Pedro do Coutto, Tribuna da Imprensa
A mais recente pesquisa do IBGE sobre nível de emprego e renda do trabalho no País, publicada nos jornais de sexta-feira, confirma a primeira impressão do economista Márcio Pochman, presidente do Ipea, a respeito do Produto Interno Bruto, objeto aliás de divulgação poucos dias antes. Para ele, havia ocorrido equívoco em torno da participação dos salários no PIB.
A contabilização original havia considerado rendimentos financeiros entre a massa que decorre do emprego. Os rendimentos financeiros das aplicações de capital podem ter subido 5,4 por cento no segundo trimestre deste ano em relação a igual período de 2006. Afinal, os juros brasileiros são muito altos, principalmente os cobrados pelos bancos e pelo comércio nos créditos que liberam. Atingem algo em torno de 47 por cento. Ao ano.
A inflação, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, é de 3,7 por cento nos últimos doze meses. A diferença é enorme. única no mundo, acredito. Não se pode considerar como massa salarial reflexos de investimentos de capital. O que o dirigente do Ipea colocou agora tornou-se mais nítido.
O IBGE aponta um crescimento da renda (do trabalho) na escala de 1,2 por cento de agosto de 2006 a agosto de 2007. Tudo bem. Mas o fato é que nesse período a população cresceu 1,3 por cento, seguindo a taxa demográfica que não tem variado. Além disso, a força de trabalho avançou, segundo o IBGE, à fração de 1,1 por cento. O empate está caracterizado aí. O rendimento do trabalho acompanhou o aumento do número de habitantes. A renda per capita não podia ter se alterado, claro.
A mão-de-obra economicamente ativa brasileira é formada por 95 milhões de pessoas, 58 por cento homens, 42 por cento mulheres. Logo, a evolução de 1,1 por cento no nível de emprego significa apenas pouco mais de 95 postos de trabalho. Isso no espaço de doze meses. Muito pouco para o Brasil, que precisa criar um milhão de empregos novos a cada ano. O desemprego, sempre de acordo com o resultado da última pesquisa, teria recuado de 10,6 para 9,5 por cento, de agosto a agosto.
Não resolve. Porque representa a existência no País de algo em torno de 9 milhões de desempregados. E os jovens que precisam ingressar no mercado de trabalho? Como a oferta de mão-de-obra é maior do que a demanda, em conseqüência os salários baixam. Tanto assim que a massa salarial verificada em agosto foi 0,5 por cento menor do que a registrada em julho. Em trinta dias, portanto, os salários médios desceram. Péssimo resultado.
Todos esses dados concretos revelam a necessidade urgente de o governo Lula rever a política econômica combinando-a com uma política de emprego. O emprego é essencial, é a base de tudo. Os salários também. Eles têm, pelo menos, que acompanhar as taxas inflacionárias. Caso contrário, estarão sendo reduzidos de fato. Os aumentos nominais não são capazes de mudar a realidade dos números. Pois existem os preços, existem os salários, existe inflação. A política social, para ser positiva e efetiva, tem que levar em conta os três vértices da questão. Se a defasagem que submerge os salários prosseguir, como reflexo a favelização dos centros urbanos vai continuar crescendo.
Não há como evitar o fenômeno, aliás dos mais sensíveis em cidades como o Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília. Junto com a favelização, projeta-se a violência urbana. Todos sabem disso. Mas falar sobre o assunto não resolve. É preciso agir nas causas para impedir os efeitos. Colocar teses no papel é fácil. Fazer é que é difícil. É por isso, como digo sempre, que não basta ver os números aparentes: é preciso ver nos números, analisá-los através deles mesmos. Paralelamente à pesquisa do IBGE, surgiu uma pesquisa do Ibope feita para a Confederação Nacional da Indústria a respeito da popularidade do presidente Lula. Segue em alta.
Afinal de contas, 48 por cento consideram sua atuação ótima e muito boa. Trinta e dois por cento a julgam regular, que é um modo de abstenção em levantamentos de conceito público. Apenas 18 por cento julgam o desempenho do presidente da República entre ruim e péssimo. Dois por cento não souberam responder. Dividindo-se o maior pelo menor, afirmações de ponta, encontramos um coeficiente bastante positivo. Mas quanto à imagem pessoal do presidente. O conceito relativo ao governo não foi objeto ou do levantamento ou da divulgação. Mas não tem importância. Pesquisas anteriores já revelaram o diferencial, bem sensível entre o presidente e sua administração.
De qualquer forma, Luís Inácio da Silva mantém-se firme em matéria de Ibope, como se costuma dizer. Em 2005, não foi abalado pelo mensalão, em 2006 não foi atingido pelas ambulâncias, agora em 2007 não foi alcançado pelo episódio Renan Calheiros, embora a maioria do PT tenha votado pela rejeição das denúncias. Mas é que, no fundo, a figura pública de Lula é maior do que a imagem de seu governo e sobretudo do que a imagem do Partido dos Trabalhadores. Há uma simpatia em torno dele, uma blindagem que o separa de problemas e de fatos negativo a seu redor. Mantém a popularidade.
Sua mensagem de reforma, ainda não exercida, permanece como uma esperança para os grupos de menor renda. E o seu não rompimento com o que se chama de establishment, sinônimo de conservadorismo, assegura nível bem razoável de relativa aceitação nas classes médias e nos pequenos grupos de renda mais alta.
Há um empate. Bom para ele. Ruim para a redistribuição de renda no País. Não podemos empatar. Só a vitória nos interessa.
