sexta-feira, setembro 28, 2007

Cada coisa em seu lugar

Reinaldo Azevedo
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O negócio é o seguinte: há um grupo de profissionais que não consegue mais fazer jornalismo. Aí não tem jeito: a saída, se não querem pagar o mico que pagam os anões, caindo no ridículo, é ir para o governo. E nem estou sugerindo, como costumam fazer os petralhas em relação aos adversários, que tenham qualquer relação escusa com o poder, que passe por dinheiro ou coisa semelhante. O alinhamento é de outra natureza, talvez até mais grave: sentem-se parte de um projeto. Até aí, tudo bem. Mas por que tanta fúria quando se acusava a proximidade?

O que há de comum nesses jornalistas que mudaram de profissão? Se recuperarmos os seus textos e comentários, veremos que é gente que, depressa, aderiu, como dizer?, ao realismo. Suas análises sempre primaram por um norte moral que poderia ser resumido com estas palavras: "política é assim mesmo". As incoerências de Lula e do PT nunca tiveram maior importância para eles porque, no fim das contas, mentir seria parte do jogo. E os que rejeitam essa perspectiva estariam movidos por um sentimento "principista" e missionário.

Assim, para eles, a maior virtude de Lula está na sua impressionante capacidade de se adaptar às situações — ou, como diria Marilena Chaui, na destreza do "presidente operário" em recorrer aos métodos tradicionalmente empregados pelas "classes dominantes".

Por mais despretensioso e objetivo que o jornalismo seja, ele tem alguns princípios. E um deles é confrontar os atos com a palavra empenhada. Maquiavel já tratou do assunto e lembrou que o príncipe não tinha de se ater a este particular porque, de natural, os outros homens fazem a mesma coisa. Maquiavel é professor de realismo político, como sabemos. Mas seu "príncipe" nunca foi modelo de líder democrático.

De todo modo, vejo essa formalização do adesismo com bons olhos. Cada coisa em seu lugar.

Tereza Cruvinel como matéria da deontologia
Na Folha de hoje, há uma informação interessante sobre Tereza Cruvinel: "Desde o primeiro mandato, quando a idéia de TV pública já era discutida no Planalto, Cruvinel era cotada para comandar esse projeto".

Muito bom saber. Sinal de que suas análises isentas e independentes já atraíam a atenção do Planalto, não é mesmo? Agora na TV Lula, ela poderá ser uma referência e um norte ético para as novas gerações, uma verdadeira Rui Barbosa da imprensa.

Àqueles que estão chegando à profissão, fica uma lição: caso imitem Cruvinel nos princípios e na contundência, ser-lhes-á concedida a graça de servir ao interesse público. É um desses momentos que só podem encher de alegria o peito de um patriota.

Os textos e comentários de Cruvinel, então, desse período poderiam ser matéria de um curso de pós-graduação nas faculdades de jornalismo, especialmente na disciplina pomposamente intitulada "deontologia".