terça-feira, julho 10, 2007

Pergunta incômoda: Quanto custa o boi?

Vasconcelo Quadros, Jornal do Brasil

A comissão designada pelo Conselho de Ética do Senado para investigar o presidente do Congresso, Renan Calheiros, começa a listar hoje os quesitos e documentos que faltam para a conclusão do laudo pericial sobre a suposta transação de gado apresentada como origem da pensão informal paga à jornalista Mônica Veloso. Entre os itens a serem esclarecidos está uma pergunta que pode se transformar em novo incômodo para Renan Calheiros: o preço da arroba do boi informado pelo senador para justificar a entrada de R$ 1,9 milhão, entre 2004 e 2006, é compatível com o que se praticava no mercado da carne à época?

- A Polícia Federal vai responder a esse quesito. Os peritos terão toda a documentação para comparar as informações e apontar uma conclusão - disse um dos relatores, o senador Renato Casagrande (PSB-ES).

Os documentos apresentados por Renan sugerem que o gado vendido à época foi comprado pelos frigoríficos de Alagoas a um preço médio de R$ 60,00 a arroba. As dúvidas surgiram porque os valores praticados pelo mercado estariam bem abaixo e, além disso, o Estado do presidente do Congresso ainda não havia saído de faixa de risco de febre aftosa, detalhe decisivo na definição do preço da carne.

- No Mato Grosso do Sul o preço da arroba do boi caiu uma barbaridade por causa da aftosa. O anormal é subir de valor - acrescenta a senadora Marisa Serrano (PSDB-MS). Segundo ela, o relatório a ser produzido deve esclarecer os detalhes das operações de venda alegadas por Renan.

Os três senadores que integram a comissão reúnem-se no fim da tarde de hoje para traçar o roteiro dos documentos que Renan terá de entregar aos peritos para a conclusão do laudo. Já se sabe que serão pedidos as primeiras vias das notas fiscais, recibos, guias de transporte e de vacinação do gado e todos os documentos que expliquem as movimentações financeiras originárias de supostas vendas de gado durante todo o ano de 2004 e que não foram apresentadas. A suspeita, levantada pela revista Veja deste fim de semana, de que Renan possa ter se beneficiado de negócios com a Schincariol - vendendo por R$ 27 milhões uma fábrica que valeria R$ 10 milhões em Alagoas - poderá ser avaliada dentro da perícia sobre a evolução patrimonial do presidente do Senado, outro dado que será analisado pelos peritos. A empresa nega as acusações.

- A verdade é que os documentos de Imposto de Renda apresentados pelo presidente (Renan) ainda não foram analisados. Ele entregou numa manhã pensando que o Conselho votaria à noite e isso não aconteceu porque pedimos vistas - lembra Serrano. - Acredito que ele achou que não haveria uma análise nos papéis - afirma.

A senadora disse que a comissão pretende entregar aos membros do Conselho de Ética um perfil completo das atividades de Renan relacionadas à origem do dinheiro repassado à jornalista Mônica Veloso, com quem o presidente do Congresso tem uma filha fora do casamento. O relatório final terá também uma análise sobre as emendas de Renan sobre obras públicas federais executadas pela Construtora Mendes Júnior, onde trabalha o lobista Cláudio Gontijo. Era ele quem entregava, durante quase dois anos, o dinheiro da pensão à jornalista.

Para o senador Renato Casagrande, o que vai definir o futuro do presidente do Senado será mesmo o laudo da Polícia Federal. A comissão pretende entregar até quinta-feira aos peritos do Instituto Nacional de Criminalística (INC) os documentos que faltam para evitar que o recesso parlamentar, que começa no dia 18, atrapalhe o trabalho dos profissionais. O resultado será entregue dentro de 20 dias. A comissão pretende que o relatório seja votado no Conselho de Ética no início de agosto.