sexta-feira, setembro 28, 2007

Rolando Lero

Jornal do Brasil

As referencias de Lula, na Assembléia Geral da ONU, a uma suposta nova política brasileira em relação ao Clima e a grandes progressos na Amazônia receberam por parte da grande mídia tratamento condescendente. Nosso velho jargão cunhou expressões apropriadas para defini-las: "papo furado" e "coisa pra inglês ver". Em português mais escorreito: empulhação. As metas não obrigatórias, vagas e confusas e o anuncio ufanista de drástica redução das queimadas --que atualmente estão em alta-- foge totalmente dos dois pontos chaves que, de fato, representariam uma mudança: aceitar o princípio de metas de redução de emissões, internacionalmente assumidas, obrigatórias e submetidas a um sistema de verificação isento e rever a estúpida posição do Itamarati contrária a que conservação de florestas possa gerar créditos de carbono.

A cada relatório de cientistas sobre o Clima a preocupação aumenta. Recentemente li um a respeito do derretimento de geleiras no Himalaia e nos Andes. No primeiro caso, em menos de 30 anos, dois bilhões de pessoas serão afetadas pelo depauperamento dramático das fontes de água gerando uma crise brutal que envolverá três paises atualmente detentores de armas nucleares: a Índia, o Paquistão e a China. No caso dos Andes, a hidrologia da Amazônia será afetada sem falar do abastecimento de água das populações das regiões da cordilheira. Enfrentamos uma emergência planetária. Todos os paises, sem exceção, precisam reduzir emissões. É justo que a parte do leão do financiamento dos projetos e das grandes mutações tecnológicas necessárias caiba aos paises industrializados do norte, historicamente os maiores responsáveis, mas o esforço, para cortar os gases de efeito estufa, daqui para frente, deve caber a todos. O papel atual dos chamados paises emergentes é muito significativo --a China já é o principal país emissor e o Brasil tem contribuição significativa.

Se o governo realmente levasse a sério seu próprio alarde de diminuição de 75% do desmatamento na Amazônia, nos últimos três anos, seria incompreensível sua recusa em estabelecer metas. Elas já estariam previamente cumpridas, considerando-se que 70% das emissões brasileiras de CO2 provêm das queimadas florestais. Só que o governo não ignora que a propalada redução deu-se com base ao altíssimo patamar de 2003, a uma retração econômica, momentânea, do agrobuisness e a um regime de chuva excepcional. Este ano voltamos à normalidade e ela é assustadora: as queimadas subiram 30% em relação a agosto do ano passado. De fato, não existiu até agora um reforço realmente significativo da fiscalização/repressão nas áreas criticas, nem criação dos mecanismos econômicos de subsídio à conservação da floresta nas áreas mais ameaçadas, junto da fronteira agrícola. O tiro no pé de se opor a que projetos de conservação da floresta possam gerar créditos de carbono suprime uma das fontes potenciais para esse financiamento. Last but not least: o Sivam, fundamental para monitorar a região, está a mingua.