
O Natal do brasileiro será mais salgado. A razão é que as indústrias de aves e suínos pretendem reajustar os preços dos produtos das festas de fim de ano em mais de 10%. A justificativa é o aumento do custo de produção e a crescente demanda - tanto do mercado externo quanto do interno. Em contrapartida, a desvalorização do dólar pode reduzir os efeitos da ceia mais cara, já que deve motivar o consumidor a substituir as carnes pelo bacalhau - além de animá-lo a incrementar a refeição com frutas importadas típicas dessas festas.
- Será o Natal dos importados. Se a indústria aumentar os preços acima do crescimento da massa salarial, o consumidor vai trocar de produto - prevê o economista Fábio Silveira, da RC Consultores.
De acordo com o especialista, os preços dos insumos mais elevados já provocaram reajustes no frango de até 40%, o que pode refletir-se em outras aves.
- Quem pagar o melhor prêmio leva - justifica o diretor de vendas Brasil da Sadia, Sérgio Fonseca.
Segundo o executivo, no caso dos suínos, em que surgiu uma demanda inesperada devido à doença do rebanho chinês, não há tempo hábil para rever a produção para atender ao consumo das festas. Por isso, parte da produção poderá ser desviada para o mercado externo e, em conseqüência, o brasileiro terá de pagar mais.
Fonseca acrescenta que as duas carnes típicas das festas - suína e de aves - tiveram aumento no custo ("ainda não totalmente repassado"), devido aos insumos mais elevados. Só o preço do milho subiu mais de 50% no ano.
Diante deste cenário, as duas maiores empresas do setor - Sadia e Perdigão - prevêem valores mais altos para as carnes no final do ano, com reajustes superiores a dois dígitos.
- Estamos avaliando as correções até final do mês. Vamos considerar inflação, demanda e custo de produção - diz o diretor Relações Institucionais da Perdigão, Ricardo Menezes.
As empresas prepararam-se para este final de ano, com aumento da produção e lançamento de novos produtos.
O alojamento dos animais foi praticamente semelhante à expectativa de aumento nas vendas. Na Sadia, a produção será até 15% maior, e na Perdigão, 10% superior.
Entre as mais otimistas está a Pif Paf, que projeta faturamento 25% maior. A Sadia espera aumento entre 10% e 15% - as festas respondem por cerca de 15% da receita da empresa no último trimestre. Na Perdigão, a expectativa é de que o crescimento seja superior ao do ano passado - que foi de 6%.
- O aumento da renda e do emprego vai elevar as vendas - diz Menezes.
É justamente o poder aquisitivo maior do brasileiro que faz a Sadia apostar este ano mais no peru que no fiesta (ave que substitui o peru). Fonseca diz que, tradicionalmente, o foco na promoção de vendas é maior no fiesta, mas este ano as ações serão equivalentes.
- O peru é a ave símbolo do Natal e o brasileiro agora tem mais recursos - diz.
De olho no mercado institucional, a empresa lançou kits com bolsas térmicas assinadas pela estilista Cris Barros.
- Ficou com característica de presente de valor - acrescenta Fonseca.
Na Pif Paf, pela primeira vez foram feitos kits de final de ano - que incluem bolsas térmicas de 13 litros. Como estratégia comercial e de marketing, a empresa também adequou suas embalagens com o tema natalino. A meta é vender 1.200 toneladas de produtos preparados especialmente para a ocasião.
A Perdigão aposta na reestilização de suas embalagens e no lançamento da picanha suína e na lasanha de bacalhau
Panetones também terão alta de 10% nos preços
Presente nas gôndolas dos supermercados desde o fim do mês passado, os panetones chegam aos consumidores mais caros este ano. O aumento varia entre 3% e 10%, segundo os fabricantes. O culpado da vez é o trigo, cujo reajuste no ano foi de quase 90%, o que se refletiu no preço do produto.
A variação ocorre de acordo com o produto. Enquanto os de chocolate têm reajustes que variam de 3% a 6%, os tradicionais de frutas cristalizadas podem estar até 10% mais caro. A razão é que a maior quantidade de chocolate no chocotone reduz o volume de farinha utilizado na fabricação.
A Arcor, que comercializa as marcas Aymoré, Triunfo e Arcor, reajustou os preços de 6% a 10 % este ano, segundo o gerente de Marketing de Biscoitos e Panificados da empresa, Rodrigo Peçanha.
- Apesar de significativo, esse reajuste não vai alterar o hábito das pessoas - disse Peçanha. - É um produto sazonal, e as pessoas consomem mesmo nessa época do ano.
Apesar do aumento, o executivo espera ampliar a participação da Arcor neste mercado este ano dos atuais 3% para 5%, ou perto disso.
A Panificadora Cepam também está otimista. Projeta aumento nas vendas de 8%, enquanto os reajustes devem ficar entre 3%, no caso dos de chocolate, e 6,5%, para o panetone de frutas cristalizadas. (Wilson Gotardello Filho, Jornal do Brasil).