A mais recente pesquisa do IBGE sobre nível de emprego e renda do trabalho no País, publicada nos jornais de sexta-feira, confirma a primeira impressão do economista Márcio Pochman, presidente do Ipea, a respeito do Produto Interno Bruto, objeto aliás de divulgação poucos dias antes. Para ele, havia ocorrido equívoco em torno da participação dos salários no PIB.
A contabilização original havia considerado rendimentos financeiros entre a massa que decorre do emprego. Os rendimentos financeiros das aplicações de capital podem ter subido 5,4 por cento no segundo trimestre deste ano em relação a igual período de 2006. Afinal, os juros brasileiros são muito altos, principalmente os cobrados pelos bancos e pelo comércio nos créditos que liberam. Atingem algo em torno de 47 por cento. Ao ano.
A inflação, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, é de 3,7 por cento nos últimos doze meses. A diferença é enorme. única no mundo, acredito. Não se pode considerar como massa salarial reflexos de investimentos de capital. O que o dirigente do Ipea colocou agora tornou-se mais nítido.
O IBGE aponta um crescimento da renda (do trabalho) na escala de 1,2 por cento de agosto de 2006 a agosto de 2007. Tudo bem. Mas o fato é que nesse período a população cresceu 1,3 por cento, seguindo a taxa demográfica que não tem variado. Além disso, a força de trabalho avançou, segundo o IBGE, à fração de 1,1 por cento. O empate está caracterizado aí. O rendimento do trabalho acompanhou o aumento do número de habitantes. A renda per capita não podia ter se alterado, claro.
A mão-de-obra economicamente ativa brasileira é formada por 95 milhões de pessoas, 58 por cento homens, 42 por cento mulheres. Logo, a evolução de 1,1 por cento no nível de emprego significa apenas pouco mais de 95 postos de trabalho. Isso no espaço de doze meses. Muito pouco para o Brasil, que precisa criar um milhão de empregos novos a cada ano. O desemprego, sempre de acordo com o resultado da última pesquisa, teria recuado de 10,6 para 9,5 por cento, de agosto a agosto.
Não resolve. Porque representa a existência no País de algo em torno de 9 milhões de desempregados. E os jovens que precisam ingressar no mercado de trabalho? Como a oferta de mão-de-obra é maior do que a demanda, em conseqüência os salários baixam. Tanto assim que a massa salarial verificada em agosto foi 0,5 por cento menor do que a registrada em julho. Em trinta dias, portanto, os salários médios desceram. Péssimo resultado.
Todos esses dados concretos revelam a necessidade urgente de o governo Lula rever a política econômica combinando-a com uma política de emprego. O emprego é essencial, é a base de tudo. Os salários também. Eles têm, pelo menos, que acompanhar as taxas inflacionárias. Caso contrário, estarão sendo reduzidos de fato. Os aumentos nominais não são capazes de mudar a realidade dos números. Pois existem os preços, existem os salários, existe inflação. A política social, para ser positiva e efetiva, tem que levar em conta os três vértices da questão. Se a defasagem que submerge os salários prosseguir, como reflexo a favelização dos centros urbanos vai continuar crescendo.
Não há como evitar o fenômeno, aliás dos mais sensíveis em cidades como o Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília. Junto com a favelização, projeta-se a violência urbana. Todos sabem disso. Mas falar sobre o assunto não resolve. É preciso agir nas causas para impedir os efeitos. Colocar teses no papel é fácil. Fazer é que é difícil. É por isso, como digo sempre, que não basta ver os números aparentes: é preciso ver nos números, analisá-los através deles mesmos. Paralelamente à pesquisa do IBGE, surgiu uma pesquisa do Ibope feita para a Confederação Nacional da Indústria a respeito da popularidade do presidente Lula. Segue em alta.
Afinal de contas, 48 por cento consideram sua atuação ótima e muito boa. Trinta e dois por cento a julgam regular, que é um modo de abstenção em levantamentos de conceito público. Apenas 18 por cento julgam o desempenho do presidente da República entre ruim e péssimo. Dois por cento não souberam responder. Dividindo-se o maior pelo menor, afirmações de ponta, encontramos um coeficiente bastante positivo. Mas quanto à imagem pessoal do presidente. O conceito relativo ao governo não foi objeto ou do levantamento ou da divulgação. Mas não tem importância. Pesquisas anteriores já revelaram o diferencial, bem sensível entre o presidente e sua administração.
De qualquer forma, Luís Inácio da Silva mantém-se firme em matéria de Ibope, como se costuma dizer. Em 2005, não foi abalado pelo mensalão, em 2006 não foi atingido pelas ambulâncias, agora em 2007 não foi alcançado pelo episódio Renan Calheiros, embora a maioria do PT tenha votado pela rejeição das denúncias. Mas é que, no fundo, a figura pública de Lula é maior do que a imagem de seu governo e sobretudo do que a imagem do Partido dos Trabalhadores. Há uma simpatia em torno dele, uma blindagem que o separa de problemas e de fatos negativo a seu redor. Mantém a popularidade.
Sua mensagem de reforma, ainda não exercida, permanece como uma esperança para os grupos de menor renda. E o seu não rompimento com o que se chama de establishment, sinônimo de conservadorismo, assegura nível bem razoável de relativa aceitação nas classes médias e nos pequenos grupos de renda mais alta.
Há um empate. Bom para ele. Ruim para a redistribuição de renda no País. Não podemos empatar. Só a vitória nos interessa.