desenrolam as negociações para parar a pedra que rola montanha abaixo, ainda devagar, mas acelerando. Só por terem o poder de semear esse sentimento, os aeroportuários, tanto quanto os controladores, já posam como vitoriosos. Descobriram o calcanhar de Aquiles de um país cujas dimensões continentais tornam a aviação uma questão de sobrevivência. Uma verdade, por sinal, que o governo Lula, insiste em desconhecer, para desespero daqueles que esperam que cumpra o que é de seu ofício: governar.

Como bem citou Augusto Nunes, em Sete Dias, ontem, o presidente que patinou nas rodovias - antes de patrocinar uma eleitoreira operação tapa-buraco - agora sobrevoa a crise aérea. Para lidar com o drama interminável, soluços de autoridade. Como não gosta de decidir, Lula mandou a Infraero "resolver o problema". Por outro lado, desautorizou a estatal abrindo o canal de negociação com o ministro do Trabalho. Tal qual ocorreu com os controladores amotinados, se os grevistas não tinham a noção do medo que causam no Planalto, o tamanho da deferência os deve ter deixado encantados.

Se esse movimento efetivamente vingar, a estrutura aérea terá sido totalmente seqüestrada por interesses sindicais movidos por um corporativismo que desconhece limites. Movimentos que só possuem a musculatura que agora exibem por terem sido pacientemente anabolizados pelos sindicalistas agora transformados em síndicos do aparelho de Estado. O problema é que ser governo exige, principalmente contrariar interesses. E falta coragem a esse.

Os aeroportuários já elegeram as principais armas com as quais pretendem subjugar a nação. A maior delas deixa a todos estarrecidos pelo grau de sadismo que contêm. Desligar todos os painéis de informação nos quais se pode ver horários de vôos, portões de embarque e desembarque é uma declaração de guerra ao direito básico de ir e vir. Quem anuncia isso merece ser cobrado judicialmente por ameaça à ordem pública.

Reação mais severa ainda deve recair nos que pretendem deixar de sinalizar as pistas, de fazer a manutenção da iluminação ou de manobrar as aeronaves para o engate ou desengate em segurança. Como tais serviços têm um componente de segurança, é evidente que sua supressão conduz à paralisia do sistema.

Esse quadro deixa claro que o governo Lula entra para a História no vácuo da realização: afinal, pior que o apagão aéreo, só o de autoridade.