Fritz Utzeri, jornalista, Jornal do Brasil
"Uma ilha de tranqüilidade num mundo conturbado", lembram? Quem o disse foi um economista brilhante: Mário Henrique Simonsen. O mundo pego de surpresa pelo embargo do petróleo árabe, depois da Guerra do Yom Kippur, viu-se diante uma megacrise, sem combustível e o "gênio da garrafa", Simonsen, soltou essa bravata numa reunião ministerial no governo Geisel. Arrependeu-se. Naqueles idos o Brasil importava boa parte do petróleo que consumia. Foi aí que perdemos - e nunca mais encontramos - o embalo do crescimento. Hoje somos auto-suficientes, mas o problema atual não está no petróleo, aliás, não sei por que, quando consideramos o somatório Bush + Chávez + Iraque.
A economia tem dois setores, o real, quando você vai à padaria do seu Manoel, e o outro, o financeiro, que parece aquele jogo esquizofrênico, última coqueluche da internet, o Second Life. O que é uma bolsa de commodities senão uma casa de apostas sobre o preço de coisas que ainda nem foram plantadas, extraídas ou paridas? O que é a ciranda financeira senão um cassino onde a quantidade de dinheiro em jogo é muito maior do que o dinheiro real? É como aquele jogo de pirâmide, uma hora a casa cai.
Em meu portal na internet , minha assessora econômica favorita, Mãe Estela de Oxóssi, jogou búzios em junho do ano passado e cravou: "Num país do Norte uma bolha vai estourar" (ela prevê o andar da economia com esse "método científico" e erra muito menos que os experts na matéria). Clóvis Rossi, um dos mais importantes jornalistas brasileiros, queixou-se na Folha de ter estado em Davos, na Suíça, no Forum Econômico Mundial, o "retiro espiritual" da inteligentzia capitalista, e não ter ouvido um reles indício anunciando os atuais problemas da economia norte-americana. Prefiro Mãe Estela.
Simonsen, em seu boteco celestial, La Traviata, deve estar preocupado ao ver Guido Mantega (que intelectualmente não lhe chega aos sapatos) garantir que o Brasil tem "bala na agulha" (depois acordou e viu-se no "olho do furacão"). O Molusco jura que não seremos afetados pela crise. Voltamos à "ilha de tranqüilidade", tomara que não seja a ilha de Lost.
Quão preparados realmente estamos? Nossas contas externas (não falo das internas) estão mais acertadas, temos reservas, e vai longe o tempo em que o presidente do BC, Carlos Langoni, despachava do Banco do Brasil em Nova York para evitar que o país fosse para o brejo. Mas nos últimos anos perdemos a oportunidade de crescer, nossa infra-estrutura cai aos pedaços e a mediocridade impera.
Reservas quem tem é a China, mais de US$ 1,3 trilhão. Nossa "munição" anda pouco acima dos US$ 100 bilhões, o que adia o problema, mas não evitará que a crise nos atinja, se os bancos centrais mundiais não aplacarem a atual turbulência. Há momentos em que mercado é guiado por parâmetros que têm a ver mais com Freud e Jung que com Marx ou Adam Smith.
Dependentes das economias centrais, vemos o "risco país" subir instantaneamente, o dinheiro fugir para aplicações mais seguras e o dólar voltar aos R$ 2. Qual é o tamanho da bolha? Há quem fale em até 70% do PIB norte-americano, mas a coisa vai sendo empurrada e agravada pelo déficit que Bushinho Sorvetão elevou às alturas. Destruir o Iraque acaba custando caro à saúde financeira do império (em Roma já foi assim).
Tomara que estas inquietações confusas não se concretizem. A teoria do "quanto pior, melhor" não funciona, é sempre "quanto pior, pior". Espero que a sorte do Molusco prevaleça pela simples e boa razão de que a conta para nós é sempre mais dura e não quero morrer afogado para provar que tenho razão. Prefiro estar errado.
PS - O Molusco apedeuta (e orgulhoso de sê-lo) ataca a "elite" por ser contra o Bolsa Família, enquanto aceita bolsas de US$ 2 mil para formar doutores. Não é preciso nem comentar, é auto-explicativo da tragédia que assola este pobre Brasil.
