O presidente Lula não resiste a comparações com ex-presidentes. Sem um mergulho profundo na História política brasileira, já se espelhou em Juscelino Kubtischek e no general Ernesto Geisel. Na quinta-feira, equiparou-se a Getúlio Vargas. Durante a segunda reunião ministerial do segundo mandato estabeleceu os parâmetros do governo até 2010 e finalizou com o epíteto de como pretende ser definido na galeria dos presidentes brasileiros. "O legado de nosso governo é a consolidação das políticas sociais", anunciou. Nada econômico nos auto-elogios, afirmou que suas realizações na área "só terão comparação com as de Getúlio Vargas". Escorregou no desconhecimento.
Na relação dos feitos com os quais imagina gravar seu nome nos livros históricos, o presidente inclui a ampliação do Bolsa Família, a criação de um novo programa, o Territórios da Cidadania, e no lançamento de quatro eixos do que batizou de agenda social. O primeiro prevê a extensão da ajuda financeira assistencialista a jovens entre 15 e 17 anos de idade. O segundo quer dotar de água, luz, escola e saúde 1.848 municípios em que tais serviços básicos são precários, quando existem. O terceiro visa reduzir as desigualdades, ampliar o acesso à cultura, espalhar os direitos à cidadania e da juventude com programas de emancipação das famílias - com geração de renda, capacitação profissional, cooperativismo.
Nada a condenar nas iniciativas. Mas em nenhum caso se presta ao confronto com o legado de Getúlio Vargas, nem como revolucionário e ditador (1930-1945), nem o presidente eleito democraticamente em 1950. No primeiro período, divido entre os discursos populista e nacionalista, criou a Justiça Trabalhista, o salário mínimo e a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Com ele nasceram a carteira do trabalho, as férias remuneradas e a semana de 48 horas.
Abriu o parque industrial brasileiro para as siderúrgicas, com a inauguração da de Volta Redonda em 1944, em meio à negociação para se incorporar aos aliados na guerra contra o nazismo e o fascismo. Deixou a herança trabalhista e industrial, nada no social.
No retorno pela via das urnas, levantou a Petrobras, a Eletrobrás e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE, hoje BNDES, a última letra referente a social). Seu projeto não previa o monopólio da estatal do petróleo, mas acabou modificado por obra e graça do udenista e opositor Bilac Pinto, até ser derrubado no primeiro governo Fernando Henrique Cardoso. Não deixou herança social registrada. Apenas uma carta-testamento que o transformou em herói popular de um dia para outro.
A comparação de Lula a Getúlio só se justifica na retórica. O ditador que virou presidente e se suicidou gostava de se definir como "pai dos pobres". Os adversários da UDN faziam sempre questão de acrescentar ao adágio: "E mãe dos ricos".
O atual presidente não perde palanque ou microfone para se auto-eleger também "protetor dos pobres". Os adversários poupam-se o acréscimo inventando pelos udenistas. Mas os números da economia registram que o Bolsa Família permitiu aos mais pobres o acesso a bens e a consumo que antes não tinham. O Brasil ficou menos miserável, gosta Lula de se ufanar. Mas os ricos ficaram mais ricos, apontam as mesmas estatísticas.
Antes de recorrer ao passado para se promover ao futuro, Lula deveria fazer o que menos gosta: ler.
Na relação dos feitos com os quais imagina gravar seu nome nos livros históricos, o presidente inclui a ampliação do Bolsa Família, a criação de um novo programa, o Territórios da Cidadania, e no lançamento de quatro eixos do que batizou de agenda social. O primeiro prevê a extensão da ajuda financeira assistencialista a jovens entre 15 e 17 anos de idade. O segundo quer dotar de água, luz, escola e saúde 1.848 municípios em que tais serviços básicos são precários, quando existem. O terceiro visa reduzir as desigualdades, ampliar o acesso à cultura, espalhar os direitos à cidadania e da juventude com programas de emancipação das famílias - com geração de renda, capacitação profissional, cooperativismo.
Nada a condenar nas iniciativas. Mas em nenhum caso se presta ao confronto com o legado de Getúlio Vargas, nem como revolucionário e ditador (1930-1945), nem o presidente eleito democraticamente em 1950. No primeiro período, divido entre os discursos populista e nacionalista, criou a Justiça Trabalhista, o salário mínimo e a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Com ele nasceram a carteira do trabalho, as férias remuneradas e a semana de 48 horas.
Abriu o parque industrial brasileiro para as siderúrgicas, com a inauguração da de Volta Redonda em 1944, em meio à negociação para se incorporar aos aliados na guerra contra o nazismo e o fascismo. Deixou a herança trabalhista e industrial, nada no social.
No retorno pela via das urnas, levantou a Petrobras, a Eletrobrás e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE, hoje BNDES, a última letra referente a social). Seu projeto não previa o monopólio da estatal do petróleo, mas acabou modificado por obra e graça do udenista e opositor Bilac Pinto, até ser derrubado no primeiro governo Fernando Henrique Cardoso. Não deixou herança social registrada. Apenas uma carta-testamento que o transformou em herói popular de um dia para outro.
A comparação de Lula a Getúlio só se justifica na retórica. O ditador que virou presidente e se suicidou gostava de se definir como "pai dos pobres". Os adversários da UDN faziam sempre questão de acrescentar ao adágio: "E mãe dos ricos".
O atual presidente não perde palanque ou microfone para se auto-eleger também "protetor dos pobres". Os adversários poupam-se o acréscimo inventando pelos udenistas. Mas os números da economia registram que o Bolsa Família permitiu aos mais pobres o acesso a bens e a consumo que antes não tinham. O Brasil ficou menos miserável, gosta Lula de se ufanar. Mas os ricos ficaram mais ricos, apontam as mesmas estatísticas.
Antes de recorrer ao passado para se promover ao futuro, Lula deveria fazer o que menos gosta: ler.