quinta-feira, setembro 27, 2007

O Brasil arde e a retórica destrói

Editorial do Jornal do Brasil

Sob os holofotes da Organização das Nações Unidas, o presidente Lula cumpriu o script protocolar. Culpou os países desenvolvidos pela falta de flexibilidade na arena comercial e pelo aquecimento do globo. Nada acrescentou ao jogo retórico no qual empacam avanços ambientais e comerciais. Em seguida, o presidente americano reforçou o teatro. Prometeu ceder, desde que "cada país faça o seu papel". Eis um ponto complicado e complicador. Negociações para a redução de gases poluentes e de mecanismos protecionistas esbarram no vício de jogar a responsabilidade no colo do vizinho.

Útil às batalhas diplomáticas, o instrumento de barganha torna-se um tiro no pé quando despreza a própria competência. Quando negligencia o dever de casa. Até para se impor em fóruns internacionais, o governo tem de cumprir os compromissos internos.

A disseminação de focos de incêndio país afora - 945 só no último domingo - expõe o recuo do Planalto no combate de queimadas. Dos R$ 47,1 milhões previstos no Orçamento da União para preveni-las, apenas 52% - R$ 24, 5 milhões - foram utilizados. O descaso provocou aumento de 30% da quantidade de incêndios em matas. Em agosto, somaram 21.459. Castigam, principalmente, o semi-árido nordestino e a região Centro-Oeste. No Rio, 400 focos exigiram a intervenção dos bombeiros.

Flagrada pelo satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, a multiplicação de queimadas impulsionou o Brasil no ranking dos países mais poluidores. Ocupa hoje o quarto lugar. Mesmo com produção industrial inferior à do primeiro mundo, aproxima-se do nível de emissão de poluentes registrado em países desenvolvidos - cujas fábricas despejam substratos causadores do efeito estufa.

O fogo - criminoso ou acidental - em florestas, beiras de estrada e áreas rurais abandonadas já responde por 75% do preocupante volume de gás carbônico lançado na atmosfera. Cifra incompatível com a propaganda ecológica do governo; com a carga tributária, correspondente a 32,4% do Produto Interno Bruto; e com o empenho da ministra Marina Silva em superar as pressões políticas.

Além dos prejuízos imediatos - ecológicos e econômicos - os incêndios ameaçam as ambições comerciais brasileiras no exterior. Podem levar a sanções dos países ricos a duas campanhas estratégias na pauta de negociações externas: o biodiesel e o álcool combustível. Uma fatura expressiva da poluição provocada, em grande parte, pela queima intencional de áreas plantadas: técnica rudimentar ainda adotada por agricultores nacionais, inclusive no cultivo da cana-de-açúcar, matéria-prima do badalado biocombustível.

O controle dos incêndios exige, em princípio, o alinhamento das prioridades políticas com o discurso ecológico oficial. Só assim a verba prometida será efetivamente aplicada na prevenção das queimadas, e não em outras demandas do poder público - como o superávit primário, dinheiro destinado ao pagamento de juros da dívida. Remanejamentos contábeis secam a fonte de recursos para conter a escalada de matas pegando fogo.

Outro desafio igualmente importante é a superação da burocracia. A demora na autorização do uso emergencial de recursos das Forças Armadas em incêndios no Rio amplia o compasso de destruição.