"Uma ilha de tranqüilidade num mundo conturbado", lembram? Quem o disse foi um economista brilhante: Mário Henrique Simonsen. O mundo pego de surpresa pelo embargo do petróleo árabe, depois da Guerra do Yom Kippur, viu-se diante uma megacrise, sem combustível e o "gênio da garrafa", Simonsen, soltou essa bravata numa reunião ministerial no governo Geisel. Arrependeu-se. Naqueles idos o Brasil importava boa parte do petróleo que consumia. Foi aí que perdemos - e nunca mais encontramos - o embalo do crescimento. Hoje somos auto-suficientes, mas o problema atual não está no petróleo, aliás, não sei por que, quando consideramos o somatório Bush + Chávez + Iraque.
A economia tem dois setores, o real, quando você vai à padaria do seu Manoel, e o outro, o financeiro, que parece aquele jogo esquizofrênico, última coqueluche da internet, o Second Life. O que é uma bolsa de commodities senão uma casa de apostas sobre o preço de coisas que ainda nem foram plantadas, extraídas ou paridas? O que é a ciranda financeira senão um cassino onde a quantidade de dinheiro em jogo é muito maior do que o dinheiro real? É como aquele jogo de pirâmide, uma hora a casa cai.
Em meu portal na internet , minha assessora econômica favorita, Mãe Estela de Oxóssi, jogou búzios em junho do ano passado e cravou: "Num país do Norte uma bolha vai estourar" (ela prevê o andar da economia com esse "método científico" e erra muito menos que os experts na matéria). Clóvis Rossi, um dos mais importantes jornalistas brasileiros, queixou-se na Folha de ter estado em Davos, na Suíça, no Forum Econômico Mundial, o "retiro espiritual" da inteligentzia capitalista, e não ter ouvido um reles indício anunciando os atuais problemas da economia norte-americana. Prefiro Mãe Estela.
Simonsen, em seu boteco celestial, La Traviata, deve estar preocupado ao ver Guido Mantega (que intelectualmente não lhe chega aos sapatos) garantir que o Brasil tem "bala na agulha" (depois acordou e viu-se no "olho do furacão"). O Molusco jura que não seremos afetados pela crise. Voltamos à "ilha de tranqüilidade", tomara que não seja a ilha de Lost.
Quão preparados realmente estamos? Nossas contas externas (não falo das internas) estão mais acertadas, temos reservas, e vai longe o tempo em que o presidente do BC, Carlos Langoni, despachava do Banco do Brasil em Nova York para evitar que o país fosse para o brejo. Mas nos últimos anos perdemos a oportunidade de crescer, nossa infra-estrutura cai aos pedaços e a mediocridade impera.
Reservas quem tem é a China, mais de US$ 1,3 trilhão. Nossa "munição" anda pouco acima dos US$ 100 bilhões, o que adia o problema, mas não evitará que a crise nos atinja, se os bancos centrais mundiais não aplacarem a atual turbulência. Há momentos em que mercado é guiado por parâmetros que têm a ver mais com Freud e Jung que com Marx ou Adam Smith.
Dependentes das economias centrais, vemos o "risco país" subir instantaneamente, o dinheiro fugir para aplicações mais seguras e o dólar voltar aos R$ 2. Qual é o tamanho da bolha? Há quem fale em até 70% do PIB norte-americano, mas a coisa vai sendo empurrada e agravada pelo déficit que Bushinho Sorvetão elevou às alturas. Destruir o Iraque acaba custando caro à saúde financeira do império (em Roma já foi assim).
Tomara que estas inquietações confusas não se concretizem. A teoria do "quanto pior, melhor" não funciona, é sempre "quanto pior, pior". Espero que a sorte do Molusco prevaleça pela simples e boa razão de que a conta para nós é sempre mais dura e não quero morrer afogado para provar que tenho razão. Prefiro estar errado.
PS - O Molusco apedeuta (e orgulhoso de sê-lo) ataca a "elite" por ser contra o Bolsa Família, enquanto aceita bolsas de US$ 2 mil para formar doutores. Não é preciso nem comentar, é auto-explicativo da tragédia que assola este pobre Brasil.