Villas-Bôas Corrêa, repórter político do JB
As fotos de ministros, autoridades, jornalistas embolados no chão do trem para escapar dos tiros disparados por gangues que dominam a favela do Jacarezinho, Zona Norte do Rio, provocaram vários tipos de reação, especialmente da população sofrida que convive com a bandidagem que manda na mancha crescente do território da ex-capital abandonada ao calvário do seu destino.
Menos a surpresa diante do inesperado. Para os favelados foi apenas um incidente a mais na rotina de cada dia. E, no caso, nem a singularidade de ministros misturados com jornalistas e convidados, na ida e volta do ato oficial de inauguração da obra de revitalização do acesso ferroviário ao Porto do Rio, acrescentou o imprevisto às autoridades, habituadas aos confortos e segurança dos privilegiados. Pois os ministros Márcio Fortes, das Cidades, e Pedro Brito, da Secretaria Especial dos Portos, foram advertidos pelos policiais dos riscos de uma viagem de trem pelos subúrbios do Rio.
Cauto, o governador Sérgio Cabral participou da inauguração no Caju, mas dispensou a gentileza do vagão especial para o retorno antecipado pelos atalhos da segurança.
O episódio que se repete todos os dias em diferentes áreas pobres da cidade - e que só quando os registros policiais confirmam mortos e feridos merece algumas linhas na mídia, no contraste do que se antecipa, com manchetes e ampla cobertura nas redes de TV, para o espetáculo anunciado para esta tarde, com as galas de um final de novela do julgamento do presidente-galã, senador Renan Calheiros, e seu envolvimento sentimental de vários anos com a ex-jornalista Mônica Veloso, com quem tem uma filha de 4 anos.
Já estamos vacinados e fartos de promessas e anúncio de providências enérgicas a cada repeteco das tragédias cíclicas do cotidiano da antiga Cidade Maravilhosa, dos tempos em que sambas e marchas popularizavam Copacabana como a princesinha do mar.
Décadas de abandono, de abúlico desinteresse de sucessivos desgovernos, que pegaram onda na ressaca do populismo e suas imitações, que assistiram como espectadores de camarote a favelização de morros e alagados sem nenhum programa sério de urbanização. A bagunça é nacional. Chegou a Brasília, a jovem capital inaugurada antes de ficar pronta, em 21 de abril de 1960, planejada para uma população de 600 mil a um milhão de habitantes, hoje perto dos dois milhões e rodeada de favelas.
O espaço de uma vida, ainda que longa, é um cisco na história de um país ou de uma cidade. Com os quase 60 anos de militância na reportagem política, presto o meu depoimento. Quando do lançamento de O Dia, um jornal popular, procurei ajustar ao interesse dos seus leitores os temas da rotina da cobertura política. E, com o lastro de experiências anteriores, criei os Comandos Parlamentares, em um modelo simples: com dois ou três deputados e senadores, visitávamos de surpresa serviços públicos e áreas críticas da cidade. Entre as quais, favelas, várias delas, as maiores. E com parlamentares e o fotógrafo subimos morros por ruelas e becos até as grimpas. Sem pedir licença a ninguém. Em geral, seguidos por populares e líderes comunitários. Jamais passamos por qualquer risco. Guardo em meu baú a foto do saudoso deputado Heitor Beltrão (que é nome de rua na Tijuca), com a solenidade do paletó e gravata dos seus muitos janeiros, comendo caranguejos catados com os dedos cesto, na roda de favelados que o convidaram.
Esta era a favela do jogo de bicho do contraventor, que não era bandido nem traficante e que a demagogia, a roubalheira, a incompetência de sucessivos governos não souberam ou não quiseram preservar e melhorar.
Com as exceções que se contam pelos dedos de uma das mãos. E sobra o polegar.
As fotos de ministros, autoridades, jornalistas embolados no chão do trem para escapar dos tiros disparados por gangues que dominam a favela do Jacarezinho, Zona Norte do Rio, provocaram vários tipos de reação, especialmente da população sofrida que convive com a bandidagem que manda na mancha crescente do território da ex-capital abandonada ao calvário do seu destino.
Menos a surpresa diante do inesperado. Para os favelados foi apenas um incidente a mais na rotina de cada dia. E, no caso, nem a singularidade de ministros misturados com jornalistas e convidados, na ida e volta do ato oficial de inauguração da obra de revitalização do acesso ferroviário ao Porto do Rio, acrescentou o imprevisto às autoridades, habituadas aos confortos e segurança dos privilegiados. Pois os ministros Márcio Fortes, das Cidades, e Pedro Brito, da Secretaria Especial dos Portos, foram advertidos pelos policiais dos riscos de uma viagem de trem pelos subúrbios do Rio.
Cauto, o governador Sérgio Cabral participou da inauguração no Caju, mas dispensou a gentileza do vagão especial para o retorno antecipado pelos atalhos da segurança.
O episódio que se repete todos os dias em diferentes áreas pobres da cidade - e que só quando os registros policiais confirmam mortos e feridos merece algumas linhas na mídia, no contraste do que se antecipa, com manchetes e ampla cobertura nas redes de TV, para o espetáculo anunciado para esta tarde, com as galas de um final de novela do julgamento do presidente-galã, senador Renan Calheiros, e seu envolvimento sentimental de vários anos com a ex-jornalista Mônica Veloso, com quem tem uma filha de 4 anos.
Já estamos vacinados e fartos de promessas e anúncio de providências enérgicas a cada repeteco das tragédias cíclicas do cotidiano da antiga Cidade Maravilhosa, dos tempos em que sambas e marchas popularizavam Copacabana como a princesinha do mar.
Décadas de abandono, de abúlico desinteresse de sucessivos desgovernos, que pegaram onda na ressaca do populismo e suas imitações, que assistiram como espectadores de camarote a favelização de morros e alagados sem nenhum programa sério de urbanização. A bagunça é nacional. Chegou a Brasília, a jovem capital inaugurada antes de ficar pronta, em 21 de abril de 1960, planejada para uma população de 600 mil a um milhão de habitantes, hoje perto dos dois milhões e rodeada de favelas.
O espaço de uma vida, ainda que longa, é um cisco na história de um país ou de uma cidade. Com os quase 60 anos de militância na reportagem política, presto o meu depoimento. Quando do lançamento de O Dia, um jornal popular, procurei ajustar ao interesse dos seus leitores os temas da rotina da cobertura política. E, com o lastro de experiências anteriores, criei os Comandos Parlamentares, em um modelo simples: com dois ou três deputados e senadores, visitávamos de surpresa serviços públicos e áreas críticas da cidade. Entre as quais, favelas, várias delas, as maiores. E com parlamentares e o fotógrafo subimos morros por ruelas e becos até as grimpas. Sem pedir licença a ninguém. Em geral, seguidos por populares e líderes comunitários. Jamais passamos por qualquer risco. Guardo em meu baú a foto do saudoso deputado Heitor Beltrão (que é nome de rua na Tijuca), com a solenidade do paletó e gravata dos seus muitos janeiros, comendo caranguejos catados com os dedos cesto, na roda de favelados que o convidaram.
Esta era a favela do jogo de bicho do contraventor, que não era bandido nem traficante e que a demagogia, a roubalheira, a incompetência de sucessivos governos não souberam ou não quiseram preservar e melhorar.
Com as exceções que se contam pelos dedos de uma das mãos. E sobra o polegar.