sábado, outubro 06, 2007

O mocinho está vencendo?

Por J. R. Guzzo, Revista Exame

Convivem num mesmo espaço um Brasil arcaico, marcado por negociatas entre políticos, e um Brasil moderno, do trabalho, do mérito e do progresso. A novidade é que o segundo parece estar se descolando do primeiro

O Brasil conhece bem, e há muitos anos, a situação de ter dentro de si diversos países diferentes convivendo ao mesmo tempo. No presente momento, a diferença que mais chama a atenção é a existente entre o Brasil da calamidade e o Brasil da produção. O primeiro, como dizem os mestres- de-cerimônia ao introduzir algum personagem que todo mundo conhece, dispensa apresentações: é o Brasil do governo em particular e da vida pública em geral, visível todo dia e a qualquer hora num noticiário político que cada vez mais se confunde com o noticiário policial. O segundo Brasil é o país do trabalho, do mérito e do progresso -- tão real, tão visível e tão vigoroso em suas virtudes quanto o primeiro é vigoroso em seus vícios. A questão mais relevante do momento, do ponto de vista prático, é determinar até onde o país do governo pode piorar -- e os fatos mostram que ele tem tudo para continuar piorando -- sem que isso torne inviável o país do avanço.

É muito fácil, diante da degeneração crescente da vida pública brasileira, concluir que o filme já terminou e o bandido acabou ganhando. Mais difícil, porque dá mais trabalho, é separar as emoções das realidades -- e quando se faz essa tarefa com aplicação e cabeça fria o que começa a tomar forma é a possibilidade de que esteja ocorrendo exatamente o contrário. Sem dúvida, o Brasil arcaico dá provas diárias de que está mais vivo e atuante do que nunca. Mas, ao mesmo tempo, parece cada vez menos capaz de impedir os avanços do Brasil novo. Não está conseguindo, por exemplo, evitar que o mercado de ações continue a ultrapassar todos os seus recordes; as bolsas acabam de superar os 60 000 pontos, depois de vencer com rapidez inédita a mais recente tempestade financeira mundial. Também não é capaz de travar o avanço dos investimentos estrangeiros, que nos oito primeiros meses do ano chegaram a 26,5 bilhões de dólares, ou 40% mais do que em todo o ano passado -- e podem atingir um recorde histórico até o fim de 2007. Os financiamentos para a construção, até agosto, estão quase 80% acima dos registrados no mesmo período de 2006. O grupo Votorantim decidiu investir 25 bilhões de reais nos próximos cinco anos, e está longe de ser o único a mostrar o que realmente acha do Brasil -- abrindo o bolso em vez da boca. Neste ano, o país vai produzir 10 milhões de computadores, o setor automobilístico opera nos limites de sua capacidade de produção e o agro-negócio volta a viver seus melhores momentos.

Estaria o Brasil chegando ao ponto em que a política gira num eixo e a economia em outro? Os fatos, mais que as idéias ou os desejos, vão responder de um jeito ou de outro a essa pergunta. O que se pode dizer com certeza, hoje, é que encontram-se em operação no país forças positivas que nunca haviam se manifestado antes de forma simultânea. O Brasil parece ter aprendido, de vez, a viver sem inflação como uma situação normal e aceita pelo poder público -- bem ou mal, mas aceita. Pela primeira vez na história, o dólar cai de forma regular, ou não sobe o tempo todo. É também a primeira vez que acontece uma série de outras coisas. Quem jamais ouviu falar que o Brasil pudesse receber algum dia, como receberá neste ano, 6 bilhões de dólares de juros em remuneração das aplicações feitas com suas reservas internacionais? Elas já passaram dos 160 bilhões de dólares e permitem que o país viva, como nunca viveu antes, sem crise no balanço de pagamentos. A despesa pública aumenta numa situação de superávit -- gasta-se cada vez mais e pior, é certo, mas sem que isso provoque déficit. O salário mínimo sobe, em ritmo constante, sem ser anulado pela inflação. Há recursos reais para prover o aumento de renda.

Tudo isso faz diferença, e muita. É o que pode decidir, no fim das contas, qual Brasil vai acabar prevalecendo.